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Quando os ricos criticam o capitalismo é porque estão de olho na política

Meu amigo Helio Beltrão ontem escreveu sua coluna na Folha de S. Paulo a respeito do paradoxo vivido por um certo youtuber. Este indivíduo, após ter aproveitado as chances que a plataforma digital oferece a todos e enriquecido, começa a fazer críticas ao capitalismo. Helio aponta que essa sumidade das redes sociais afirmou ter lido alguma coisa de Noam Chomsky e Eduardo Galeano. O resultado dessa leitura seria o surgimento de um inconformismo com a falta de justiça social e que ele estaria preocupado com o “exagerado acúmulo de capital e com o neoliberalismo”.

O youtuber em questão não é o primeiro sujeito rico a fazer críticas ao capitalismo e clamar por igualdade social. Mas, quando isso acontece, é tiro e queda: o ricaço quer entrar na política. Veja o caso de Luciano Huck. Sua carreira na televisão foi construída em cima de programas de auditório e, em determinado momento, começou a fazer ações de cunho social, como reformar a casa de pessoas pobres. Esse quadro reforçou a fama de bom moço do apresentador e, em determinado momento, ele foi cogitado como candidato à presidência da República.

Hoje, correm boatos de que Huck não mais será candidato e que vai substituir Fausto Silva nas tardes de domingo na Globo. Isso explicaria o seu súbito low profile na cena política, depois de frequentar o noticiário há mais de um ano. Mas, logo que seu nome passou a ser considerado seriamente pelos analistas políticos, ele começou a dar opiniões sobre o quadro econômico do Brasil. Em um artigo, por exemplo, afirmou ser a favor de aumentar o imposto sobre grandes fortunas como solução para resolver a desigualdade social que reina no país.

Vamos deixar de lado se esse é o melhor caminho ou não para solucionar a pobreza brasileira. O que temos aqui é, como no caso do youtuber, alguém que parece ter se encantado com a política e viu na crítica ao capitalismo uma boa forma de se projetar junto aos partidos e aos eleitores.

Temos também casos de empresários na vida pública, angariando votos e passando mensagens difíceis de interpretar. Um deles, alto dirigente de sindicato patronal, chegou a ser candidato ao governo de São Paulo pelo Partido Socialista Brasileiro. Como um presidente de entidade empresarial pode ser candidato por um partido que prega o socialismo? Para que não fiquem dúvidas, está escrito o seguinte no programa do PSB: “a socialização realizar-se-á gradativamente até a transferência ao domínio social de todos os bens passíveis de criar riquezas, mantida a propriedade privada, nos limites da possibilidade de sua utilização pessoal”. Ou seja, as empresas devem ser estatizadas. Propriedade privada? Imóveis e veículos – e olhe lá.

Essa mosca azul da política morde alguns membros da elite de tempos em tempos – e alguns estão defendendo o liberalismo na vida pública. Mas não são todos que defendem o sistema que os transformou em pessoas endinheiradas e gera riquezas para o país (sem dúvida, não é um sistema perfeito e gera desigualdades; mas o socialismo, como se viu com o naufrágio da Cortina de Ferro, não é totalmente igualitário e tem problemas estruturais para se viabilizar economicamente).

A busca pelo protagonismo político provavelmente pode ser explicada por uma frase do seriado House of Cards, dita por seu protagonista, Frank Underwood, um político inescrupuloso. Sobre seu ex-assessor, que virou lobista, ele diz: “Que perda de tempo, ele escolheu dinheiro em vez de poder. Nessa cidade, é um engano que todos cometem. Dinheiro é uma mansão suburbana que começa a se deteriorar em dez anos. Poder é uma prédio de pedras antigas que se mantém intacto por séculos”.

Esse rapaz que ganha a vida sendo engraçado no YouTube e critica, agora, o capitalismo (ou o neoliberalismo) gosta de postar fotos exibindo sinais exteriores de riqueza, como carros importados e estadias em hotéis de luxo. Ou seja, está desfrutando do que chama “exagerado acúmulo de capital”. Poderia aproveitar o embalo da crítica e expandir suas ações sociais (fez algumas, como a compra de livros e ajudar um atleta a disputar um torneio internacional).

Aqui vai uma dica: estudar o trabalho espetacular do empresário William Ling, que se dedica a ajudar na educação de jovens e a promover a cultura no Rio Grande do Sul, onde mora. Todas essas ações foram financiadas com o dinheiro acumulado por Ling em suas atividades capitalistas. Ou se mirar no exemplo de Elie Horn, que decidiu doar quase que a maioria de sua fortuna a causas sociais, como o Instituto Liberta, voltado ao combate à exploração sexual de menores. Esses, sim, são exemplos de quem coloca seu dinheiro em favor dos desafortunados – e não ficam apenas no papo-furado raso que domina as redes sociais no Brasil e no mundo.

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