Nos últimos dias, as redes sociais começaram a viralizar fake news sobre uma suposta libertação do ex-banqueiro Daniel Vorcaro, que continua preso em Brasília. As mensagens, com comentários cheios de revolta, chamaram a atenção por seu volume e partiram de internautas de todas as classes sociais. Uma pergunta surge diante desse fenômeno: por que esse tipo de notícia falsa é repassado pelas pessoas? Resposta: porque estamos no Brasil.
O fato de vivermos em um país no qual os poderosos parecem poder tudo e a insegurança jurídica impera nos torna predispostos a acreditar que Vorcaro pode ser solto a qualquer momento. Esta impressão aumenta significativamente quando estamos falando de alguém que conseguiu tecer uma rede de influências (através do dinheiro e de outras estratégias escusas) que atingia um número enorme de autoridades e dos três poderes da República.
As fake news apenas conseguem ganhar tração nas redes sociais quando trazem algum tipo de conexão com a realidade ou exploram algo que poderia ocorrer, especialmente quando trabalham uma desconfiança que está arraigada na sociedade. Como os brasileiros não confiam nos poderes constituídos – e, entre eles, o Judiciário tem uma posição de destaque –, qualquer sandice que possa alimentar suspeitas plausíveis vai ser replicada nas redes sociais.
Outra pergunta que precisamos fazer é: o que se ganha com esse tipo de coisa? Não estamos falando, evidentemente, de quem passou adiante as fake news, pessoas que se revoltaram com a possibilidade de Vorcaro ser colocado em liberdade. O que é difícil de entender é o conjunto de razões que levam alguém a requentar a libertação do ex-banqueiro, ocorrida em novembro do ano passado, como se tivesse ocorrido neste momento (com direito a postagens de vídeos do Jornal Nacional e de manchetes de grandes portais, todos antigos).
Nas redes sociais, a indignação é a emoção que mais se espalha e cada compartilhamento se converte em visualizações, seguidores e, em muitos casos, dinheiro. Perfis que vivem de engajamento descobriram que reciclar conteúdo antigo custa quase nada e rende muito, sobretudo quando o material carrega a credibilidade de um vídeo do JN ou de uma manchete acompanhada de uma grife jornalística. O internauta vê a marca conhecida, sente a revolta subir e compartilha antes de checar a data. Para quem inventou a lorota, o lucro vem do clique, pouco importando se a notícia é velha ou falsa.
Há também quem ganhe politicamente com o barulho. O caso do Banco Master respinga em políticos de diferentes partidos, em dirigentes de instituições públicas e até em integrantes do Judiciário, o que transforma qualquer notícia sobre Vorcaro em munição para atacar adversários ou corroer a confiança em instituições específicas. É difícil afirmar quem está por trás de cada onda de desinformação, mas o efeito colateral é claro. Alarmes falsos repetidos anestesiam a sociedade, como na fábula do menino que gritava “lobo”. Se um dia a libertação acontecer de verdade, a revolta poderá chegar cansada e sem força, o que acaba servindo a quem prefere que o caso caia no esquecimento.
Quem perde, com tudo isso, é a sociedade. Perde a imprensa séria, que vê seu conteúdo antigo usado como arma de desinformação, e perdem as instituições, que ficam ainda mais desacreditadas. Qual seria o antídoto para isso? O cuidado de cada um de nós para verificar datas e fontes antes de compartilhar qualquer coisa. Passa também pelas próprias instituições, que precisam conduzir o caso Master com rapidez e transparência para merecer a confiança que hoje lhes falta. Enquanto a desconfiança tiver motivos reais para existir, as fake news continuarão encontrando terreno fértil. Afinal, estamos no Brasil.