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Ascensão da direita – o Big Bang foi em junho de 2013

Em um episódio de Jornada nas Estrelas, chamado “The City in The Edge of Forever” (“A Cidade à Beira da Eternidade”, em inglês), os personagens James Kirk e Spock voltam no tempo e vão parar numa casa de caridade nos anos 1930. Este local é liderado por uma pacifista vivida pela atriz Joan Collins. Mas Spock descobre que aquele é um momento em que a história se bifurca. A moça vai morrer em alguns dias, vítima de atropelamento. Mas, se ela sobreviver, vai liderar uma campanha de paz que evitará a entrada dos Estados Unidos na Segunda Guerra Mundial, propiciando a vitória dos nazistas e mudando a história da Terra. O capitão Kirk, então, tem diante de si um dilema moral: deixar ou não a moça sobreviver?

Este episódio (meu favorito da série, na foto) me veio à cabeça quando tentei encontrar o momento no qual surgiram as condições que deram a Jair Bolsonaro tração para conquistar a presidência da República – uma espécie de Big Bang da direita brasileira.

Talvez esse momento tenha sido a manifestação de junho de 2013, quando o Movimento do Passe Livre organizou uma concentração para protestar contra um singelo aumento de vinte centavos na tarifa do ônibus na cidade de São Paulo (o salto definitivo, porém, ocorreria nas manifestações de 2015, especialmente as da avenida Paulista). Já se vão sete anos, mas provavelmente tenha sido nesse exato momento que – como no episódio de Jornada nas Estrelas – a história tivesse diante de si uma bifurcação.

Me peguei perguntando: e se Fernando Haddad (prefeito de São Paulo na época) não tivesse cedido à pressão do então governador Geraldo Alckmin e elevado as tarifas de transporte? O que poderia ter acontecido?

Duas hipóteses me ocorrem:

Este movimento começou com um viés de esquerda (a redução da passagem) e acabou abrindo espaços para protestos diversos, muitos dos quais bandeiras da direita. Era um tipo diferente de passeata, pois juntava manifestantes de várias matizes políticas. Caso a tarifa fosse mantida em R$ 3,20 em vez de R$ 3,00, poderia ter havido um foco em cima dos tais vinte centavos, reduzindo a força dos direitistas e liberais dentro do processo. Possivelmente, eles ganhariam tração de qualquer forma dois anos depois – até porque o modelo econômico de Dilma Rousseff faria água de qualquer jeito a partir de 2014. Mas o futuro poderia ser moldado de outra forma, dando condições de crescimento a outro candidato que não Bolsonaro.

Segunda possibilidade: ao ratificar o aumento, Haddad correria o risco involuntário de elevar a octanagem dos protestos e abrir espaço para que as correntes de direita ganhassem mais espaço nas passeatas. Com isso, a oposição a Dilma iria crescer e impulsionar a oposição e, em especial, a candidatura de Aécio Neves, que foi derrotada em 2014.

Esse grande “what if” (“e se”, em inglês) é apenas um exercício intelectual sobre o passado e não serve para muita coisa, a não ser abrir espaço para que tentemos enxergar melhor os momentos históricos que testemunhamos. Muitas vezes, fatos importantíssimos estão ocorrendo diante de nós e não percebemos sua relevância.

Dois exemplos ilustram bem essa situação e, curiosamente, ambos estão no campo da música. Um está registrado na obra de Danuza Leão. Quando lembrava das reuniões promovidas no apartamento de sua família e organizadas por sua irmã caçula, Nara, ela disse que nunca prestou muita atenção naquelas rodinhas de violão. Os encontros foram cruciais para a criação do movimento que mudou a música brasileira – a Bossa Nova. Mas Danuza deve ter interpretado aquilo com o enfado dos adultos e viu nas reuniões uma manifestação qualquer de garotos ligados à mana adolescente. Rita Lee também teve um desses momentos. Estava junto a Caetano Veloso e Gilberto Gil quando a canção “Panis et Circenses” foi composta. Com 20 anos na época, ela disse mais tarde que não tinha noção da importância daquela cena que presenciara ou da relevância do movimento tropicalista para a cultura brasileira. Só anos depois teria uma noção do relevo em torno da cena que observara.

Se enxergarmos o presente com olhos mais atentos poderemos desfrutar mais profundamente de certas ocasiões, degustando cada momento e criando uma memória mais forte em nossas mentes de situações que podem mudar o país ou o mundo.

Voltando à teoria de fatos que bifurcam a história. Essa tese já me fez pensar em outras possibilidades em que certas decisões, se evitadas, teriam mudado o curso da história como hoje a conhecemos. Vamos imaginar, por um instante, que o chefe de gabinete do então presidente Bill Clinton, Leon Panetta, em julho de 1995 tivesse escolhido outra estagiária que não Monica Lewinsky para completar a sua equipe. Talvez não houvesse um escândalo envolvendo o nome do presidente, um processo de impeachment não teria sido implementado e Al Gore teria sido eleito presidente no lugar de George W. Bush. Isso teria tido dois impactos diretos: os Estados Unidos teriam assinado o protocolo de Kyoto e provavelmente não teria havido o conjunto de atentados em 11 de setembro.

Haveria, neste caso, um mundo diferente daquele que vivemos hoje. Os democratas achariam que essa realidade paralela seria melhor – já os republicanos discordariam. Nós, que vivemos a reboque dos fatos que ocorreram sob a administração de George W. Bush, no entanto, não temos escolha a não ser encarar, citando Nelson Rodrigues, nossa vida como ela é.

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