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“O Gambito da Rainha” na vida empresarial

A série “O Gambito da Rainha” se tornou a produção mais assistida na Netflix de todos os tempos, ultrapassando nomes estrelados como “The Crown” e “House of Cards” (62 milhões de pessoas viram nos primeiros 28 dias de exibição). Trata-se de uma surpresa, apesar do roteiro fabuloso, interpretações excepcionais e de uma realização caprichada. Por que o espanto? Pelo fato de toda a história girar em torno de uma jogadora de xadrez e sua ascensão no mundo dos tabuleiros. Há, evidentemente, tramas paralelas, muitos personagens interessantes, vício em substâncias químicas e – por que não? – feminismo. Mas estamos falando de um seriado sobre xadrez. Não é exatamente um tema palpitante ou uma prática popular.

Me peguei ontem à noite, olhando para o teto do meu quarto, exatamente como Elizabeth Harmon, a personagem vivida pela atriz Anya Taylor-Joy. Em vez de enxergar as peças brancas e pretas que se movimentavam freneticamente sozinhas, como ocorre em algumas cenas de “Gambito”, tentava encontrar uma explicação para o sucesso do seriado, apesar de uma temática um tanto nerd e fora de moda.

A primeira razão que me veio à cabeça foi a complexidade da personagem principal, que atinge as pessoas individualmente em suas nuances: uns se identificam com o passado difícil da protagonista, outros com sua dedicação ao jogo e também existem os que se aplaudem uma mulher invadindo o Clube do Bolinha e chegando ao topo da cadeia alimentar.

Mas o que me chama mesmo a atenção nessa série é que existe algo que pode ser aplicado em nossas vidas e especialmente no mundo empresarial. A enxadrista Harmon é uma jovem genial que ganha as partidas por sua memória prodigiosa, grande habilidade e, ao final, por sua capacidade de improvisação. Talvez ela não seja a melhor jogadora apresentada no enredo (Benny Watts, vivido por Thomas Brodie-Sangster, certamente tem essa primazia), mas é a única obcecada por entender suas vitórias e derrotas.

Está aqui o ponto que pode e deve ser utilizado em nossas jornadas particulares.

Quando perdemos, ficamos corroídos em sentimentos negativos, como raiva, tristeza, inveja e outros tantos. São emoções tão opressoras que ficamos a dois passos da depressão – isso quando nos deprimimos de verdade. A derrota, seja no campo emocional como na vida profissional, nos põe para baixo e diminui nossa capacidade de raciocínio. O que fazia a personagem Beth Harmon após sofrer um revés nos torneios? Ela deitava-se em sua cama e ficava revendo o jogo em sua mente, tentando entender qual teria sido o momento em que perdera a partida.

Essa é uma capacidade rara entre nós, pois uma derrota nos destrói por dentro. São poucos, porém, os que refreiam as emoções e tentam entender porque perderam. Quando somos preteridos em uma promoção, não fechamos um negócio ou enfrentamos algum tipo de fracasso, não paramos para tentar entender o que nos levou ao infortúnio.  Mas, como a personagem principal desta série, devemos dedicar algum tempo para compreender o que aconteceu. Sem nos martirizar, diga-se. Rever toda a situação como se você não estivesse envolvido. É difícil (quase impossível, até), mas pelo menos uma tentativa deve ser feita. Dessa maneira, erros do passado podem ser evitados e novas estratégias, mais criativas, têm a chance de surgir em nossas mentes.

Mas Elizabeth Harmon não ficava ruminando apenas o que tinha feito em uma derrota. Ela passava pelo mesmo processo após as vitórias. Em sua mente, ela revivia cada jogada para saber qual momento fora decisivo em seu triunfo. Efetuar esse tipo de análise após uma vitória provavelmente é algo muito mais difícil de se fazer do que em uma fatalidade. Quando ganhamos, ficamos eufóricos e queremos curtir o êxtase da conquista. Lembrar e relembrar o momento em que nos tornamos vencedores. Mas raras vezes paramos para questionar o que nos levou ao lugar mais alto do pódio.

Entender uma vitória, no entanto, é tão importante quanto compreender uma derrota. Nos dá uma perspectiva clara de nossa estratégia e nos alerta sobre o que poderia ter ocorrido para reverter um resultado positivo. E, ao entendermos o que o outro lado fez de errado, podemos nos preparar para adversários que não vão cometer o mesmo erro.

No fundo, os movimentos de nossa carreira profissional, assim como os de um empresário ou de um CEO, são semelhantes aos realizados nas 64 casas de um tabuleiro. Há sempre um adversário principal e as peças inimigas sempre nos estimulam a avaliar riscos e, muitas vezes, sacrificar elementos importantes em função da tática adotada. Na vida real como no ritual dos enxadristas, o segredo, além de entender profundamente as regras do jogo e ter uma memória estupenda para lembrar de movimentos clássicos e das soluções criadas pelos grandes mestres, é não se deixar levar pela emoção e tentar ser rápido, letal e frio.

Finalmente, uma última razão que explica o sucesso deste seriado: a capacidade de narrar com encantamento e ritmo frenético uma atividade que a maioria da população julga ser tediosa e demorada. Trata-se de um paradoxo tão surpreendente que acaba conquistando praticamente todos os espectadores que arriscam uma espiadela despretensiosa. Somente por isso já seria uma produção genial. Quando somamos um elenco fabuloso, elementos de narrativa criativos e personagens consistentes, chagamos a um nível de qualidade raramente obtido na televisão. Por isso e pelas lições de vida subliminares, “Gambito” leva, fácil, uma nota dez. Se você é um dos poucos que ignorou essa série, não perca mais tempo. Aproveite o final de semana e faça uma maratona (o que os americanos chamam de “binge watching”) entre sábado e domingo. Vale a pena.

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