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Por que a imprensa é sempre a culpada de plantão?

Por que a imprensa é sempre a culpada de plantão?

Responda rápido. A frase “a imprensa é inimiga do povo” foi dita por quem? Dou três alternativas: Mao Tsé-Tung, Richard Nixon ou Josef Stálin. Acertou quem cravou todas as alternativas. Em algum momento de suas vidas, esses mandatários de potências mundiais achincalharam a mídia usando quase que as mesmas palavras.

Nos últimos anos, essa animosidade vem sendo uma constante no Brasil. Mas os governantes andam às turras com os jornalistas nacionais desde a época de Dom Pedro I. O imperador, por sinal, se indispôs tanto com os veículos de comunicação que processou dois colunistas: Borges da Fonseca e Líbero Badaró (assassinado, por sinal, num crime sem solução até hoje).

Convenhamos: o jornalismo é sempre o culpado de plantão. Recentemente, tanto esquerda (durante a ascensão do Partido dos Trabalhadores ao poder) como direita (os anos Bolsonaro) fustigam os jornalistas. A direita enxerga na profissão um antro de esquerdistas; já a esquerda olha para os veículos de imprensa e os julga instituições golpistas, responsáveis pelo impeachment de Dilma Rousseff.

MONEY REPORT que o diga. No início de suas atividades, o portal teve um repórter assediado em frente ao Sindicato dos Metalúrgicos do ABC no dia em que Luiz Inácio Lula da Silva foi preso pela Polícia Federal. Depois, sofreu três ataques que tiraram o site do ar. Em pelo menos um dos casos, hackers colocaram palavras de ordem da esquerda em nossa Home Page. Nas demais ocasiões, antes das invasões cibernéticas, MONEY REPORT havia recebido ameaças, via rede sociais, de pessoas aparentemente alinhadas com uma candidatura de direita.

É muito comum ouvir críticas sobre a atuação da imprensa e há um comentário onipresente: jornais, revistas e TVs batem no governo porque a Secretaria da Comunicação não anuncia mais nestes veículos. Os apupos, assim, seriam fruto de uma chantagem e as críticas cessariam assim que o dinheiro público aterrissasse nos cofres das empresas jornalísticas. Em primeiro lugar, há veículos que, sim, trabalham deste modo. Têm um histórico de bater nos inimigos para receber uma gorda verba publicitária. Isso ocorre na imprensa brasileira desde os tempos de Assis Chateaubriand.

Mas é preciso ressaltar que os órgãos vendidos de comunicação são minoria absoluta na grande imprensa. Há outras diretrizes, que não o dinheiro, que fazem uma empresa jornalística cutucar algum governante. O primeiro motivo é ideológico. Um jornal conservador e alinhado com a direita, como o Estadão, pode bater em um governo de esquerda – como o fez em diversas ocasiões durante a gestão de Lula e de Dilma – por conta de seus valores. Mas esse mesmo Estadão fez oposição ao governo militar (após ter apoiado o início do regime) nos anos 1970 por protestar contra a censura, a tortura e a falta de democracia. Qual a razão? O comprometimento do matutino paulista com o Estado de Direito.

Reclama-se que os veículos só trazem notícias ruins. Isso não deixa de ser verdadeiro. Mas há um quê de “ovo ou galinha” nessa discussão. O público claramente consome mais notícias negativas que positivas. Se o jornalismo fosse uma quitanda, por exemplo, seus fregueses iriam preferir a chicória ao chocolate. O dono da venda, então, tem de deixar a chicória de lado porque o chocolate é mais gostoso? Não necessariamente. Quem manda nos veículos de comunicação é o consumidor. Se ele não produz audiência para órgão de imprensa, não há como vender publicidade ou ganhar dinheiro com a circulação. Portanto, esse é um dos motivos para a linha editorial de muitos jornais, revistas e noticiários televisivos: o público prefere notícias negativas.

O tom negativista também tem a ver com a formação profissional do jornalista. Nosso olho é treinado para prestar atenção naquilo que está errado. Nossos ouvidos registram a contradição. Nossa desconfiança nos leva à dúvida. O faro jornalístico empurra o repórter quase que obrigatoriamente para histórias nada bonitas – corrupção, por exemplo, é um alvo constante. Desafios à democracia também. Idem para escorregões morais.

Assim, a busca pelo furo é algo primordial para o profissional de imprensa. Isso, para vários, é mais importante que dinheiro ou até ideologia. Tome-se o exemplo de um jornalista que trabalhou comigo há mais de quinze anos. Ele sempre foi ligado ao PT e até trabalhou nos governos do partido. Mas, enquanto esteve em minha redação, trouxe várias pautas que fustigavam Lula e José Dirceu. Contra as suas, digamos, convicções ideológicas. Por quê? Porque o furo estava em primeiro lugar.

Estamos numa época em que Lula e Bolsonaro atacam com frequência os jornalistas. Talvez isso seja um sinal de que a imprensa esteja no caminho correto, desagradando aos dois extremos do espectro ideológico.

É comum encontrar inúmeras menções desabonadoras à atuação dos jornalistas. E das emissoras de TV. E dos jornais ou das revistas. Mas há uma arma muito poderosa para os descontentes. É só ignorar. Não leia, não ouça, não assista se você discorda de um determinado conteúdo. Essa é a melhor forma de pressão: não gerar audiência.

Uma coisa é certa. A imprensa está sempre ao lado da democracia. Onde há ditadura, não existem jornalistas livres. Um exemplo disso está nessa frase de Vladimir Lênin: “Quando se faz uma revolução, pode-se ir para frente ou para trás; aquele fala sobre a liberdade de imprensa vai para trás e interrompe o caminho em direção ao socialismo”.

Uma dúvida ronda as redações: de onde vem essa raiva toda? Por que a imprensa é sempre culpada de tudo? A resposta é simples: estamos numa época em que a intolerância rola solta. Todos querem ter razão sobre tudo durante o tempo inteiro. Nesse show de extremismos, no qual ativistas estão ao alcance de um clique no mouse, atacar aqueles que pensam de maneira diferente, ou que contam histórias de uma forma diversa, é a melhor forma de extravasar. Sem contar aqueles que fazem um barulho imenso porque têm uma legião de robôs à disposição para espalhar, apoiar ou detonar uma determinada ideia.

Quando surgiram as primeiras notícias sobre a saída de Sergio Moro do Governo, MONEY REPORT deu uma nota e a replicou nas redes sociais. Neste post, sofreu uma avalanche de comentários com a hashtag “fakenews”, além de outros impropérios, todos seguindo a mesma sintaxe. Um dia depois, no entanto, Moro pediu demissão. Os militantes digitais funcionam assim, em bando , e destilam uma raiva opressora.

No mundo analógico, anos atrás, essas pessoas ficavam pregando sozinhas no deserto. Hoje, no entanto, conseguem arregimentar plateias rapidamente. E começam um processo interminável de autoalimentação. É por isso que a guerra contra os jornalistas está longe de terminar. Pelo contrário. As redes sociais incentivam e reúnem os consensos. E formam grupos que agem em uníssono para atacar inimigos, como a imprensa. Sinceramente, não sei onde tudo isso vai parar. Mas temo pela integridade física daqueles que estão na mira dos extremistas. Especialmente nesses tempos de pandemia, nos quais o estresse e a ansiedade andam em seus níveis máximos. A nós, da imprensa, só resta uma coisa: torcer para que o ódio não triunfe.  

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