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O desafio de colocar a Venezuela no centro da campanha presidencial

Aluizio Falcão Filho
6 de janeiro de 2026

Tradicionalmente, os movimentos do cenário internacional nunca tiveram grande influência nas eleições brasileiras. Desta vez, no entanto, os articuladores políticos da direita nacional querem tirar partido da invasão da Venezuela e da captura do ditador Nicolás Maduro. Mas os efeitos nefastos do apoio manifestado às pressas ao tarifaço americano ainda estão na memória de todos. Por isso, a ideia é fazer isso aos poucos.

Em primeiro lugar, os políticos do centro e da direita sabem que a imagem do presidente Donald Trump é controversa em solo brasileiro – e ainda estão ressabiados com a perda de popularidade sofrida pelo governador Tarcísio de Freitas, que anunciou seu apoio ao aumento de tarifas sobre os produtos brasileiros em julho do ano passado. O próprio Tarcísio decidiu falar da invasão do país latino-americano sem mencionar Trump. “A Venezuela agora está vencendo a esquerda e que, no final do ano, o Brasil também vença”, escreveu o governador em suas redes sociais.

Por isso, a ideia é atacar pelas beiradas. O senador Flávio Bolsonaro, por exemplo, já está em negociações para visitar o presidente argentino Javier Milei e o mandatário eleito do Chile, José Antonio Kast, que assumirá seu cargo em março. A estratégia é mostrar que existe um movimento em curso na América do Sul de troca da esquerda pela direita.

Flávio, assim, pretende capitalizar o desgaste da esquerda e, ao mesmo tempo, associar seu maior adversário, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, à figura do ditador deposto Nicolás Maduro. Embora nos últimos tempos Lula tenha se afastado de Maduro – especialmente depois da fraude eleitoral verificada no pleito de 2024 –, o presidente brasileiro rechaçou veementemente a ação americana no país vizinho.

Fotos para mostrar que existia uma proximidade entre Lula e Maduro não faltam. Declarações que reforçam uma sintonia entre os dois também (e isso era fruto de discórdia no PT, pois havia um grupo no partido que condenava a arbitrariedade com a qual o venezuelano conduzia seu país). Conforme as atrocidades de Maduro vierem à tona, a sintonia entre os dois líderes latino-americanos de esquerda será explorada até dizer chega.

Por enquanto, os articuladores da campanha de Flávio preferem dar foco à ligação com Milei e Kast e grudar a imagem de Lula a Maduro (o senador Flávio Bolsonaro postou ontem mesmo no Instagram vídeos nos quais o presidente brasileiro tece loas ao ditador venezuelano e diz que há sintonia entre as propostas do PT e do Chavismo). Uma eventual aproximação com Trump vai depender ainda do desdobramento da interferência na Venezuela, especialmente porque o segundo turno está marcado para 25 de outubro. Isso, em termos de política brasileira, é uma eternidade.

Essa aposta dará certo? Ainda é cedo para saber, até porque a construção desta narrativa depende de fatores que escapam ao controle das campanhas de Lula e de Flávio. De qualquer forma, com um cenário regional em constante mutação, os candidatos entram agora em um período no qual cada movimento precisa ser muito bem calculado. Resta observar se o eleitor brasileiro será mesmo sensível ao movimento em favor da direita ou se, como tantas vezes, a política nacional voltará a ditar o ritmo da disputa.

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