O estado da Califórnia, dominado pelos democratas desde 2011, quando Arnold Schwarzenegger deixou de ser governador, viu nos últimos anos uma revoada de bilionários, multimilionários e empresas irem para o Texas e a Flórida. Há três razões para este êxodo: custo de moradia, segurança pública e o apetite dos representantes do Partido Democrata por novos impostos. A violência no estado cresceu vertiginosamente entre 2014 e 2023, o que levou muita gente a sair de lá. E os impostos que incidiram sobre os mais ricos também provocaram uma saída em massa: estima-se que a Flórida ganhou 133.000 milionários e o Texas, 61.400 nos últimos anos. Em 2022, aliás, as famílias de alta renda que deixaram a Califórnia levaram mais de US$ 16 bilhões em renda anual.
Estas empresas e milionários que partiram para o Texas devem estar pensando o que fazer a partir de ontem, quando foi anunciada a vitória da democrata Gina Hinojosa (imagem). Mas será que a nova governadora vai aumentar taxas e tomar decisões que piorem a segurança pública e as despesas imobiliárias no estado da estrela solitária?
A revoada tem nomes conhecidos. A Tesla trocou Palo Alto por Austin em 2021, alegando a falta de moradia acessível na região de São Francisco. A Charles Schwab foi para Westlake no mesmo ano, citando os impostos altos. Oracle, Hewlett Packard Enterprise, AECOM e CBRE seguiram o mesmo caminho entre 2020 e 2021. Em 2024, Elon Musk anunciou a mudança da X e da SpaceX, citando custo de vida, segurança e uma lei estadual sobre identidade de gênero nas escolas. No mesmo ano, a Chevron, que estava na região de São Francisco desde 1879, decidiu mudar-se para Houston, depois de ser processada pelo governo californiano.
Quanto a Hinojosa, o risco de um imposto de renda estadual é baixo. A governadora eleita diz ser contra a criação do tributo e a proibição está na Constituição do Texas. O alvo dela é outro: os incentivos fiscais concedidos às empresas. Ela pretende cortar esses benefícios para financiar a redução do imposto sobre a propriedade das famílias. Musk foi citado nominalmente na campanha, por ter recebido US$ 1,7 bilhão em isenções.
Na seara da segurança, o histórico da democrata preocupa os conservadores. Em 2020, ela defendeu o remanejamento de parte do orçamento da polícia de Austin e votou contra projetos que impediam cidades de cortar verbas policiais. Na campanha, porém, foi para o centro, exibiu policiais elogiando seu compromisso com a segurança e disse que não pretende travar batalhas de narrativa woke.
Para os democratas, a gestão de Hinojosa é uma oportunidade rara. Se a governadora mantiver o ambiente favorável aos negócios, entregar alívio no imposto sobre a propriedade, melhorar as escolas públicas e enfrentar problemas concretos como a conta de luz, o partido ganhará uma vitrine poderosa para 2028: a prova de que é possível governar um estado conservador e empreendedor sem repetir os erros da Califórnia. Somada à vitória de James Talarico para o Senado, uma boa gestão transformaria o Texas, com seus 40 votos no Colégio Eleitoral, num estado realmente disputado. Os republicanos seriam obrigados a gastar tempo e dinheiro para defender um território que davam como garantido e os democratas ganhariam um discurso sob medida para os eleitores hispânicos e para os subúrbios do chamado Sun Belt.
O risco, porém, é proporcional à oportunidade. Uma gestão que mergulhe em brigas ideológicas, paralise o estado num confronto permanente com o Legislativo, assuste investidores ou deixe a segurança pública piorar daria aos republicanos o argumento perfeito para a campanha presidencial: o Texas começou a virar a Califórnia. Um fracasso desse tamanho reforçaria em escala nacional a imagem de que os democratas não sabem administrar economias dinâmicas e o estado voltaria ao vermelho por muitos anos. O Texas pode ser o laboratório dos democratas. Resta saber se o experimento vai produzir um modelo para o país ou um exemplo a ser evitado.