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Lula critica protecionismo no G7 em discurso com Trump na plateia

Da redação
16 de junho de 2026
Sem citar diretamente os Estados Unidos, presidente afirmou que medidas unilaterais são “respostas falaciosas” para problemas globais e cobrou mais cooperação internacional

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva criticou nesta terça-feira (16) o avanço do protecionismo e do unilateralismo durante discurso na sessão ampliada da cúpula do G7, realizada na França. Sem mencionar diretamente os Estados Unidos nem o presidente Donald Trump, que também participa do encontro, Lula afirmou que essas práticas voltaram a ganhar força como “respostas falaciosas” para problemas complexos da economia global.

“Agora, o protecionismo e o unilateralismo ressurgem como respostas falaciosas para a complexidade dos nossos problemas”, disse o presidente.

A fala ocorre em meio ao aumento das tensões comerciais entre Brasil e Estados Unidos. No início do mês, o governo americano divulgou as conclusões de uma investigação comercial que recomendou a imposição de uma tarifa adicional de 25% sobre produtos brasileiros, além de uma sobretaxa de 12,5% relacionada a alegações de combate insuficiente ao trabalho forçado.

Durante o discurso, Lula afirmou que as respostas adotadas pelas principais economias nas últimas décadas não foram capazes de reduzir desigualdades nem ampliar oportunidades para a população mais pobre. Segundo ele, o modelo econômico predominante contribuiu para aprofundar a concentração de renda e a instabilidade política em diferentes democracias.

“O neoliberalismo agravou a desigualdade econômica e a crise política que hoje assolam as democracias”, afirmou.

O presidente também criticou o aumento dos gastos militares em meio a guerras e conflitos internacionais. Segundo Lula, a agenda do desenvolvimento tem sido deixada em segundo plano enquanto os países ampliam despesas com defesa.

“Guerras e conflitos também continuam desviando o foco da agenda do desenvolvimento. Os gastos militares anuais somam quase US$ 3 trilhões”, disse.

Lula ainda fez uma referência indireta a Elon Musk, que se tornou o primeiro trilionário da história. O presidente afirmou que a concentração extrema de riqueza é resultado de décadas de políticas favoráveis aos bilionários.

“O primeiro trilionário do mundo é mais rico do que os 46% mais pobres da população mundial. A extrema concentração de riqueza decorre de décadas de políticas pró-bilionários”, afirmou.

Na avaliação do presidente, o desafio global não está na falta de recursos ou de propostas, mas na ausência de ação concreta por parte dos países.

“Precisamos de um sistema financeiro no qual os países não sejam obrigados a escolher entre pagar credores e alimentar suas crianças. Está claro que o desafio não é administrar a escassez. O déficit que enfrentamos é de implementação e de vontade política. Não faltam boas ideias”, disse.

Ao longo da fala, Lula buscou reforçar o papel do Brasil como porta-voz dos países em desenvolvimento. Ele afirmou que a distância entre países ricos e pobres continua aumentando e que os recursos destinados ao combate à pobreza e às mudanças climáticas seguem abaixo do necessário.

Segundo o presidente, faltam US$ 4 trilhões por ano para cumprir os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da Organização das Nações Unidas. Lula também defendeu a ampliação do financiamento climático para pelo menos US$ 1,3 trilhão anuais e cobrou maior compromisso dos países desenvolvidos.

“A COP30 voltou a evidenciar a distância entre os compromissos assumidos pelos países desenvolvidos e os recursos efetivamente mobilizados para cumpri-los. Para acelerar a implementação do Acordo de Paris, é preciso ampliar o financiamento climático para, pelo menos, US$ 1,3 trilhão”, declarou.

Lula também citou a queda de 23% na Ajuda Oficial ao Desenvolvimento no último ano e afirmou que organismos multilaterais, como o Programa Mundial de Alimentos, a Organização Mundial da Saúde e o Unicef, sofreram cortes relevantes em seus orçamentos.

Na área de segurança internacional, o presidente defendeu a cooperação entre países no combate ao crime organizado transnacional, mas ressaltou que esse esforço deve respeitar a soberania nacional.

“Esse esforço deve levar em conta o respeito à soberania dos Estados”, disse.

O presidente também mencionou a necessidade de ampliar o acesso de países em desenvolvimento a tecnologias de ponta, como a inteligência artificial. Lula defendeu ainda que nações produtoras de minerais estratégicos participem das etapas de maior valor agregado das cadeias produtivas, por meio de industrialização e transferência de tecnologia.

A ida de Lula ao G7 foi confirmada poucos dias após o anúncio das medidas comerciais dos Estados Unidos. O presidente decidiu antecipar sua chegada à França para ampliar a agenda diplomática durante a cúpula e manter aberta a possibilidade de uma conversa com Trump.

Apesar da presença dos dois líderes na cidade francesa, não há reunião bilateral prevista nas agendas oficiais. Integrantes do governo brasileiro consideram improvável que um encontro formal seja marcado durante a cúpula, mas não descartam uma conversa informal nos corredores do evento.

Além da participação nos debates do G7, Lula tem usado a viagem para intensificar contatos com outros líderes. Nesta terça-feira, reuniu-se com a primeira-ministra do Japão, Sanae Takaichi, e tem encontros previstos com representantes da União Europeia. Na segunda-feira, também conversou com o presidente da Suíça, Guy Parmelin, e com o presidente francês, Emmanuel Macron.

O governo brasileiro avalia que ainda há espaço para negociar a reversão da tarifa adicional de 25% sugerida pelos Estados Unidos. Paralelamente, equipes técnicas dos dois países mantêm conversas sobre possíveis reduções tarifárias em produtos industriais, em uma tentativa de destravar as negociações comerciais.

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