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Após a saída de Teich, Bolsonaro ainda quer um ministério técnico?

Aluizio Falcão Filho
16 de maio de 2020

O economista Gustavo Franco, ao comentar os governos do Partido dos Trabalhadores, diz que há duas fases muito distintas neste período – um petismo envergonhado, nos tempos de Luiz Inácio Lula da Silva, e outro, totalmente às claras, na gestão de Dilma Rousseff. Franco faz essa distinção pois houve, nos dois mandatos de Lula, respeito ao tripé econômico (principalmente às regras que limitam o déficit público). Sob Dilma, porém, criou-se um modelo econômico intervencionista e baseado nos gastos públicos, que jogou o país na estagflação. O jornalista e escritor Elio Gaspari usou o mesmo raciocínio para batizar seus dois primeiros livros sobre o governo militar. Chamou o período relativo ao Marechal Castello Branco de “A Ditadura Envergonhada”. Já a fase que se inicia com o general Artur da Costa e Silva foi alcunhada de “A Ditadura Escancarada”.

O governo de Jair Bolsonaro nada tem de petista e está inserido numa democracia. Mas o comportamento do presidente nos leva a crer que estamos passando por uma transição no perfil ministerial. Bolsonaro iniciou sua gestão com um propósito muito claro: escolher apenas ministros sem apadrinhamento político e ungidos unicamente por sua capacidade técnica de trabalho. Foi o que de fato ocorreu, tirando uma exceção aqui e outra ali.

Talvez Bolsonaro não contasse com o fato de que gente gabaritada tem voo próprio e ideias sedimentadas ao longo de carreiras com grande projeção. São pessoas que aceitaram os cargos para ajudar o Brasil, não precisam de Poder Público para se promover e não engolem qualquer desaforo para se manter em Brasília.

O perfil estritamente técnico começou a ruir com a saída de Sergio Moro e Luiz Henrique Mandetta, que deixaram o governo com estardalhaço. Em seus lugares foram indicados nomes também originados na área técnica, mas com personalidades bem mais maleáveis – bem, pelo menos era o que se achava do oncologista Nelson Teich, substituto de Mandetta.

Ontem (15), contudo, o ministro da Saúde pediu o boné. A razão foi a insistência do presidente em adotar no protocolo oficial do governo o uso da cloroquina para pacientes em geral (antes, o medicamente era recomendado apenas para casos graves). Teich, como a maioria dos médicos, ainda não está convencido da eficácia desta droga. Não concordou com o presidente e foi embora no mesmo silêncio com o qual entrou para o governo.

Logo que assumiu, Teich mostrou-se paciente e disposto a encontrar um meio termo entre a ciência e o estilo de Bolsonaro. Porém, na questão da cloroquina, chegou a um impasse com a chefia e preferiu ir embora. No fundo, o presidente errou em sua avaliação. Confundiu o estilo diplomático do ministro com fraqueza e pesou a mão. Foi surpreendido com o pedido de demissão, embora também estivesse insatisfeito com sua atuação junto ao Ministério da Saúde.

Bolsonaro, em seus últimos movimentos, indicou ministros e auxiliares que não estão na esfera política e fazem parte do que se pode chamar de “técnicos” (embora tivessem, em tese, maior flexibilidade em relação às crenças do mandatário). Fará o mesmo para o lugar de Teich?

O general Eduardo Pazuello, número 2 da Saúde, assumiu interinamente. Para quem não está ligando o nome à pessoa, lembram-se da entrevista coletiva na qual Teich é surpreendido pela notícia de que Bolsonaro havia liberado academias de ginástica, salões de beleza e manicures do isolamento? Aquele que está ao lado do ministro e reage com um sorriso maroto ao aviso dos repórteres é justamente o general Pazuello.

Se optar por mais um militar, Bolsonaro terá ingerência total sobre a Saúde. Mas se afastará da promessa original, de trabalhar apenas com nomes saídos das áreas relativas aos ministérios. O presidente poderá, entretanto, argumentar que um general tem formação técnica e que não foi apadrinhado por nenhum político. Isso é verdade. Mas um militar não tem conhecimentos médicos para discutir estratégias com a equipe, embora tenha capacidade para comandar campanhas que necessitem de logística e estratégia de combate, como é o caso da pandemia.

Uma das características mais interessantes de Bolsonaro em seu primeiro ano de governo era justamente a disposição de voltar atrás em decisões polêmicas. Esse presidente, contudo, está dando lugar a outro, que impõe sua vontade e pressiona auxiliares até o limite. Por isso, fica a pergunta: Bolsonaro vai mesmo indicar um médico ou ficar com Pazuello?

O Panteão dos ministros técnicos tem como estrela o titular da Economia, Paulo Guedes, mas também conta com outros destaques, como Tereza Cristina e Tarcísio Vieira de Carvalho. Esses nomes são os fiéis da balança junto ao empresariado. A sucessão na Saúde pode criar uma onda de desconfiança entre os empresários, que preferem especialistas nas pastas. Por isso, a decisão do Planalto é aguardada com ansiedade. Este movimento será crucial para saber qual será o destino do governo: se teremos um bolsonarismo comedido e técnico ou escancarado e totalmente alinhado com os pensamentos do presidente.

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