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A hora de ficar em segundo plano

Aluizio Falcão Filho
19 de junho de 2025

Li “O primeiro leitor”, de Luiz Schwarcz (imagem), dono da Companhia das Letras, e recomendo. O texto é correto e econômico – mas as histórias narradas são muito boas, até pelos personagens envolvidos na carreira deste que é um dos maiores editores brasileiros. Pela leitura, percebi que não comungamos da mesma visão política. Mesmo assim, é possível admirar a trajetória de um jovem estudante de administração que fundou uma das maiores editoras do país e privou da convivência e da amizade dos maiores escritores do mundo (Rubem Fonseca, Oliver Sachs, Paul Auster, José Saramago, Amos Oz e Susan Sontag, para ficar em alguns). O começo de tudo é um estágio na editora Brasiliense, contratado por Caio Graco Prado.

Me senti parte deste trecho, pois conheci Caio e li várias obras citadas nestes capítulos iniciais. Meu padrinho me levou, quando tinha dezessete anos, uma viagem ao interior de Pernambuco. O destino? A cidade de meu bisavô, Capitulino Falcão, que até hoje dá nome à praça principal. O nome oficial do município é Brejo da Madre de Deus. Mas a cidadezinha é conhecida nacionalmente como Nova Jerusalém, pois lá é encenada, na Semana Santa, a peça “Paixão de Cristo” ao ar livre.

Meu padrinho era deputado estadual e livreiro, revendedor dos títulos da Brasiliense. Assim, estava no grupo juntamente com um dos maiores editores brasileiros. Muito simpático, divertido e antenado. Lá pelas tantas, alguém perguntou a ele qual era seu carro. “Eu dirijo um juggy”, respondeu ele, observando a reação das pessoas. Eu arrisquei: “É um Xavante Gurgel?”. Ele sorriu e me perguntou como eu havia matado a charada. Respondi que o Xavante era uma mistura de jipe com buggy – um “juggy”.

Schwarcz conta como criou coleções importantes para a Brasiliense (“Primeiros Passos” e “Cantadas Literárias”, das quais fui um leitor ávido) e detalhes de sua convivência com Caio Graco. E narra os desentendimentos com o ex-chefe de forma elegante e direta. Também divide o sucesso da Companhia das Letras com alguns de seus colaboradores – entre os quais há duas conhecidas minhas, Maria Emília Bender e Marta Garcia.

O ouro, porém, está nos capítulos nos quais o autor desfila sua convivência com personalidades como o jornalista Paulo Francis e o escritor Philip Roth, além de relembrar histórias marcantes de editores internacionais. Entre eles, destaca-se Bennet Cerf, que conheci através do programa de TV “What’s My Line”, do qual ele era uma espécie de jurado (fiz uma maratona no YouTube dois anos atrás e vi todos os episódios, gravados entre 1950 e 1967).

Ele foi fundamental para a publicação de “Ulysses” nos Estados Unidos, onde o livro de James Joyce estava proibido por ser considerado obsceno. Cerf planejou um caso judicial estratégico: importou uma cópia do livro da França e forçou sua apreensão pela alfândega americana, criando uma oportunidade para contestar a censura. No início, os oficiais alfandegários não queriam apreender o volume, explicando que todo mundo que voltava da Europa trazia uma cópia na bagagem. Depois de um escândalo feito por um advogado contratado pelo editor, o livro foi confiscado, o que permitiu a abertura de um processo.

O caso, julgado em 1933, ganhou um nome curioso: United States versus One Book Called Ulysses (Estados Unidos contra um livro chamado Ulysses). O juiz John Woolsey decidiu que Ulysses não era obsceno, pois sua linguagem e temas não tinham intenção de incitar luxúria, mas sim de representar a realidade humana de forma artística. Com essa vitória, Cerf conseguiu publicar o livro nos EUA, marcando um avanço significativo para a liberdade de expressão na literatura.

Ao final da leitura, confesso, acabei me identificando muito com a saga do autor. Os editores, como os jornalistas, precisam deixar escritores e entrevistados na mira dos holofotes. E necessitam saber que, nessas horas, devem ficar em segundo plano. Toda vez que um editor aparece mais que um escritor ou um jornalista mais que o personagem de uma matéria, pode anotar: alguma coisa estará errada.

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