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O que aprendi na revista Veja dos anos 1980

Exatamente 35 anos atrás, em 2 de junho, eu entrava no prédio da Editora Abril para começar o grande desafio da minha curta carreira jornalística: ser repórter da revista Veja. Naquela época, era a mais prestigiosa redação do Brasil e contava com duas lendas do jornalismo, que compunham a chefia máxima do sétimo andar do prédio que ficava na Marginal do Tietê. Esses dois caciques, ativos até hoje, foram exemplos para toda a minha geração: José Roberto Guzzo (à esquerda na foto) e Elio Gaspari (à direita).

Fiquei dois anos por lá, de onde saí para trabalhar durante muitos anos para a EXAME. Ao olhar para o passado, confesso que essa experiência poderia ter sido mais frutífera se eu tivesse, na época, a percepção de quão diferente e especial era aquele ambiente de trabalho.

Quando jovens, olhamos com reverência para os mais velhos. Mas, ao mesmo tempo, temos um futuro pela frente e a expectativa de sermos melhores que nossos mestres. Porém, ao atingir uma certa idade, olhamos para trás e percebemos o quanto aprendemos apenas por observação e exemplo. No caso de Guzzo e Elio, é possível dizer que os dois foram modelos inesquecíveis para um jovem jornalista como eu.

Esse ataque saudosista se deve à conjunção de três fatores. O primeiro é a data, um aniversário de 35 anos. O outro foi a comemoração, ontem, do Dia Nacional da Imprensa. Por fim, nesta mesma semana, publicou-se a notícia de que aquele prédio da Abril na Marginal (onde entrei três décadas e meia atrás) foi vendido para a rede de lojas Marabraz.

Diante dessa trinca de motivos, me peguei pensando o quanto essa dupla, involuntariamente, ajudou a formar o profissional que sou hoje. Não que eles tenham sido meus únicos professores informais. Pelo contrário, trabalhei e convivi com outras pessoas que também me ensinaram muito, como Antonio Machado de Barros, Paulo Nogueira, Merval Pereira e Augusto Nunes.

Mas Guzzo e Elio faziam uma dupla espetacular no comando de Veja. Um complementava o outro de uma forma impressionante e havia um respeito mútuo fortíssimo naquele período. O resultado dessa colaboração era reconhecido pela sociedade e a revista era admirada e temida por sua credibilidade.

Em minha primeira semana de trabalho, ouvi o seguinte conselho de um colega: leia com atenção as cartas do editor, que são escritas pelo próprio Guzzo. Segui a sugestão e passei a ter verdadeiras aulas semanais de redação. Talvez seja o melhor texto jornalístico que já li. Mas, em termos estilísticos, Guzzo tem ainda uma outra característica desconhecida pela maioria das pessoas. Ele é capaz de editar qualquer texto de forma excepcional, melhorando-o e mantendo suas características originais.

Há editores e editores de texto. Muitos exercem sua função com maestria, mas reescrevem implacavelmente aquilo que o autor redigiu. Guzzo, ao contrário, faz uma edição tão excepcional que o redator inicial irá enxergar seu estilo e palavras no texto publicado. Parece ser algo fácil, mas não é. Trata-se de uma arte oculta e que deve se perder com o tempo. Sempre busquei executar esse mesmo tipo de edição e acredito ter conseguido atingir esse objetivo. Mas somente aqueles que trabalharam comigo podem atestar se eu tenho razão ou não.

Além disso, Guzzo sempre teve uma percepção impressionante sobre os temas que iriam chamar a atenção da classe média brasileira – o principal público de Veja nos anos 1980. Com uma espécie de conservadorismo pragmático, ele avaliava com destreza as pautas de comportamento que aterrissavam em sua mesa. Mas quase sempre contribuía com uma visão original, que surpreendia seus leitores. Era como se ele adivinhasse o que os leitores queriam ler, mas ainda não sabiam disso. Há apenas alguém no mundo da comunicação brasileira com esse mesmo talento: José Bonifácio de Oliveira, que criou a grade de programação da TV Globo dos anos 1960 aos 1990.

Guzzo é visto hoje por muitos como um jornalista bolsonarista, machista e homofóbico. Eu, porém, o enxergo como ele sempre foi: um conservador sem travas na língua. Essa combinação, no mundo de hoje, é capaz de despertar raiva e cancelamento. Mas, em diversas ocasiões, chama a atenção para acertos do governo atual e critica membros dos poderes legislativo e judiciário com bastante acurácia. Não se pode concordar com tudo o que ele escreve. Mas é uma das vozes inteligentes da direita e subestimá-lo em um debate pode ser um erro grave.

