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O dia em que fui confundido com um terrorista

Os americanos que eram adultos nos anos 1960 faziam entre si uma pergunta frequente: onde você estava quando Kennedy foi baleado? Na minha geração, a questão equivalente é: o que fazia enquanto houve o atentado às Torres Gêmeas em 11 de setembro de 2001? Hoje, faz exatamente dezenove anos que ocorreu o a ação terrorista que mudou para sempre o mundo. E essa é uma pergunta feita internacionalmente, já que as imagens foram transmitidas para todos os continentes da Terra.

Onde eu estava? Em minha sala de trabalho, quando um colega entrou esbaforido e disse: “Um maluco bateu o avião no World Trade Center”. Fomos para a sala de reuniões e ligamos a TV. Em minha cabeça, achei que um monomotor havia se chocado por acidente contra uma das torres. Ao ver a quantidade de fumaça, no entanto, percebi que a coisa era bem diferente do que havia imaginado. E fiquei sentado naquela sala durante o dia inteiro, entrando em estado de choque – como todos ficaram – quando o segundo avião atingiu o prédio sul e, mais tarde, quando as duas construções icônicas desabaram.

Rigorosamente um ano antes, numa coincidência atroz, tivera um almoço com uma delegação de publicitários brasileiros no restaurante que ficava no topo de um desses arranha-céus. Se os terroristas pensassem em efetuar seu ataque com doze meses de antecedência, talvez eu não estivesse aqui para escrever essa coluna.

Visitei Nova York um mês depois da explosão do World Trade Center e testemunhei a mudança radical nos protocolos de segurança, muito mais rigorosos e demorados – algo que vivemos até hoje quando entramos nos aeroportos. Mas foi na Alfândega novaiorquina que percebi uma mudança sensível.

Em 2000 e 2001, fui inúmeras vezes a Manhattan a trabalho. Algo corriqueiro até então, mas que passou a chamar a atenção de todos os oficiais de imigração com quem falei depois do ato terrorista, pois a paranoia se instalou naquele setor do aeroporto (com razão, diante da tragédia que ocorrera).

Nessa primeira viagem pós 11/9, o oficial escrutinou o passaporte, anotou todas as vezes que havia ingressado dos Estados Unidos em 2001 e me olhou com desconfiança. Depois de certo silêncio, me perguntou: “Quantos muçulmanos há no Brasil?”. Estranhei a questão e chutei que talvez houvesse uma quantidade semelhante à da comunidade judaica (na verdade, o Censo de 2010 diz que, naquele ano, havia 35 000 muçulmanos e 107 000 judeus), muito pequena em relação à população total. Fiquei, porém, incomodado com a pergunta, pois havia uma insinuação no ar. Naquele momento, para o americano médio, todo muçulmano era terrorista (um evidente exagero).

O agente fez mais algumas anotações e passou a me olhar diretamente nos olhos. Houve, então, o seguinte diálogo:

– Como muçulmano, como é sua vida no Brasil?

– Muçulmano? De onde você tirou essa ideia? Eu sou católico.

– Nada disso, você é muçulmano. Eu posso dizer isso com certeza.

– Por quê? Por causa da minha aparência?

– Não. Por causa do seu nome.

– Falcão é um sobrenome português com origens britânicas. Não tenho nem ancestrais mouros.

–  Não estou me referindo ao seu sobrenome e sim ao seu primeiro nome.

– Meu primeiro nome?

– Sim. Seu primeiro nome: Al-Uizio…

Neste momento, sorri ironicamente e falei:

– Sim, claro. Eu e também os Alberts e Alans que moram aqui nos Estados Unidos. Somos todos muçulmanos só porque nossos nomes começam com as letras “A” e “L”.

O rapaz ficou me olhando por cinco segundos, carimbou meu passaporte e me mandou seguir em frente. Percebi um certo desapontamento – ele provavelmente me julgara um discípulo de Osama Bin Laden e achou que iria pegar um terrorista disfarçado de jornalista. Até achei que seria parado mais tarde, mas nada aconteceu e fui diretamente à fila de táxi, sem ser incomodado. Hoje, quando penso nessa história, fico imaginando: se o agente de imigração insistisse naquela maluquice, como eu iria provar às autoridades competentes que não era um adorador de Maomé?

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