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Sobre o Borba Gato: um povo pode cancelar o seu passado?

A estátua do bandeirante Manuel de Borba Gato, localizada no bairro de Santo Amaro, em São Paulo, foi vandalizada no último sábado. Um grupo cercou o monumento, interrompeu a passagem de automóveis na avenida adjacente e ateou fogo ao pedestal da estátua, que mede ao todo 13 metros de altura. O propósito da ação foi promover uma crítica à atuação dos bandeirantes durante sua época, quando escravizaram, oprimiram e mataram boa parte da população indígena que vivia no interior dos territórios paulista e mineiro.

Esse atentado é perigoso, uma vez que promoveu um incêndio em praça pública e poderia ter ferido transeuntes. Muitos classificaram esses manifestantes como terroristas, pois estariam atacando o patrimônio público e passando sua mensagem através de um ato agressivo. Outros, como o deputado federal Ivan Valente, do PSOL, elogiaram a ação: “Ação violenta importante”, escreveu o parlamentar em sua conta no Twitter.

Este acontecimento, independentemente de quem é contra ou a favor, nos leva a uma reflexão: um povo pode cancelar o seu passado?

O passado de todas as nações é manchado (em maior ou menor escala) por violências, escravidão, assassinatos, preconceitos e perseguições dos mais variados tipos. Não temos, evidentemente, que glorificar essas tragédias de outrora. Mas igualmente de nada adianta passarmos uma borracha sobre os acontecimentos de tempos remotos, como se tivéssemos sido sempre politicamente corretos.

Dentro dessa linha, o que ocorrerá a seguir? Uma explosão para destruir o Monumento às Bandeiras, o famoso “empurra-empurra”, criado pelo escultor Victor Brecheret? Ou realizar piquetes na rodovia Raposo Tavares, exigindo que o nome da estrada seja trocado? A demolição das casas bandeirantistas, preservadas no Itaim Bibi e no Butantã?

Algo parecido ocorreu nos Estados Unidos quando algumas localidades retiraram estátuas ou marcos que remetiam aos confederados na Guerra Civil americana do século 19, uma vez que o Sul do país (democrata, por sinal) defendia a escravidão contra o Norte (republicano). Os conservadores protestaram contra o cancelamento. Mas, neste caso, temos um agravante: existe uma cultura sulista que se orgulha do lado defendido nos idos da Secessão, mas se mistura com grupos de supremacistas brancos totalmente incompatíveis com os dias de hoje.

Um espaço público ou uma escultura que remetam ao passado não necessariamente fazem apologia a um período histórico negativo. Há monumentos que lembram atrocidades ou tragédias, mas não as glorificam.

Em relação aos bandeirantes, houve até recentemente uma idealização destes sertanejos, transformados em heróis do desbravamento do país. Mas são poucos aqueles que ligam estátuas como a do Ibirapuera ou a de Santo Amaro às perversidades cometidas na exploração do interior ou a uma idealização daquele período. No caso de Brecheret, os transeuntes enxergam uma canoa atolada, puxada por várias pessoas (e não empurrada, diga-se); em relação ao Borba Gato, a maioria apenas vê uma escultura tamanho família que exalta o kitsch e o gosto duvidoso.

Hoje, quem tem a consciência da violência cometida nas Bandeiras é uma pequena parcela da sociedade. Portanto, não faz sentido que se providencie a remoção oficial destes monumentos sem que a maioria da população seja ouvida. Em um mundo ideal, um plebiscito deveria ocorrer e aqueles que são favoráveis ou contrários às estátuas bandeirantistas poderiam defender seus pontos de vista. Caso os críticos dos bandeirantes ganhassem, esses marcos históricos seriam levados para um museu que explicaria aos visitantes seu devido papel na cronologia brasileira.

O evento ocorrido no sábado, de qualquer forma, deflagrou discussões apaixonadas nas redes sociais. E, para variar, os dois lados começaram a destilar argumentos raivosos. Esse comportamento é reflexo do mundo em que vivemos. Uma estátua horrorosa foi queimada em praça pública, o que é errado. Mas, em nome de uma convicção politicamente correta, muitos se sentem impelidos a defender o erro. Resultado: mais uma vez, assistimos a uma batalha campal no mundo eletrônico, em que o ódio é o principal ingrediente.

O cancelamento histórico, daqui para frente, também chegará ao mundos das artes. Ou melhor, já chegou. Ataca-se hoje, por exemplo, Monteiro Lobato, dizendo que sua obra é racista. Há uma versão politicamente correta da cançoneta infantil “Atirei o Pau no Gato”, para evitar maus tratos com animais. E, recentemente, a exibição do filme “Grease” em uma emissora de televisão na Inglaterra gerou protestos de parte dos telespectadores. A película, de 1978, tinha apenas atores brancos em seu elenco e seu roteiro foi visto como homofóbico e machista.

Certos acontecimentos históricos são reflexos de seu contexto e merecem ser criticados. Mas ao interpretarmos a história sem a compreensão de suas circunstâncias, corremos o risco de chegarmos a conclusões equivocadas. O nome deste fenômeno é Anacronismo e foi explicado com maestria pelo escritor e jornalista Laurentino Gomes em seu livro “Escravidão”: “Anacronismo consiste no uso indevido de valores e referências de uma época para julgar ou avaliar personagens, acontecimentos ou fenômenos de outra. Ou em representar, nas obras de arte, costumes e objetos de um período de tempo a que não pertencem. Seria anacronismo, por exemplo, dizer que Jesus era “de esquerda” ou que imperador romano Júlio César era “de direita”, uma vez que a noção de “esquerda” e “direita” na política só surgiu depois de 1789 nas assembleias da Revolução Francesa, quando os aliados do rei se sentavam à direita e os opositores à esquerda. Seria igualmente anacronismo colocar na cena de um filme ambientado no início do século XIX um telefone, invenção que Alexander Graham Bell só patentearia o seu invento em 1876 (com ajuda do imperador Pedro II, do Brasil, como mostrei no livro 1889)”, escreveu Laurentino.

A polarização política sob a qual vivemos não atinge somente fatos do presente. Ela também nos leva a discutir o passado, só que com os olhos da atualidade. Precisamos estar sempre alertas para que barbaridades de antigamente não se repitam. Mas vamos ter ponderação: atear fogo a uma estátua não é a melhor maneira de denunciar as crueldades do nosso período colonial.

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