O Brasil é um dos países mais propícios para o empreendedorismo, mas trata muito mal seus empreendedores. Porém, não é apenas o Estado onipresente e a Receita Federal que pioram o clima de negócios em nosso país. Há uma percepção no imaginário popular de que os empresários são culpados pelas desigualdades sociais, embora as pesquisas mostrem que os brasileiros sejam um dos povos com maior vocação empreendedora do mundo. Afinal, de onde vem essa aparente contradição?
Em primeiro lugar, o discurso ideológico é fundamental neste processo. E muitos políticos – a começar pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva – adotam uma narrativa que coloca o empresariado sob suspeita, associando-o a desigualdades sociais, práticas corruptas e exploração. Essa retórica alimenta a desconfiança pública contra as elites econômicas, prejudicando a imagem daqueles que geram empregos.
Há também desigualdades profundas e ciclos de crise econômica que reforçam essa percepção. Empresários que prosperam podem ser vistos como parte de um sistema desigual, ainda que sua atuação seja legítima e necessária para o desenvolvimento. Isso cria um ambiente no qual o sucesso individual é visto com reprovação. Neste contexto, o lucro é particularmente estigmatizado e objeto de críticas de ateus, como os comunistas, e de clérigos, como o Papa Leão 14.
Por fim, a falta de compreensão sobre o funcionamento da economia interefe na análise do papel do empresário em nossa sociedade. A imagem dos tempos do capitalismo selvagem (quando surgiram as ideias marxistas) também contribui para essa percepção, ainda viva na memória de muitos. Sem um entendimento mais amplo, o público em geral interpreta o empresariado de forma simplista e preconceituosa.
Portanto, se o país quiser crescer e avançar, é preciso valorizar o empreendedorismo não apenas na prática, mas também junto à opinião pública, superando preconceitos e promovendo o diálogo. Talvez por conta desses preconceitos, muitos conservadores não gastam seu tempo defendendo o capitalismo, o empresariado e a agenda econômica liberal. Nos discursos públicos e nas postagens de redes sociais, boa parte do conservadorismo brasileiro defende preferencialmente a moral e os bons costumes – ou detrata seus inimigos políticos. O capitalismo é defendido indiretamente, apenas quando um esquerdista é chamado, com desprezo, de comunista.
Ocorre que o Brasil só irá prosperar quando a maioria dos eleitores estiver afinada com a pauta liberal, que defenda a redução do tamanho do Estado e a cobrança de menos impostos. Com isso, o dinheiro vai circular mais e ser dirigido para projetos, poupança e consumo. Muitos conservadores, contudo, enxergam o liberalismo econômico como uma batalha secundária. Mas, afinal, a defesa da moral e dos bons costumes deve estar acima do apoio ao capitalismo e das ideias liberais?
A moral diz respeito a valores que orientam o comportamento humano: respeito, honestidade, responsabilidade, justiça. Os bons costumes são expressões culturais desses valores, moldados por tradições, convivência e normas sociais. Já o capitalismo é um sistema econômico baseado na propriedade privada, na livre iniciativa e na busca por lucro dentro de um mercado competitivo.
Colocar um acima do outro seria como perguntar se o coração é mais importante que o cérebro. Um país sem moral e bons costumes pode ter crescimento econômico, mas dificilmente terá coesão social, confiança institucional ou estabilidade duradoura. Por outro lado, um país que valoriza prioritariamente valores morais, mas sufoca a liberdade econômica, pode enfrentar estagnação e escassez.
Dessa forma, moral e capitalismo deveriam se complementar. O capitalismo precisa de regras morais para funcionar com justiça e responsabilidade. E a moral precisa de um ambiente econômico que permita autonomia, dignidade e prosperidade. Portanto, precisamos garantir um capitalismo ético e eficiente, aliado a uma moral que respeite a liberdade econômica. Defender apenas um lado nos leva a uma equação capenga, que afasta o país de uma prosperidade sustentável. O grande desafio está em construir pontes entre esses conceitos — e não estabelecer hierarquias.
Publicado em 27/11/25