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A mobilidade social brasileira

A mobilidade social brasileira

Entre sexta-feira e domingo, MONEY REPORT realizou um evento que reuniu, no Rio de Janeiro, com 12 CEOs de empresas. A ideia era justamente aproveitar essa convivência para discutir vários assuntos sobre o cenário político, econômico e de negócios no Brasil. Como sempre ocorre em iniciativas como essas, há temas que surgem de forma espontânea e imprevisível. Um desses foi a capacidade que a sociedade brasileira possui de oferecer chances concretas de mobilidade social.

Conheço alguns dos membros deste grupo há muitos anos e tive a oportunidade ímpar de acompanhar o desenvolvimento profissional destes executivos – ou o crescimento avassalador do faturamento daqueles que iniciaram seus negócios décadas atrás.

No meio dessa discussão em particular, percebi que estávamos diante de vários exemplos de pessoas que tinham aberto a fórceps o caminho do sucesso. Indivíduos que vieram de muito longe e enfrentaram dificuldades abissais para subir a escadaria do reconhecimento.

Um deles, que já acumula seu quinto cargo consecutivo de CEO, teve uma infância paupérrima. Para ajudar no orçamento de casa, ainda criança, catava papeis e papelões na região onde morava para revender o material e conseguir um dinheirinho. Seu caminho, no entanto, seria igual a de muitas pessoas com capacidade e sem oportunidades se ele não tivesse, aos dez anos de idade, a ideia de pedir uma bolsa de estudos numa escola privada na região da avenida Paulista, em São Paulo.

Este menino conquistou a bolsa e sempre foi um dos melhores alunos de sua classe. Conseguiu estudar em uma faculdade de grande reputação e sempre acreditou em sua própria formação escolar. Perto dos trinta anos de idade, resolveu investir tudo o que tinha em um MBA nos Estados Unidos e, de volta ao Brasil, já estava colocado em um cargo de direção. Daí a ocupar sua primeira posição de presidente foi um passo. E faz mais de 20 anos que ele é o número um das empresas nas quais trabalha.

Um grande empresários do ramo atacadista brasileiro também estava nessa reunião. Ele aproveitou para lembrar que começou a vida de empreendedor vendendo linguiças em um fusca da década de 1960, juntamente com seu pai. Conforme a vida progrediu um pouco, os dois trocaram o VW por uma Kombi. Nesta iniciativa está o início de uma das grandes bandeiras do atacarejo nacional.

Mais um exemplo presente naquela sala: um rapaz nascido em uma família riquíssima, que controlava muitas empresas no Nordeste. Quando esse jovem estava prestes a prestar o vestibular, no entanto, os negócios familiares fora à lona. É por isso que ele costuma dizer que não começou do zero e sim do “abaixo de zero”, pois ninguém queria ajudar um membro de uma família que havido experimentado a falência. Aquele rapaz, porém, não desanimou. Investiu no setor de agro e conseguiu comprar sua primeira propriedade rural com 28 anos de idade.

O grupo produziu mais um depoimento – o de um grande advogado que veio do Sul e começou a trabalhar em São Paulo com uma mão na frente e outra atrás. Ele, muito novo ainda, tinha apenas duas camisas sociais. Diariamente, tinha de lavar uma delas em seu banheiro para poder se apresentar no escritório onde trabalhava.

Por fim, outro CEO que recordou o início de sua vida profissional, explorando a capital paulista depois de passar a infância e a adolescência no interior do estado. Era estagiário de uma indústria e, para que seu orçamento fechasse, tinha de comer, duas vezes por semana, em uma barraca de cachorro-quente que ficava no estacionamento do Hotel Maksoud Plaza. Às vezes, porém, não tinha como pagar a bebida – mas a dona do empreendimento oferecia um suco de graça. Anos depois, já bem colocado no mercado, foi até a mesma barraquinha e pediu um sanduíche completo. Puxou conversa com o filho da antiga dona, que agora tocava o negócio e o reconheceu. O já executivo quis saber por que ganhava um suco mesmo sem ter dinheiro para pagar. A reposta: mesmo sem dinheiro, ele era fiel à barraquinha. Por isso, a família o ajudava.

Este tipo de exemplo solidário provocou lembranças semelhantes em vários de nossos debatedores. Que são exemplos claros de como é possível empreender e realizar sonhos em um país no qual todos os caminhos estão abertos.

Quando nos debruçamos sobre os índices oficiais, no entanto, a realidade parece ser outra. Pesquisas mostram que o Brasil é uma das nações com menor capacidade de movimentar seus cidadãos para cima. Um relatório do World Economic Forum, por exemplo, divulgado em janeiro deste ano, coloca o Brasil apenas em 60º lugar entre 82 países pesquisados. O que coloca numa posição tão baixa? Os coordenadores desta pesquisa deram grande peso ao quesito educação (no qual, de fato, patinamos) e no desempenho econômico do PIB brasileiro nos anos recentes. A lógica do WEF é: sem educação e crescimento econômico, é difícil gerar riqueza entre os cidadãos.

Trata-se de uma forma de se enxergar o problema. Mas, como se explica o fato de a maioria esmagadora dos empresários brasileiros ter vindo de uma origem simples? Há muito que o sistema educacional é deficiente e vivemos uma montanha russa de crescimento desde a década de 1970.

A resposta deve estar na força do empreendedor brasileiro. No fundo, ele é quem move o país em direção ao futuro e nos transforma em uma das nações mais criativas e ágeis para enfrentar as dificuldades. Daqui a dez anos, certamente, os analistas econômicos explicarão a seus alunos como a capacidade empreendedora do brasileiro tirou o país da pasmaceira financeira que se instalou após a pandemia gerada pelo coronovírus – provavelmente em uma rapidez nunca vista no chamado Primeiro Mundo. Esta garra e persistência somente são vistas em um terreno onde reina a adversidade, mas também pulula a oportunidade. Este é o nosso Brasil.

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