No metrô de Londres, algumas estações têm curvas acentuadas ou diferenças de altura entre o trem e o piso da plataforma. Isso cria um pequeno buraco ou desnível que pode fazer alguém tropeçar, prender o pé ou escorregar ao embarcar ou desembarcar. Por isso, vê-se em todas paradas cartazes que alertam: “Mind the gap” (uma tradução próxima seria “cuidado com o vão”).
Esse aviso, no entanto, não vale apenas para o ato de entrar em um vagão de metrô. Percebi isso ao ver um filme de vinte anos atrás, no qual a personagem da atriz Cate Blanchett (imagem) diz o seguinte: “Meu pai sempre dizia… você sabe, no metrô… ‘Cuidado com o vão’. Pode ser sobre a distância entre a vida com a qual você sonha e a vida como ela é”.
A princípio, essa frase pode parecer o desabafo de alguém frustrado, que esperou muito de sua trajetória e pouco realizou. Ou de quem vive à espera de algo que possa trazer sua existência para fora do marasmo e da frustração. Bem, isso é uma forma de interpretar essa sentença. Mas há outra.
Aquilo que foi dito por Cate Blanchett me trouxe à memória outras duas frases, cada uma sobre a dicotomia entre sonhos e realidade. E me fez pensar que o vão entre o que sonhamos e o cotidiano de fato seja apenas um alvo que precisamos manter vivo dentro de nosso coração.
A primeira frase que lembrei é do poeta Fernando Pessoa: “Tenho em mim todos os sonhos do mundo”. É a sensação de carregar dentro de si possibilidades infinitas dentro de uma vida limitada. Nossa imaginação tem fronteiras mais extensas do que permite a realidade, criando um contraste entre o que poderíamos ser e o que conseguimos realizar. Nosso mundo interior pode ser vasto, cheio de caminhos, desejos e versões possíveis de nós mesmos. Mas precisamos calibrar essa abundância de expectativas e fazê-las caber no mundo concreto. Precisamos compreender e aceitar o conflito entre a amplitude dos sonhos e os limites do tempo, das circunstâncias e da própria condição humana.
Vamos à segunda sentença. “No meio do inverno, aprendi enfim que havia em mim um verão invencível”, do escritor Albert Camus. Trata-se de uma imagem sensacional para definir a resistência interior, contrapondo períodos de escuridão e desalento com nossos impulsos de esperança, uma força interior que não se deixa apagar.
É uma metáfora perfeita para a vitalidade que persiste mesmo quando tudo ao redor de nós desaba. Pode até parecer uma espécie de otimismo ingênuo. Mas, na prática, é persistência que nos impele em direção ao futuro. Camus, com essa máxima, nos ensina que existe dentro de cada pessoa um núcleo de energia, dignidade e impulso de vida que resiste aos momentos de aflição.
Nosso verão interior não depende das circunstâncias externas, pois nasce de uma decisão silenciosa de continuar, de afirmar a própria existência apesar dos absurdos que nos cercam. A verdadeira força que temos dentro de nós não aparece quando tudo vai bem. Esse poder surge bem no meio do inverno, quando descobrimos que ainda carregamos calor suficiente para atravessá-lo.
Por isso, cuidado com o vão. Mas continue olhando para a frente.
