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A era das tretas intermináveis

Ontem, falei sobre uma quizumba séria em um grupo de WhastApp que tinha a política brasileira como tema principal. Mas um amigo, ao ler o texto, me alertou: “Você pensa que esse tipo de confusão existe apenas quando o assunto é político? Veja o que acontece entre Marvel e DC, Nikon e Canon, IOS e Android. Há batalhas igualmente sangrentas. Já vi tretas até entre usuários de diferentes simuladores de voo. Dá desgosto observar isso”.

Realmente, o antagonismo sempre criou discussões quase que eternas. Desde que me entendo por gente, por exemplo, há uma rixa entre torcedores dos grandes times de São Paulo e do Rio de Janeiro. É como se o desfile de argumentos – ainda que irrefutáveis – fosse trazer a luz sobre um torcedor de forma que ele virasse casaca. Como se sabe, isso dificilmente acontece – mas, para os fanáticos por futebol, a esperança é a última que morre. O resultado disso é que todos os torcedores do mundo tentam convencer os amigos de que o seu time é melhor que os demais.

Essa rivalidade entre tribos é muito chata. Mas fica ainda pior quando topamos com um catequista – estou falando daquele sujeito que acredita estar em uma espécie de missão catequizadora e que vai convencer os outros a adotar seu ponto de vista. O catequista é paciente no começo e perseverante. É aquele tipo de sujeito que gosta de viver pelo cansaço e pela insistência.

Quando vivíamos apenas em um mundo físico e analógico, o evangelizador contava apenas com sua presença física ou com um telefone para chegar a alguém que seria convertido. A vida de hoje, porém, se desenvolve também em telinhas de smartphones e de notebooks. Esse meio de comunicação deu um impulso novo aos debates por conta da grande capacidade de interação na internet.

Em primeiro lugar, dialogar através da escrita é algo que destrói a empatia que surge naturalmente em alguma conversa física ou pelo telefone. Tome-se como exemplo o Clubhouse, rede social que funciona apenas através de áudios. Há uma moderação evidente em todos os posts. Ninguém quer usar a própria voz para proferir insultos e cutucar os adversários. Mas, se essas pessoas estivessem escrevendo no ambiente antisséptico gerado pela tela de computador seriam bem mais agressivas.

A primeira vez que me deparei com uma discussão dessas foi há vinte anos, quando um conhecido gastou mais de uma hora tentando me convencer a trocar meu PC por um Mac. Eu dizia que só usava o computador para escrever e que me atrapalhava com os controles existentes na máquina da Apple para colocar o cedilha e os acentos. O sujeito não se deu por vencido e falava a interface gráfica, dos recursos de multimídia e outras coisas maravilhosas. Eu repetia: eu apenas escrevo no computador. Não preciso desses recursos. Veio mais uma onda de argumentos. Eu perguntei: quanto custa um Mac? Resposta: era três ou quatro vezes mais caro que um PC. Encerrei a discussão dizendo que não tinha dinheiro para isso. O rapaz pediu o meu endereço de e-mail, que forneci. Três dias depois, ele me mandou uma lista de lojas que vendiam aparelhos da Apple de segunda mão, a preços módicos.

Nem respondi, mas fiquei impressionado com a persistência desse sujeito. Hoje, imagino que ele tenha aberto uma revenda da Apple ou sido banido de vinte grupos de WhastApp, tamanha a insistência dele em bater na mesma tecla.

A defesa de um ponto de vista não me incomoda. Pelo contrário. Admiro quem argumenta em prol de suas convicções. O problema é a insistência e o descontrole. Esses são gatilhos que esgotam a paciência das pessoas. Entre ser importunadas e cometer um harakiri digital, o auto banimento passa a ser uma alternativa natural. Neste caso, o objetivo é um só: fazer quem o importuna sumir. É como um ditado que já ouvi de amigos americanos: “Algumas pessoas são como nuvens. Quando elas desaparecem, o dia fica ensolarado”.

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