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Exame: Aos 79 anos, rei do azeite brasileiro investe R$ 380 milhões para criar “Toscana gaúcha”

Da redação
10 de julho de 2026
Com vendas projetadas acima de R$ 1 bilhão, Luiz Eduardo Batalha prepara um destino turístico-imobiliário com vinho, azeite, hotelaria e terrenos produtivos na Campanha Gaúcha

Ao longo de sua trajetória empresarial, Luiz Eduardo Batalha trouxe a genética Angus dos Estados Unidos para o Brasil, ajudou a levar carne premium ao prato do brasileiro, implantou a primeira operação do Burger King no país e transformou oliveiras plantadas no extremo sul do Brasil em uma das maiores marcas nacionais de azeite extravirgem.

Agora, aos 79 anos, o empresário santista prepara o que chama de “síntese” de sua trajetória no agro e no turismo: o Grand Terroir 31, um complexo turístico-imobiliário em uma área de 370 hectares na região da Campanha Gaúcha, na metade sul do Rio Grande do Sul.

O projeto, previsto para lançamento oficial no segundo semestre de 2026, terá investimento de R$ 380 milhões e VGV acima de R$ 1 bilhão, segundo Batalha.

A primeira fase prevê 51 casas em meio aos olivais, 49 vinhedos privados de um hectare e um hotel de luxo com 80 cabanas. No total, quando todas as fases estiverem concluídas, serão cerca de 200 imóveis.

“É a síntese de tudo que eu fiz durante esse tempo todo. Envolve hotelaria, gado, oliveiras, vinhedos. A gente está vendendo um legado. Não é um terreno”, disse Batalha em entrevista à EXAME.

Como Batalha construiu seu império

A história de Batalha no Rio Grande do Sul começou pela pecuária. Engenheiro mecânico de formação, ele passou pela Bolsa de Valores e pela Companhia Docas de Santos antes de encontrar no agro e no turismo suas principais vocações.

Nos anos 1970, entrou na hotelaria com o Hotel Estância Barra Bonita, em São Paulo, um dos primeiros resorts do Brasil. Depois vieram outros projetos de turismo, fazendas, café, cana e pecuária.

Em 2004, Batalha se estabeleceu em Pinheiro Machado, na Campanha Gaúcha, onde levou genética Angus de ponta importada dos Estados Unidos para desenvolver um rebanho voltado à produção de carne premium. A partir daí, Batalha entrou também em cordeiros, cavalo Crioulo e, mais tarde, oliveiras.

O caminho até o Burger King nasceu de um problema de frigorífico. Com muito dianteiro bovino disponível, ouviu que aquele corte era ideal para hambúrguer. Foi atrás da rede americana, que ainda não operava no Brasil. A primeira loja abriu em 2004.

“Foi um sucesso espetacular. A gente conseguiu juntar o sonho de fornecer carne e chegar na ponta final”, diz.

O azeite, hoje, é um dos principais pilares dos negócios da família. A Azeite Batalha se tornou a maior produtora individual de azeite de oliva extravirgem do Brasil e alcançou uma safra recorde de mais de 200 mil litros em 2023, volume que representou cerca de 40% da produção nacional naquele ano.

Os olivais de Batalha ocupam 620 hectares na Campanha Gaúcha, principalmente nos municípios de Pinheiro Machado e Candiota, região onde o empresário também concentra sua nova aposta imobiliária.

Onde será o novo complexo turístico de Batalha

O Grand Terroir 31 fica às margens da BR-293, a menos de 35 quilômetros de Bagé e a 30 quilômetros do Uruguai. A proposta é transformar uma propriedade rural produtiva em destino de permanência, uma espécie de “Toscana gaúcha” — com vinícola, lagar (espaço onde é fabricado o azeite), spa, gastronomia, arte, hípica, trilhas e, em uma fase posterior, campo de golfe.

Batalha chama o conceito de “luxo produtivo”. Na prática, o comprador não levará apenas um imóvel no campo.

Quem adquirir uma casa nos olivais poderá ter azeite com marca própria. Quem comprar um vinhedo poderá produzir vinho próprio, em barricas separadas, com orientação técnica da equipe do projeto.

“Um hectare de uva consegue fazer de 6 mil a 8 mil garrafas de vinho. Não é isso que vai acontecer. A pessoa pode fazer 500, 1.000 garrafas com a marca dela. Pode ter um espumante, um branco, um tinto, um vinho de sobremesa”.

No caso dos olivais, a estimativa é que cada proprietário tenha pelo menos 400 garrafas de azeite por ano com rótulo próprio, para consumo, venda ou presente. “Todo mundo vai ganhar dinheiro com a terra”, afirma.

