Como será a condução da economia a partir de 2027? Esse é a pergunta de um milhão de dólares e muitos já estão tentando respondê-la. Há quem aposte, por exemplo, que em caso de vitória do presidente Luiz Inácio Lula da Silva o escolhido será alguém alinhado com o mercado financeiro, com a missão de reduzir a dívida pública, cuja gestão parece ter ficado descontrolada. Do outro lado do tabuleiro, o do senador Flávio Bolsonaro, a expectativa é de que, em caso de triunfo, se escolha um nome ligado ao liberalismo (o próprio candidato já disse isso em algumas ocasiões – uma delas, por sinal, em evento organizado por MONEY REPORT).
Um artigo publicado ontem pelo jornal “Folha de S. Paulo”, no entanto, questiona se Flávio escolheria mesmo um liberal para o ministério da Fazenda. O texto, assinado pela jornalista Carolina Linhares, mostra que a ala conservadora que apoia o senador prefere um político no cargo.
Um trecho deste artigo descreve o seguinte cenário: “Segundo interlocutores de Eduardo [Bolsonaro] disseram à Folha, a Faria Lima tem interesses próprios e vai agir para emplacar um dos seus no ministério da Economia. A leitura é de que liberais são pragmáticos, abraçam qualquer governo, e ministros de Flávio deveriam ter uma agenda anti-Lula (PT). Para essa ala mais ideológica, seria preferível um político do grupo, com lealdade a Flávio, enquanto a área técnica ocuparia o segundo escalão”.
Curiosamente, o ministro que Jair Bolsonaro escolheu para conduzir a economia durante seu mandato foi um dos símbolos máximos do liberalismo brasileiro: o economista Paulo Guedes. E, de fato, ele foi pragmático: adotou em 2022 uma agenda de apoio à reeleição do presidente que pouco tinha de liberal, incluindo a PEC Kamikaze, que permitiu uma pedalada considerável no limite das contas públicas naquele ano.
O nome defendido por esse grupo ideológico seria o do economista Adolfo Sachsida, que se define como um “liberal econômico com valores conservadores”. Os adeptos do bolsonarismo raiz, ainda, torcem o nariz para opções como Roberto Campos Neto (chamuscado com o escândalo do Banco Master), Daniella Marques, Mansueto Almeida e Gustavo Montezano – além do próprio Paulo Guedes.
Esse conflito mostra que todo liberal é de direita, mas nem toda pessoa de direita é liberal. É possível, ainda que contraditório, que alguém defenda os princípios capitalistas e atue para defender uma presença forte do Estado na economia. Ao preferir um político para a pasta da Fazenda, esses conservadores querem alguém com um tipo de flexibilidade que não faria bem a um país que precisa de um novo choque de economia de mercado. Sachsida, porém, é um economista que acredita no equilíbrio das contas públicas e que dificilmente abriria mão de seus valores para agradar a uma corrente política em particular.
Esse tipo de disputa interna revela uma tensão que acompanha a direita brasileira desde que o liberalismo econômico ganhou espaço no debate público. Há quem veja na agenda de mercado um caminho para modernizar o país e criar condições mais favoráveis ao investimento privado. Há também quem considere que a condução da economia deve estar subordinada a prioridades políticas, mesmo que isso implique maior intervenção estatal.
A escolha do ministro da Fazenda, portanto, tende a ser um dos primeiros sinais sobre o rumo que um eventual governo Flávio Bolsonaro pretende adotar. Um nome técnico e comprometido com reformas estruturais indicaria disposição para enfrentar problemas fiscais e buscar maior previsibilidade. Um nome político, por outro lado, sugeriria que a prioridade seria consolidar alianças e atender demandas de grupos específicos.
A condução econômica a partir de 2027 dependerá, em grande medida, dessa escolha inicial. O país enfrenta desafios que exigem clareza de objetivos e capacidade de execução. A definição do comando da Fazenda será um teste importante para medir o grau de compromisso de qualquer governo com a estabilidade, a previsibilidade e a criação de um ambiente mais favorável ao crescimento.