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Você levaria uma arma ao seu escritório?

Provavelmente 99,9% das pessoas responderiam “não” à pergunta estampada acima.

Utilizar uma arma no trabalho, para algumas atividades, não é opcional. Estamos falando de militares, policiais e vigilantes. Estes são profissionais que precisam estar armados para exercer seus ofícios. Mas o que dizer de um ator que ocupa cargo de segundo escalão no governo federal? Esse indivíduo correria risco suficiente para ter de ir trabalhar armado?

Pois Mario Frias (foto), secretário especial de Cultura, acha que sim. Ele faz questão de desfilar pelo escritório da repartição onde dá expediente portando uma pistola Taurus de 9 milímetros colocada acintosamente na cintura.

O secretário assim justificou o pedido de porte de armas junto às autoridades (trata-se de texto, é bom esclarecer, que não foi editado): “Considerando minha condição de Secretário Especial da Cultura, especialmente em um momento político com políticos ataques, ameaças e manifestações violentas contra autoridades que compõem a administração pública federal e, tendo em vista que, na condição de secretário Especial da Cultura, participo de eventos e reuniões em todo Brasil, muitas vezes em meio a protestos e manifestações violentos, faz-se extremamente necessário o porte de arma, ainda mais que frequentemente sou abordado por diversas pessoas para tratativas de vários assuntos, alguns sensíveis e complexos e, às vezes algumas dessas pessoas se constituem de pessoas estranhas a mim e à minha equipe”.

Teoricamente, Frias se sente inseguro em eventos fora de seu ambiente de trabalho e a Taurus poderia reduzir essa sensação de insegurança. Por que, então, o secretário utiliza a arma dentro do escritório?

A resposta mais óbvia talvez seja desagradável: é grande a chance de o secretário mostrar sua arma para intimidar quem vá falar com ele. Você conhece alguém que discorde de um sujeito armado? Eu não – aliás, eu seria o primeiro a concordar com tudo o que o secretário falar diante de mim. Prezo muito a minha vida e não tenho intenção de ser baleado por conta de uma discussão sem importância.

O uso de armas pela população é alvo de uma discussão interminável. Uns argumentam que sua utilização por civis diminui a violência. Outros apontam que, sem treino, um cidadão pode ser facilmente desarmado e sua pistola passar para a mão de criminosos (isso ocorreu com o presidente Jair Bolsonaro em 1995, quando era deputado. Na ocasião, Bolsonaro declarou: “Mesmo armado me senti indefeso”). Mas a discussão, aqui, não é sobre liberar ou controlar armas – mas se é razoável carregar um revólver dentro de um escritório, em um ambiente de acesso monitorado e no qual os riscos são bastante reduzidos.

Ao precisar exibir uma arma enquanto fala com subordinados e fornecedores, Frias passa claramente a mensagem de que não admite contestações e a pistola, em si, é mais do que uma mensagem subliminar. Pelo contrário. É um aviso explícito de que sua palavra será final.

Desta atitude, tiramos duas conclusões. A primeira é a de que o ator não confia muito em seu intelecto para ganhar as discussões e precisa de uma ajuda extra. A segunda? Talvez ele queira repassar a sua sensação de insegurança para terceiros. Em uma reunião, por exemplo, o cidadão armado se sentirá plenamente protegido. O desarmado, no entanto, estará no campo oposto, sentindo-se vulnerável. Neste caso, o secretário parece ser partidário da tese de seu colega de ofício, o ator Clint Eastwood: “Eu tenho uma política muito restrita sobre o controle de armas: se há algum revólver por perto, eu quero estar no controle dele”.

Frias preenche uma posição que já teve status de ministério e cuja cadeira foi ocupada por intelectuais como José Aparecido de Oliveira e Antonio Houaiss. Em vez de atuar como alguém de fato preocupado com a cultura, age de forma intimidatória como se fosse um jagunço. Essa situação toda me lembra um episódio da série britânica de TV “Doctor Who”, na qual o personagem principal diz a um interlocutor: “Você quer armas. Nós estamos em uma livraria. Os livros são as melhores armas do mundo. Esse cômodo tem o maior arsenal que você poderia possuir”.

Mário Frias, no entanto, não se sensibilizaria com essa frase. Entre algum exemplar da editora Simon & Schuster e um revólver da linha Smith & Wesson, ele ficaria com a segunda opção. Sem pensar.

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