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A inovação que incomoda os gigantes

Aluizio Falcão Filho
8 de novembro de 2025

O uso dos agentes de IA pode reduzir a navegação dos sites de e-comerce e sua receita com anunciantes

Todas as vezes em que surgem novas tecnologias e ferramentas, alguns setores precisam se reinventar – ou perecer. Até julho de 1995, por exemplo, a única opção existente para quem desejava comprar um livro era se dirigir a uma livraria. Naquela data, no entanto, a Amazon deu início à venda online de publicações. Isso tirou da ativa vários estabelecimentos comerciais. Anos depois, a mesma empresa revolucionou o mercado livreiro ao lançar o Kindle, o leitor digital de publicações. Mais uma vez, as companhias que atuavam exclusivamente no mundo do papel foram obrigadas a mudar radicalmente seu modelo de negócios ou fechar as portas.

Agora, curiosamente, a Amazon está reclamando de uma empresa que, surfando a inovação tecnológica, ameaça os seus lucros. A gigante do comércio digital quer a Perplexity bloqueie o uso do Comet, seu browser com Inteligência Artifical embutida, para realizar compras em nome dos usuários.

A Amazon acusa a empresa de IA de violar seus termos de uso ao não deixar claro quando o agente eletrônico está agindo em nome de alguém. Essa prática, na visão do gigante varejista, teria gerado falhas na experiência de compra e riscos à privacidade. A Perplexity rebateu, dizendo que está sendo intimidada por uma concorrente maior e defendeu o direito dos usuários de escolherem livremente seus agentes.

Mas onde está o problema de fato?

A Amazon teme que agentes independentes de IA reduzam a navegação de humanos em seu site. Com uma audiência menor, uma parte do negócio – a publicidade de produtos e marcas – será prejudicada. Se os bots pularem essa etapa e comprarem diretamente, o valor dos anúncios pode cair. O outro lado rebate dizendo que não coleta dados da Amazon e, portanto, não põe risco a privacidade de ninguém. Mas o CEO da Perplexity, Aravind Srinivas, foi além e deu um argumento que nem Issac Asimov havia pensado quando escreveu o clássico da ficção científica “Eu, Robô” – o de que os agentes deveriam ter os mesmos direitos que os usuários reais.

No livro do escritor nascido na Rússia, os androides devem respeitar três leis:

  1. Um robô não pode ferir um ser humano ou, por omissão, permitir que um ser humano venha a ser ferido.
  2. Um robô deve obedecer às ordens dadas por humanos, exceto quando elas conflitem com a Primeira Lei.
  3. Um robô deve proteger sua própria existência, desde que isso não conflite com as duas leis anteriores.

Se tivesse escrito sua obra nos tempos atuais, provavelmente Asimov acreditaria que os agentes deveriam ser utilizados pelos humanos em sites de comércio eletrônico, baseado naquilo que diz a sua segunda lei.

A reação da Amazon é compreensível, pois os robôs de compra podem reduzir substancialmente suas receitas. Esse comportamento, porém, é semelhante ao de outras empresas que se queixavam, anos atrás, de novas tecnologias que poderiam destruir mercados estabelecidos, como fez a Blockbuster (locação física de vídeos) em relação ao streaming, 

Outro exemplo disso foi a Toys “R” Us. Durante o início dos anos 2000, a varejista de brinquedos firmou um acordo para ser o vendedor exclusivo de brinquedos em um no site de e-commerce. O contrato previa que apenas a Toys “R” Us poderia vender brinquedos e produtos relacionados por meio de uma área dedicada (co-branded) neste portal.

Com o tempo, este site lançou a tecnologia de marketplace, permitindo que outros vendedores (inclusive concorrentes da Toys “R” Us) vendessem brinquedos e produtos similares no mesmo ambiente. Isso minou o acordo de exclusividade: rivais, pequenos lojistas e até grandes concorrentes passaram a disputar espaço digital em paridade — algo inimaginável no modelo antigo das lojas físicas.

Qual era essa empresa de comércio eletrônico?

A Amazon.

As duas companhias brigaram na Justiça – e a Toys “R” Us alegou que a abertura da plataforma prejudicava sua exclusividade, sua margem de lucro e o acordo originalmente firmado. Já a Amazon argumentou que o marketplace era um avanço inevitável e que os consumidores deveriam ter liberdade de escolha e melhores preços.

Naquele momento, portanto, a Amazon falou em “avanço inevitável” da tecnologia. Nada como um dia após o outro. Ou deixar de ser uma startup e virar uma companhia que fatura US$ 260 bilhões por ano. Quando as companhias se tornam gigantes, tudo muda de perspectiva – e sempre haverá os novatos que podem, do nada, prejudicar o faturamento dos mandachuvas.

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