Por volta das onze horas de hoje (16), Bruno Covas desistiu do rodízio ampliado e decretou a volta do método tradicional de escalonamento de automóveis na cidade de São Paulo. O prefeito afirmou que os resultados não foram os esperados no índice de isolamento da cidade, que se manteve abaixo das expectativas. “Houve apenas uma pequena melhora no único índice que temos. Comparado a sexta-feira dia 8 com a sexta-feira dia 15, subimos apenas dois pontos percentuais, passando de 46 para 48, mantendo-se abaixo de 50%”, afirmou Covas. Essa melhora é discutível, como se pode ver nos números apresentados adiante no texto original, escrito pela manhã e publicado originalmente às 8:00 de hoje. Pelo menos, o alcaide desistiu da medida inócua e perigosa. Confira abaixo:
SE HOUVER LOCKDOWN EM SÃO PAULO, A CULPA É DE BRUNO COVAS
Numa medida criticada por praticamente toda a mídia paulistana, o prefeito de São Paulo, Bruno Covas, resolveu instituir o rodízio ampliado de automóveis. Nos dias pares, só circulam carros cujas placas terminam em números pares; nos dias ímpares, placas ímpares. A consequência óbvia foi antecipada por vários analistas: haveria um aumento imediato de passageiros no transporte público, já que muitos paulistanos estavam saindo de casa para trabalhar e, para isso, utilizavam seu próprio veículo. Impedidos de dirigir dia sim, outro não, a solução foi buscar transporte nos ônibus e no metrô. Resultado: maior risco de contaminação, já que pontos e estações teriam crescimento na concentração de passageiros.
Essas pessoas estariam mais protegidas em seus próprios automóveis? Sem dúvida. Mas o alcaide não levou isso em consideração.
Essa, contudo, não foi a única consequência da medida de Covas, que prometeu interromper o rodízio caso o índice de isolamento social chegasse ao nível de 55 %. Para recordar: no início do distanciamento, esse indicador chegou a bater cerca de 30% e foi subindo aos poucos. Nos dias anteriores ao início da medida, chegou-se às marcas de 50 % (9) e 53% (10).
Desde o dia 11, qualquer um que andasse pelas ruas ou observasse o trânsito de sua janela poderia com facilidade perceber um crescimento visível de carros nas ruas. Nesta data, o índice caíra a 49%. No dia seguinte, diminuiria mais um ponto e oscilaria entre nessa faixa pela semana inteira. Na sexta-feira (15), cravaria novamente a marca de 48% (os dados podem ser checados na página oficial da governo de São Paulo: https://www.saopaulo.sp.gov.br/coronavirus/isolamento/ — basta escolher a capital no menu de busca por região que fica à esquerda).
Ou seja, o rodízio foi criado para desestimular a circulação de as pessoas. Mas o que houve, na prática, foi um aumento no número de habitantes saracoteando por aí. Por quê? A explicação é simples. Quando alguém tem apenas a chance de sair com o carro em dias alternados acaba aproveitando o tempo para fazer o tudo o que precisa de uma vez só, circulando até mais, em função até de atividades supérfluas (já que no data seguinte, o carro terá de ficar parado).
Não que tenha havido desrespeito à medida. Pelo contrário. Nas duas vezes que andei de carro, pude perceber que todas as placas dos veículos ao meu redor eram ímpares (a minha termina com o número 3). Pedi a amigos para verificar a mesma coisa. Perceberam igualmente um respeito rigoroso.
O tiro, portanto, saiu pela culatra: as pessoas respeitaram o rodízio e passaram a sair mais de casa – apesar das perspectivas de lockdown, caso os índices de isolamento não subam. O problema, no entanto, é que estes números só fazem cair, mostrando que o distanciamento está perdendo fôlego, até por conta da ideia do prefeito de reduzir a circulação de pessoas através das restrições.
Na série histórica, desde 5 de março, em apenas 18 ocasiões houve isolamento social igual ou superior a 55%, em 64 dias corridos. Trocando em miúdos: em 46 dias (mais de 71 % do tempo), tivemos indicadores de distanciamento inferiores ao que deseja o prefeito paulistano.
Quem ganha com tudo isso? Apenas as empresas de ônibus e o metrô, que agregaram uma significativa massa de passageiros em suas linhas. Somente as concessionárias devem registrar um acrescimento de R$ 35 milhões mensais ao seu faturamento – uma fração do que o Estado e a Prefeitura podem gastar com as vítimas que serão internadas em hospitais públicos por conta da pandemia.
Em vez de uma medida que saiu pela culatra, investimentos maciços deveriam ser feito em campanhas de educação e cidadania, não uma campanha tímida como a que está no ar. Conteúdos deveriam ser criados para mostrar alternativas à circulação de carros e, principalmente, explicar exatamente como o isolamento ajuda a achatar a curva de contágio e, portanto, evitar o estrangulamento do sistema de saúde. Mas o prefeito preferiu a bravata e uma medida intempestiva. Cometeu suicídio político em pleno ano de eleições, jogando uma oportunidade única de se revelar como o líder que a sociedade anseia, ainda atordoada pela confusa fogueira das vaidades que se instalou na vida pública do país.