Um projeto para vender território

A ambição vai além do condomínio. Batalha quer criar um destino de turismo de alto padrão em uma região ainda pouco explorada pelo público de luxo, mas que reúne atributos valorizados na vitivinicultura e na olivicultura: amplitude térmica, vento, solo, incidência solar e clima frio.

“Um lugar onde o silêncio é luxo, onde o vento é luxo. O luxo está nessas pradarias, nesse pôr do sol inacreditável”, diz o empresário.

O projeto nasce em uma região simbólica. A Campanha Gaúcha já tem indicação de procedência para vinhos e abriga investimentos de nomes como Miolo, Salton e Galvão Bueno. Candiota, onde fica o Grand Terroir 31, é um dos principais polos produtores da região.

A propriedade também carrega história. Perto da entrada fica o monumento ligado à Batalha do Seival, episódio da Revolução Farroupilha associado à proclamação da República Rio-Grandense, em 1836. Batalha diz que pretende revitalizar o espaço e criar uma trilha de arte com obras de artistas gaúchos, uruguaios e argentinos.

Quem irá construir o complexo

Para transformar a fazenda em produto imobiliário, Batalha se associou à Joal Teitelbaum, empresa de construção e incorporação comandada por Claudio Teitelbaum, conhecido incorporador de Porto Alegre. Até ano passado, o executivo ocupava a cadeira de presidente do Sindicato das Indústrias da Construção Civil do Estado do Rio Grande do Sul (Sinduscon-RS). Cláudio Teitelbaum

A empresa de Teitelbaum atua como co-desenvolvedora do projeto e ficou responsável pela estruturação imobiliária, pelas casas e pela coordenação de especialistas.

“Nós nos juntamos com uma construtora que tem 68 anos de vida, uma empresa espetacular, de uma família espetacular”, diz Batalha. “Era a gente que a gente precisava para trazer com a gente.”

Segundo o release do empreendimento, a Joal Teitelbaum lidera o desenvolvimento integrado do produto imobiliário e participa da estruturação de um complexo pensado para atravessar gerações.

As casas serão oferecidas em modelos definidos pelo empreendimento. Batalha afirma que a maior parte dos compradores deve optar por construir com a própria estrutura do projeto, principalmente pela distância dos grandes centros e pela necessidade de padronização.

Os especialistas por trás do vinho e do azeite

Para dar musculatura internacional ao projeto, Batalha buscou nomes conhecidos no vinho e no azeite.

Na enologia, contratou o francês Pascal Marty, que participou de projetos como Opus One, nos Estados Unidos, e Almaviva, no Chile. Marty será responsável pela identidade dos vinhos do Grand Terroir 31. Segundo reportagem do Estadão, ele assumiu o projeto como diretor de enologia e vê na Campanha Gaúcha um desafio interessante para vinhos de alta gama.

“Ele está mudando toda a nossa parte de vitivinicultura”, diz Batalha. “Ele quer diminuir a quantidade de uva por hectare para fazer algo extremamente especial.”

Na olivicultura, o português Francisco Pavão, mestre de lagar e jurado de concursos internacionais, será o orientador técnico. O projeto também prevê uma linha de spa e cosméticos à base dos frutos da terra, a Terroir Beauty.

Por que Batalha apostou no azeite brasileiro

A produção de azeites ajudou a colocar o azeite brasileiro no radar internacional. Os rótulos da marca acumulam mais de 50 prêmios em concursos internacionais, incluindo o Azeite Batalha Black, que figurou entre os dez melhores do mundo no concurso TerraOlivo, em Israel.

A aposta agora é ampliar o valor agregado. Além do mercado brasileiro, Batalha diz estar com documentação encaminhada para vender azeite nos Estados Unidos e vê a exportação como alternativa diante da concorrência dos importados mais baratos.

“É um crime para um país que compra 99% do azeite deixar ir embora um azeite desta qualidade e continuar comendo uma qualidade dúbia que vem de fora”, afirma.

Batalha é casado há 60 anos com Ronise, a quem chama de “porto seguro”. Tem três filhos, sócios nas empresas da família, e seis netos. No Grand Terroir 31, o discurso de legado aparece com frequência.

O empreendimento nasce da combinação de ativos que ele acumulou ao longo de cinco décadas: terra, produção, hotelaria, agro, marca, família e uma narrativa de território.

A aposta é que o público de alta renda queira mais do que uma segunda casa: queira participar de uma produção, criar um rótulo, receber convidados, contar uma história.

“Eu não quero falar que é a minha última caminhada, porque estou de olho em outro projeto”, diz Batalha. “Mas esta é uma caminhada muito importante para a gente.”


Por Guilherme Gonçalves

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