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Por que algumas pessoas precisam falar bem de si mesmas o tempo todo?

Hoje pela manhã, a minha operadora celular me alerta: na última semana, usei meu celular durante seis horas e 29 minutos. Mas essa marcação de tempo é apenas relativa às ligações telefônicas. Passo muito mais tempo pilotando o aparelhinho na internet e nas redes sociais. Recentemente, percebi durante a minha navegação pelo Instagram e Facebook que houve o recrudescimento de um fenômeno antigo: a vaidade está em alta, pelo menos para um determinado grupo de pessoas.

As redes sociais são pródigas em exaltar o lado bom de nossa vida. É raro ver algum amigo se lamuriando de alguma situação ruim – e isso ocorre com frequência em nosso cotidiano. Portanto, temos uma paisagem frequente nas redes sociais mais populares: pessoas malhando na academia, registros de passeios ou fotos de bebidas e de refeições gourmet. Eu não sou exceção. Gosto de postar as fotos de charutos.

Mas uma coisa é o hedonismo. Outra é a vaidade. Há uma intersecção entre essas duas características, é verdade. Porém, uma sobrevive independentemente da outra. E as manifestações de vaidade começam a aflorar neste momento em que as vacinas chegam a um público maior e podem representar a esperança de dias melhores.

Algumas pessoas, neste contexto, começam a exaltar suas próprias qualidades. Por que isso está ocorrendo?

Depois de uma boa temporada, as pessoas começam a ter motivos para celebrar. Novos negócios, realizações, promoções, contratações ou expansões – embora em um ritmo menor que o desejado, a roda da economia começou a girar e provocar conquistas (muitos especialistas preveem um crescimento surpreendente do PIB neste ano, chegando até uma expansão de 5,5 %). Neste cenário, muitos sentiram orgulho do que fizeram e resolveram manifestar seu sentimento.

Mas, novamente, orgulho e vaidade diferem entre si. A escritora Jane Austen, autora de “Orgulho e Preconceito”, escreveu: “Vaidade e orgulho são coisas diferentes, embora essas palavras sejam usadas quase que como sinônimos. Uma pessoa pode ser orgulhosa sem ser vaidosa. Orgulho é algo mais ligado à opinião que temos de nós mesmos. Já a vaidade tem a ver com o que os outros pensam de nós”.

Continuando o raciocínio de Austen. O orgulho é algo que está dentro de nós e pode ser um sentimento inabalável. Já a vaidade depende dos outros para ser exercitada – e, em tempos recentes, essa interação entre vaidosos e as demais pessoas passou a se chamar “biscoitagem”. Como nos treinamentos caninos, em que uma ação correta é recompensada com biscoitos, o vaidoso joga um post na rede com a expectativa de receber elogios.

Essa necessidade de se pescar cumprimentos na rede pode gerar julgamentos ácidos por parte dos espectadores mais críticos. Isso ocorre frequentemente porque a vaidade mexe com nossa percepção. Em troca de elogios, não analisamos com frieza nosso comportamento e corremos o risco de exagerar.

Jornalistas, como eu, costumam ter o ego inchado. Mas falar bem se si mesmo é algo que aprendemos a refrear com o tempo – e, quando tentamos fazê-lo, não vemos graça nenhuma. É como fazer cócegas em si mesmo. Não produz uma só gargalhada.

Isso posto, os jornalistas buscam falar bem de si mesmos através de narrativas sutis. Um exemplo disso ocorreu em uma publicação na qual trabalhei quando jovem. O Papa tinha dado uma entrevista coletiva e tínhamos lá um jornalista nosso. Ele escreveu algo parecido com “a primeira pergunta foi feita em italiano por este jornalista”. A frase, com uma dose considerável de cabotinismo, foi a deixa para que uma piada fosse produzida imediatamente na redação. Era mais ou menos assim: um repórter recém-formado vai a uma coletiva do Papa e não sabe quem é o pontífice. Pergunta para um colega, que resolve o problema:

– Está vendo o Fulano de Tal (aqui entrava o nome do jornalista que fez a pergunta em italiano)? O Papa é aquele velhinho ao lado dele…

Por essas e por outras que evitamos textos cabotinos e auto laudatórios (há exceções à regra, é claro). Mas muitos cronistas do Facebook, LinkedIn e Instagram não ingeriram o antídoto contra a vaidade. E acabam escorregando ao exagerar na musculação do próprio ego. A escritora francesa Amandine Dupin, que ficou internacionalmente famosa com o pseudônimo de George Sand (autora de “A História da Minha Vida”), era particularmente ferina com essa fraqueza humana. Sobre essa característica, considerada uma dos sete pecados capitais (às vezes definida como “soberba”), ela dizia: “A vaidade é a areia movediça da razão”.

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