O presidente Jair Bolsonaro disse ontem (3) que os integrantes dos movimentos que protestam contra seu governo são terroristas. “Começou aqui com os antifas em campo. O motivo, no meu entender, político, diferente (N.R.: referindo-se aos protestos contra o racismo nos Estados Unidos). São marginais, no meu entender, terroristas”, afirmou. “Não podemos deixar que o Brasil se transforme no que foi há pouco o Chile. Isso não é democracia nem liberdade de expressão. Isso, no meu entender, é terrorismo”.
Diante dos fatos, o presidente exagera. Protestar contra o governo é algo que existe desde a Roma antiga. E, desde os tempos de César, os governantes achincalham os opositores que ganham as ruas. No último domingo, por exemplo, houve confusão na avenida Paulista, é verdade, mas nada se compara, por exemplo, aos “Black Blocs” que andavam encapuzados e depredavam várias propriedades privadas durante as passeatas de 2015.
Na visão do presidente, é condenável ganhar as ruas para manifestar descontentamento contra sua gestão. Mas é algo normal fazer passeatas e concentrações em Brasília com faixas que pedem intervenção militar e fechamento do Congresso e do Supremo Tribunal Federal.
Mas, afinal, qual seria a definição de terrorismo?
Alguns significados: “comportamento intolerante e ameaçador usado por quem defende uma ideologia ou religião para com os que não aceitam suas ideia; utilização organizada e metódica da violência com propósitos políticos, normalmente por meio de atentados, buscando desorganizar a sociedade vigente; intimidação feita pelo uso da violência buscando amedrontar um povo ou governo, normalmente, baseando-se em questões ideológicas ou políticas”.
Não foi exatamente isso o que se viu nos chamados movimentos pró-democracia do fim de semana. Pode-se argumentar que o Brasil é uma democracia e que essa denominação é apenas uma cortina de fumaça para se protestar contra Bolsonaro. Talvez. Mas isso ainda não chega a ser remotamente um ato terrorista.
Com essas declarações, Bolsonaro quer desestimular novas passeatas, organizadas por movimentos que não estão apenas ligados à esquerda. Um exemplo disso é o manifesto com 42 000 assinaturas contra o desrespeito às instituições democráticas, chamado de “Basta!”, que foi coordenado por um grupo liderado pelo ex-governador Cláudio Lembo, um nome ligado ao governo militar e à Arena, partido de sustentação ao regime de 1964.
Ao criticar os movimentos e associá-los ao que aconteceu recentemente no Chile, o mandatário tenta trazer para perto de si a classe média que tem horror a esse tipo de quebra-quebra. Mas o problema é que a classe média já não apoia integralmente o governo e as ruas não podem ser encaradas como um palco exclusivo dos partidários de Bolsonaro. O que vale para a situação, nos domingos em Brasília, vale também para a oposição. De qualquer forma, não deixa de ser absurdo pensar em aglomerações de pessoas, mesmo com o uso de máscaras, em plena expansão exponencial da pandemia do coronavírus no Brasil.
No meio desta discussão, vale a pena recordar uma frase do então deputado Jair Bolsonaro em 2015, logo após ter protocolado um pedido de impeachment contra a presidente Dilma Rousseff, alvo de várias manifestações populares, com passeatas organizadas pela oposição em várias cidades brasileiras. “Esse movimento é espontâneo e a minha participação é uma parte pequena. Vamos despetizar o Brasil pra sonhar com um país melhor”, vaticinou Bolsonaro na ocasião.
Hoje acastelado no Planalto, o presidente, estilingue cinco anos atrás, está na condição de vidraça. E, como tal, precisa de sangue frio. No entanto, ao chamar os manifestantes de terroristas, vai estimular ainda mais o confronto, o que pode trazer algum tipo de violência para os protestos futuros.
Curiosamente, o aparato policial que deveria ser utilizado em São Paulo é comandado pelo governador João Doria, um desafeto do presidente. O que fará a polícia paulista? Reprimirá os manifestantes ou deixará o protesto rolar solto? A resposta a essa pergunta é óbvia. Mas, para ter certeza, só nos resta esperar as cenas dos próximo capítulo, que serão descortinadas no próximo domingo.