Quanto a Elio Gaspari, há apenas uma palavra para descrevê-lo: gênio. Dono de um raciocínio supersônico, ele é capaz de dar um nó até na cabeça de um vencedor do Prêmio Nobel. Tem a capacidade de encontrar uma forma original de enxergar um fato exaustivamente comentado pelos colegas e desconcertar todos. Surpreende seus interlocutores com metáforas inesperadas e divertidas – mas nem sempre favoráveis ao companheiro de conversa.

Foi um dos primeiros jornalistas que vi desafiar a cultura de esquerda que reinava (muitos afirmam que ainda reina) nas redações da longínqua década de 1980. Os fechamentos de Veja eram muito demorados, avançando pelas noites de quinta-feira e chegando à madrugada de sexta para sábado. Era muito comum irmos para casa às 4 da manhã, por exemplo. Elio permanecia nesse sétimo andar até muito tarde, mas invariavelmente saía mais cedo que os subalternos. Quando estava indo embora, gostava de soltar a seguinte piada: “Estou indo embora agora porque eu venci em 1964 e vocês perderam”.

A genialidade de Elio vinha acompanhada do temperamento difícil. Medíamos as palavras antes de falar com ele, pois a chance de tomarmos um invertida a troco de nada era enorme. Todos nós queríamos ser geniais como Elio. Mas, infelizmente, brilhantismo não é algo que se obtém com treinamento ou experiência. Assim, alguns de meus ex-colegas assimilaram um pouco da acidez que ele desfiava naquela época (mas, quando saiu do comando da redação, passando à condição de correspondente em Nova York e depois de colunista, se tornou uma pessoa de convívio mais fácil).

Em um determinado momento, fiz uma bobagem nessa minha passagem de dois anos por Veja: fui à Amazônia fazer uma reportagem sobre petróleo e não escrevi a matéria quando deveria. Uma irresponsabilidade típica dos jovens. Elio quis me demitir, com razão, e fui segurado no cargo por meu chefe. Fiquei em sua geladeira particular por alguns meses, até que fui perdoado. Anos mais tarde, quando assumi a direção da revista Época, nos encontramos e falamos sobre o episódio, que ele generosamente superou.

Elio foi o melhor repórter que vi em ação, mesmo encastelado em um cargo de diretoria. Sua experiência como colaborador do colunista carioca Ibrahim Sued foi importantíssima para aflorar esse talento. Conseguia arrancar a verdade dos entrevistados e obter documentos secretos com uma facilidade impressionante. Foi assim que abiscoitou o arquivo pessoal do ex-presidente Ernesto Geisel, que ajudou bastante nas pesquisas para seus livros sobre a ditadura militar.

Era capaz de tiradas divertidas e desconcertantes. Certa vez, marquei uma entrevista com o ex-ministro da Fazenda, Dilson Funaro, e fui perguntar se havia algo que ele gostaria de indagar ao criador do Plano Cruzado. Elio, então, me sugeriu a seguinte pergunta: “Vamos supor que o senhor esteja num balão, acompanhado do presidente José Sarney, do deputado Ulysses Guimarães, do secretário particular do presidente, Jorge Murad, e do consultor-geral da República, Saulo Ramos. Imagine que ocorra um problema sucessivo de peso – e o senhor tenha de se livrar dos tripulantes. Quem o senhor jogaria para fora do balão e em que ordem?”.

Há poucos dias, encontrei, separadamente, os dois em restaurantes de São Paulo. Guzzo passou rapidamente por mim e me cumprimentou de forma discreta, como é de seu feitio. Já com Elio troquei algumas palavras e me diverti com o fato de que ele renunciou ao uso do telefone celular, pois chegou a uma idade que faz apenas o que tem vontade. É espetacular que ambos estejam escrevendo semanalmente em jornais de grande circulação, com sua capacidade profissional reconhecida e prestigiada. Muitos jornalistas brilhantes não conseguiram fazer o que eles realizam na casa dos setenta anos de idade – provocar discussões, gerar amor ou ódio e continuar como cronistas de um país cada vez mais complexo e difícil de entender.

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