Entomologista Luciano Moreira entrou na lista dos cientistas mais influentes de 2025 ao liderar projeto com mosquitos infectados por bactéria que reduzem em 89% os casos da doença
O engenheiro agrônomo Luciano Andrade Moreira foi escolhido pelos editores da revista Nature como uma das dez pessoas ao redor do mundo que moldaram a ciência em 2025. Seu nome configura na lista Nature’s 10.

Em associação com outros cientistas, Moreira estuda há mais de uma década o uso da bactéria natural wolbachia, que está presente em 60% dos insetos e não causa danos aos humanos e nem se espalha no meio ambiente, mas impede a disseminação não só da dengue, mas da zika, chikungunya e febre amarela urbana.
A aplicação do método pode ser decisiva no controle das doenças. Os mosquitos infectados com os chamados de wolbitos ao serem liberados em áreas urbanas se reproduzem reinfectando a bactéria para as novas gerações de mosquitos.
A técnica desenvolvida a partir da pesquisa é chamada de Método Wolbachia. Como demonstrou em artigo assinado em 2009, os mosquitos portadores da bactéria têm menor probabilidade de contrair esses vírus. Segundo a revista Nature, “os cientistas ainda não compreendem o mecanismo, mas a bactéria pode estar competindo com o vírus por recursos ou estimulando a produção de proteínas antivirais.”
A cidade de Niterói (RJ), uma das primeiras a adotar a tecnologia, teve queda de 89% nos casos de dengue. Em 2024, foram registrados apenas 46 casos prováveis, contra mais de 20 mil no município vizinho, o Rio de Janeiro.
Fábrica de mosquitos
É isso que faz uma biofábrica de mosquitos wolbitos com sede em Curitiba (PR), dirigida por Andrade Moreira e criada em parceria entre a Fiocruz, o Instituto de Biologia Molecular do Paraná (IBMP) e o World Mosquito Program (WMP), uma organização sem fins lucrativos com atuação em 14 países.
Para Moreira, o destaque na Nature reforça a importância da ciência nacional. Hoje, a equipe da Wolbito tem 75 profissionais e atua com uma rede que envolve Fiocruz, IBMP e o World Mosquito Program. A meta é ampliar a cobertura e consolidar o Brasil como referência global no combate às arboviroses.
Atualmente, o método faz parte da estratégia nacional de enfrentamento das arboviroses, do Ministério da Saúde, e está em implantação em Balneário de Camboriú (SC), Brasília (DF), Blumenau (SC), Joinville (SC), Luziânia (GO) e Valparaíso de Goiás (GO). E também está em avaliação internacional, com financiamento do NIH (Institutos Nacionais de Saúde dos Estados Unidos).
A escolha das cidades é feita pelo ministério considerando indicadores epidemiológicos – a ocorrência de casos de arboviroses em padrões elevados nos últimos anos.
O pesquisador defende que a soltura dos mosquitos não substitui outras medidas de controle, mas deve compor um modelo integrado com eliminação de criadouros, vigilância entomológica e uso racional de inseticidas. Ele também aponta o papel complementar da vacina contra a dengue, introduzida no SUS em 2023.
A Revista Nature é uma publicação britânica em circulação desde 1869 e é considerada a revista científica mais citada do mundo. A lista Nature’s 10 não configura como prêmio ou ranking acadêmico, mas coloca em destaque internacional pesquisadores e iniciativas de impacto.
(com agências)
