Roma quer reduzir gatilho de importações de 8% para 5% e cobra reciprocidade sanitária; voto italiano pode ser decisivo em meio à oposição de França, Irlanda e Hungria
A Itália elevou a pressão sobre a União Europeia (UE) para endurecer as cláusulas de salvaguarda do acordo comercial com o Mercosul, às vésperas da votação que pode destravar o tratado após mais de duas décadas de negociações. O governo italiano defende reduzir de 8% para 5% o limite que aciona a suspensão automática de importações agrícolas do bloco sul-americano.
A posição foi confirmada pelo ministro da Agricultura da Itália, Francesco Lollobrigida, em entrevista ao jornal Il Sole 24 Ore. Segundo ele, o mecanismo de salvaguarda precisa ser mais rigoroso para proteger produtores europeus caso as importações latino-americanas avancem acima do limite ou provoquem queda equivalente nos preços agrícolas da UE.
“Queremos que esse limite seja reduzido para 5% e acreditamos que existem condições para alcançar esse resultado”, afirmou Lollobrigida, acrescentando que o país também exige reciprocidade total em normas de segurança alimentar, para garantir que produtos importados cumpram os mesmos padrões exigidos aos agricultores europeus.
Voto decisivo e divisões na UE
A votação no Conselho da União Europeia está prevista para esta sexta-feira, e o voto italiano é considerado chave para a aprovação do acordo. Ao mesmo tempo, cresce a resistência interna no bloco. Irlanda e Hungria confirmaram que votarão contra o tratado, juntando-se à França e à Polônia.
O vice-primeiro-ministro irlandês afirmou que o acordo, “na forma como foi apresentado”, não atende às preocupações do país. Já o chanceler húngaro Péter Szijjártó acusou Bruxelas de ignorar os interesses dos agricultores locais. O primeiro-ministro Viktor Orbán classificou a aprovação do acordo como “um tiro no pé” para o campo europeu.
O comissário europeu de Agricultura, Christophe Hansen, reconheceu que ainda há questões em aberto sobre as salvaguardas para os agricultores da UE.
Protestos ganham as ruas
A resistência extrapolou o campo diplomático. Agricultores franceses intensificaram protestos em Paris, com tratores bloqueando vias e cercando pontos simbólicos como o Arco do Triunfo e a Assembleia Nacional. O setor teme a entrada de grandes volumes de carne, arroz, mel e soja do Mercosul, produzidos sob regras consideradas menos restritivas, em troca da exportação de veículos e máquinas europeias para a América do Sul.
“Só queremos trabalhar e conseguir viver da nossa profissão”, afirmou um produtor francês à imprensa local. O governo classificou parte das ações como ilegais e proibiu o acesso de tratores a áreas sensíveis da capital.
Próximos passos
Mesmo com a oposição de alguns países, a Comissão Europeia avalia que ainda pode obter maioria qualificada entre os 27 Estados-membros. Caso aprovado, o acordo poderá ser formalmente assinado nos próximos dias, criando a maior zona de livre comércio do mundo em número de consumidores.
A Itália afirma estar na “reta final” das negociações técnicas e políticas e condiciona seu apoio a garantias concretas para o setor agrícola europeu.
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