A oposição de determinados grupos ao programa de privatizações e a falta de apoio do Congresso podem ser apontados como alguns dos motivos que fizeram o ex-secretário especial de Desestatização e Privatização, Salim Mattar, deixar o cargo que ocupava havia 19 meses. As razões de sua saída, bem como um balanço de pouco mais de um ano e meio no governo Bolsonaro, foram tema de artigo publicado no site Brazil Journal, nesta quarta-feira (12). Mattar e seu colega, o secretário de Desburocratização, Gestão e Governo Digital, Paulo Uebel, ambos expoentes liberais da equipe do ministro da Economia Paulo Guedes, deixaram seus cargos na terça-feira (11).
O termômetro de Mattar para medir a força política do governo no Congresso foi a derrota sofrida na votação da MP 902, que pretendia acabar com o monopólio da Casa da Moeda para impressão de dinheiro. A aprovação da MP era condição para a privatização do órgão. “Em outras palavras, o Congresso disse não à privatização”, escreve o ex-secretário. “Muitas estatais como Eletrobras, Hemobras, Correios e EBH necessitam de aprovação do Congresso num governo que não possui uma base de sustentação em ambas as casas”, complementa o liberal, que no artigo também afirma sempre ter contado com o apoio direto do presidente Bolsonaro e do ministro Guedes.
Em seu artigo, Mattar escreve que grupos de interesse dificultam o processo de desestatização. “Assim, o establishment composto diretamente pelos empregados públicos, sindicatos, fornecedores, comunidades, políticos locais, partidos de esquerda e lideranças políticas têm sido uma barreira natural para a privatização”, aponta o ex-secretário. Mattar também aborda como são vistos os integrantes do governo que não fazem parte da máquina. “Os ‘de fora’ são passageiros e algum dia irão embora, enquanto os membros do aparelho do Estado se perpetuarão, logo têm que preservar aquele establishment”, descreve. “A tese liberal de reduzir o tamanho do estado para desonerar o cidadão é aplaudida, mas pouco apoiada”, acrescenta.
Mattar também faz um balanço do tamanho do Estado, em que destaca ter encontrado um problema maior que o imaginado. Diz que a informação era de que o Brasil tinha 134 empresas, mas levantamento apontou para 698, entre aquelas de controle direto, subsidiárias, coligadas e com simples participação. “O estado-empresário é gigantesco e não quer ser amputado”, resume. No balanço de seus 19 meses, destaca que foram feitos R$ 150 bilhões em desestatizações e desinvestimentos, o que reduziu o número em 84 empresas. “Deixei o governo porque, em minha análise de esforço despendido versus resultados obtidos, a conta foi negativa. Concluí que dedicando meu tempo aos institutos liberais Brasil afora, posso continuar contribuindo para a construção de um país melhor, com menos estados, menos oneroso para o cidadão e menor interferência na vida privada”.
