O Brasil parece ter uma vocação especial para desafiar a lógica política. Logo após a Independência, Dom Pedro I, pressionado por crises internas, deixou o país e entregou a formação política de seu herdeiro, Dom Pedro II, justamente a José Bonifácio de Andrada e Silva, um inimigo político do passado. O antigo oponente republicano virou tutor oficial do futuro imperador, num arranjo que já revelava a habilidade nacional de transformar adversários em parceiros quando a sobrevivência do poder assim exige.
Na República, a contradição continuou. O novo regime nasceu de um golpe militar e, poucos anos depois, já enfrentava turbulências vindas das próprias forças armadas. O marechal Deodoro da Fonseca, o primeiro presidente, tentou um autogolpe em novembro de 1891, dissolvendo o Congresso e decretando estado de sítio. A reação dos militares e da Marinha o obrigou a renunciar, abrindo espaço para Floriano Peixoto e para uma República que se dizia civil, mas vivia sob a sombra constante dos quartéis.
Na Era Vargas, o paradoxo ganhou escala internacional. O Estado Novo surgira com inspiração autoritária e simpatias iniciais pela Alemanha nazista, a ponto de Washington temer uma aproximação excessiva do Brasil com Adolf Hitler. Mas a pressão popular após o afundamento de navios brasileiros, somada à necessidade de apoio econômico e militar dos Estados Unidos, levou Vargas a romper com os alemães e enviar tropas para lutar contra o nazismo na Itália. Um governo de traços protofascistas se tornou aliado armado dos norte-americanos contra Hitler.
O governo militar instituído em 1964 também não escapou a esse histórico de contradições. Em nome da defesa da livre iniciativa contra o comunismo, ergueu um dos Estados mais intervencionistas da história brasileira. Estatais foram fortalecidas, grandes obras de infraestrutura conduzidas com dinheiro público, em uma estratégia segundo a qual o BNDES (na época, BNDE) se tornou uma peça fundamental de desenvolvimento. O regime que dizia combater o “perigo vermelho” operava com um estatismo que lembrava experiências desenvolvimentistas da Cortina de Ferro, ainda que alinhado aos Estados Unidos.
Já na redemocratização, outro paradoxo se consolidou. Fernando Henrique Cardoso, intelectual com formação de esquerda e grande conhecedor da obra de Karl Marx, assume a Presidência e conduz o maior ciclo de privatizações já visto no país. Amparado pelo Plano Real e pela pressão por estabilização, quebra monopólios estatais e privatiza empresas estratégicas, como o sistema Telebrás, reposicionando o Brasil como uma nação regida pela economia de mercado.
Ainda sobre FHC. O ex-presidente é um dos maiores responsáveis pelo fim da hiperinflação que assolava nossa economia e é frequentemente apontado como um estadista. Outro ex-mandatário, Michel Temer, é igualmente admirado pela habilidade de costurar acordos políticos e pelas reformas que introduziu durante seu mandato. Mas ambos foram responsáveis pelas indicações dos juízes mais controversos de toda a história do Supremo Tribunal Federal: os ministros Gilmar Mendes e Alexandre de Moraes.
Voltando a Dom Pedro I, interpretado por Tarcísio Meira (imagem) no filme “Independência ou Morte”. Nesta película, o cineasta Carlos Coimbra coloca a seguinte frase em um diálogo sobre os paradoxos que brotavam do imperador brasileiro: “Um liberal que se tornou absolutista; um dinasta que renunciou a dois tronos; um pai amoroso e um marido infiel”. Essa sentença mostra como as contradições brasileiras estão no berço de nossa nação.
Essas incongruências, afinal, são virtudes ou maldições? De um lado, revelam a capacidade de adaptação que permitiu ao país atravessar crises e reposicionar-se diante de pressões internas e externas. De outro, expõem uma fragilidade estrutural que transforma o improviso em regra. Dentro deste contexto, o Brasil parece sobreviver mais pela arte de conciliar opostos do que pela firmeza de projetos consistentes.
Talvez seja essa capacidade de lidar com a inconstância que nos mantém de pé, mas também é o que nos impede de avançar com solidez. De agora em diante, porém, precisamos optar pela serenidade e pela consistência — especialmente porque, no ano que vem, teremos eleições decisivas para nossa nação. O país enfrenta dificuldades oriundas destas gambiarras que surgem para acomodar interesses diversos. É hora de deixar as contradições no passado. E mirar em um futuro mais sólido para todos.