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O país mudou: um ano atrás, protestava-se na Paulista pelas reformas

Aluizio Falcão Filho
1 de junho de 2020

Ontem (31), a avenida Paulista serviu de palco para um embate de manifestantes. De um lado, defensores do presidente de Jair Bolsonaro; de outro, torcidas de times rivais que se uniram numa manifestação pró-democracia (com tom contrário ao governo). Os dois grupos, diminutos de tamanho, entraram em conflito e deu-se a confusão: a polícia entrou em ação para dispersar a briga.

Curiosamente, quase que um ano atrás, no dia 26 de maio de 2019, a mesma avenida foi tomada em sete de seus quarteirões por pessoas que defendiam as reformas propostas pelo governo – em especial a da Previdência, que mais tarde seria aprovada pelo Congresso.

Uma triste diferença.

Em 2019, havia o grupo unido por um projeto que se rejeitado colocaria na lona os cofres públicos e tornaria inviável a condução da economia. Talvez um dos únicos casos no mundo em que houve pressão popular para que os benefícios pagos na aposentadoria fossem diminuídos em função da incapacidade de caixa do Tesouro Nacional.

Já em 2020, uma quantidade bem menor de pessoas compareceu ao mesmo local com propósitos diferentes e acabou entrando em conflito. Segundo a Polícia Militar, a manifestação dos torcedores começou às 12:00 e teve um início pacífico, com faixas que defendiam a democracia. Como era de se esperar, gritos contra o presidente Jair Bolsonaro foram ouvidos durante a passeata, que congregou apoiadores dos quatro grandes times de futebol do estado. Rivais na arquibancada, comportaram-se serenamente e deixaram naquele momento o antagonismo futebolístico de lado. Cerca de uma hora depois, porém, os torcedores encontraram outro tipo de adversário – um amontoado que se reuniu, metros à frente, para protestar contra o fechamento do comércio durante a pandemia e que claramente era favorável ao governo.

A confusão teve início. Insultos surgiram de ambos os lados e empurra-empurra começou. A PM teve de intervir e fez um cordão de isolamento entre as dois ajuntamentos. Às 14:00, houve outro desentendimento, só que entre a Polícia e os torcedores que se diziam pró-democracia. Bombas de gás foram acionadas e se observou um quebra-quebra na sequência.

Com a debandada dos protestantes que, em tese, estavam ali em prol da democracia, a avenida foi ocupada, em alguns metros, pelos bolsonaristas. Neste grupo, segundo a Globo News, havia pedidos de intervenção militar e símbolos neonazistas em cima de um carro de som.

Balanço geral: no ano passado, havia união, paz e um objetivo comum em benefício do Brasil; hoje, em meio a maior crise sanitária e econômica já vista no Brasil, temos desentendimentos generalizados, que descambam para a violência.

Como o país se transformou em tão pouco tempo?

Segundo o filósofo americano Ralph Waldo Emerson, “toda grande instituição é a sombra projetada de um único homem. Seu próprio caráter determina o da organização”. Temos, em todo o espectro político, líderes que estão agindo através de um só método – o do confronto. O efeito do processo é nefasto, pois os cidadãos acabam replicando o comportamento de suas lideranças.

Não importa, a essa altura do campeonato, quem começou a discórdia. O que realmente importa é quem vai acabar com ela. Quem terá a hombridade de terminar com essa pinimba política que contamina a todos e faz da sociedade uma extensão deste comportamento bélico?

A crescente onda de violência, rancor e desentendimentos pela qual passa o Brasil tem em suas raízes uma certa irresponsabilidade com a qual a sociedade lida com os principais problemas. Discutimos de forma rasa e leviana os destinos do país de quatro em quatro anos e deixamos, nesse ínterim, enfraquecer nossa disciplina em mergulhar profundamente nas questões mais importantes da Nação.

Quando temos uma eleição pela frente, analisamos as opções de forma leniente e terceirizamos aos políticos o nosso destino. Não é à toa que muitos eleitores esquecem completamente em quem votaram nos pleitos parlamentares. O ato de votar parece ser uma obrigação da qual a maioria quer se livrar o mais rápido possível. Assim, se gasta pouco tempo escolhendo o voto. E, como cantava Zizi Possi, numa faixa de seu primeiro disco, “as coisas feitas depressa pedem para ser esquecidas”.

O filósofo Emerson também escreveu sobre o caráter dentro de um processo eleitoral. Ele afirmou: “Observo que em nossas eleições políticas, este elemento, o caráter, se é que aparece, só ocorre na sua forma menos delicada (…). É a fé numa causa. Os homens que sabem conduzir-se não precisam indagar aos seus eleitores o que devem fazer, mas são, eles próprios, o país que representam”. Não se deseja que os políticos façam enquetes diárias para decidir que direção tomar. O que é necessário, hoje, é que eles tenham nobreza de intenções e fé em causas benéficas ao país. E caráter. Uma qualidade que anda rareando cada vez mais na esfera política.

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