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Quando a paciência se esgota e vem a explosão

Tenho amigos que gostam de me elogiar pela paciência com a qual eu lido com os extremos. Talvez isso ocorra por conta de minha curiosidade, que me faz tentar entender aqueles que pensam diferente de mim. Existem, porém, limites para isso. E, neste fim de semana, encontrei uma barreira intransponível. Resultado: me irritei profundamente e minha elogiada paciência se esgotou. Acredito que tenha manifestado essa explosão de forma elegante. Mas o fato é que me cansei de ouvir loas aos regimes de exceção, aos ditadores e à tortura em particular. Minha paciência é quase infinita. Mas deixo de ser impassível quando chego nesta fronteira – o atentado à democracia, ao Estado de Direito e à integridade física do cidadão.

A paciência, é verdade, não surge apenas da curiosidade. A exercemos também quando somos regidos por objetivos maiores que conversar ou – no limite – vencer um debate. Neste caso, meu propósito como jornalista é ser um cronista do nosso tempo, tentando capturar argumentos que façam sentido em fontes que estão nos diversos matizes do espectro ideológico. Nesta minha jornada, procuro espalhar o bom senso e a capacidade de dialogar junto aos meus interlocutores.

Desta forma, é possível entender a lógica de quem critica o governo de Jair Bolsonaro e a de quem defende o presidente. É difícil dar o devido crédito aos dois lados antes de se chegar a uma conclusão – especialmente quando vivemos em um momento histórico em que as pessoas produzem opiniões antes mesmo que um determinado fato seja finalizado.

Apesar dessa capacidade de ouvir os extremos, no entanto, vivi um momento “enough is enough” no domingo. E percebo que não estou sozinho nesse destempero. Nos últimos dias, as pessoas estão cada vez mais intransigentes e buscando a briga. Foi uma semana que suscitou vários pontos de partida para discussões intermináveis: quem são os vilões da CPI da Pandemia; o governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite, saindo do armário (um segredo de Polichinelo); as manifestações contra Bolsonaro (hashtags rivais: esquerda criminosa versus impeachment); mais um round no debate sobre votos eletrônicos contra sufrágios impressos; proposta de mudanças tributárias; e o Supremo e seus movimentos no caso da Covaxin.

A lista pode até engordar, pois assuntos que têm a ver com os movimentos da Natureza, como a falta de chuvas, viraram motivo para discussões políticas apaixonadas. Isso é de causar um desânimo absoluto. Especialmente quando lembramos que estamos entrando no segundo semestre de 2021 e ainda temos vários meses até que a eleição comece para valer.

Se isso tudo já causa uma tensão significativa agora, imagine como estaremos em junho de 2022, quando a campanha eleitoral estiver em pleno vapor. Os ânimos não devem serenar. Pelo contrário, vão atingir uma octanagem elevadíssima.

Como lidar com essa situação?

Confesso viver um certo esgotamento. Isso surge em função de meu estoicismo particular e minha convicção de que tenho a obrigação de ouvir os dois lados e procurar decifrar o momento que vivemos sem passar pelo filtro de um viés contra ou a favor. Mas vejo pessoas que estão em todos as posições do tabuleiro político igualmente alquebradas.

É como se estivéssemos em um Iron Man. Já nadamos 3,8 quilômetros e pedalamos mais 180. Só que temos de correr, agora, 42,195 quilômetros – o equivalente a uma maratona. Provas de atletismo, mesmo que extenuantes, podem ser completadas através de treinos rigorosos. Eu mesmo posso atestar: sei o que é correr os 42 quilômetros que compõem a maratona. É necessário um treinamento de pelo menos seis meses e qualquer mortal pode obter condicionamento para chegar ao final da prova, desde que se dedique.

Mas como é que alguém consegue treinar a mente para evitar a fadiga diante dessas brigas inevitáveis sobre política, tanto no mundo real como na esfera digital? Provavelmente, a disciplina exigida para evitar o descontrole seja maior que o treinamento físico requerido para corridas de longa distância.

“Adote a cadência da natureza: o seu segredo é a paciência”, poderia dizer o filósofo Ralph Waldo Emerson sobre a indagação acima. Para chegar a essa receita, porém, é necessário um esforço sobre-humano nos dias de hoje. Você consegue? Eu garanto que vou tentar. Mas, depois desse final de semana, não asseguro que vá conseguir.

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