O paulistano Leandro Rubio fundou a Starbem, plataforma de saúde mental que já alcança 6 mil empresas e cresce entre grandes corporações
A crise silenciosa da saúde mental dentro das empresas virou um problema de gestão — e, para muitos RHs, um custo direto em produtividade. Nesse cenário, a disputa por soluções que entreguem impacto real colocou uma nova leva de healthtechs na mira do mercado.
No centro dessa corrida está a Starbem, empresa fundada em 2020, hoje presente em mais de 6 mil companhias e com uma projeção de R$ 56 milhões em faturamento para 2026. Mas a história por trás desse crescimento começou muito antes — e longe do ambiente corporativo.
A trajetória do fundador, Leandro Rubio, sempre orbitou o setor de saúde, mas dentro de hospital. Formado em medicina, com sete anos de residência e carreira sólida em cardiologia intervencionista, ele passou por instituições como o Dante Pazzanese e o Hospital Samaritano.
A vida que levava parecia estável — até deixar de fazer sentido. Ele resume o incômodo de forma direta.
“Eu era muito novo e já tinha um time de médicos debaixo do meu guarda-chuva, mas percebia que eu tinha outra skill: liderar, conectar, me relacionar”, diz.
A ruptura definitiva veio com a pandemia. Os procedimentos cardiológicos estavam parados, o hospital esvaziou e, pela primeira vez, Rubio se viu ocioso. Foi a brecha para uma virada. “Falei com meu vizinho, fera em TI: cara, o que você acha da gente criar um projeto para atender gratuitamente as pessoas com covid-19? Você cria o site e eu junto médicos voluntários.”
Queda feia
O projeto — batizado de Missão Covid — explodiu. Foram 1,5 mil médicos voluntários e 350 mil atendimentos em 88 países, segundo Rubio. A operação virou o maior esforço voluntário digital no combate à doença. A experiência abriu o caminho para a Starbem. Mas a primeira tentativa não deu certo. A startup nasceu como um serviço B2C de telemedicina, apoiado na base de pacientes da Missão Covid.
O plano não funcionou. “Caí do cavalo feio. Eu tava entrando num mercado ‘commoditizado’. Para jogar aquele jogo eu teria que baixar preço e pagar pouco para o médico. Esse não era o jogo que eu queria.”
A guinada só veio quando Rubio percebeu a dor real do mercado: saúde mental dentro das empresas. Em um evento de RH, descobriu que já tinha dentro de casa parte da solução — psicólogos, psiquiatras, nutricionistas — e decidiu fazer a pivotagem.
“Naquele mesmo evento eu mandei mensagem para amigos de grandes empresas. Esses caras nunca tinham dado muita bola para mim. E agora tinham uma dor que eu conseguia resolver.”
O resultado foi rápido. A empresa começou a crescer no B2B e passou a fechar contratos maiores. Hoje, a Starbem conta com clientes como Decolar, Gupy, V4 Company, Unimed e Insider.
Aprendizado
A virada também chamou atenção fora do Brasil. Em 2023, no Web Summit Rio, Rubio foi abordado por um diretor da Techstars. O convite para acelerar a startup no Canadá virou decisão de vida. Ele se mudou com a esposa e a filha, mesmo sem dinheiro levantado.
“O que eu estava demorando seis meses para captar, eu levantei em dias: R$ 5 milhões.”
A temporada no exterior trouxe aprendizado, mas também desgaste. “Foram os dois anos mais difíceis da minha vida. Isolamento, inverno pesado, longe da família. A gente quase terminou o casamento.” A família voltou ao Brasil em 2025, e a operação canadense segue no modo enxuto.
Fundada logo após o impacto da Missão Covid, a Starbem começou com telemedicina, percebeu as limitações desse mercado e, em 2022, pivotou para saúde mental e bem-estar corporativo, onde encontrou demanda crescente.
Hoje, 70% dos atendimentos são de psicologia, 15% de nutrição e 15% de medicina. Rubio destaca que não é uma decisão comercial, mas reflexo da demanda.
Expansão
Para 2026, a meta é crescer em três frentes:
- Novos produtos de IA, com foco em suporte emocional 24 horas e ferramentas de alimentação personalizada.
- Expansão em contas com grandes empresas, com contratos acima de 10 mil vidas.
- Abertura de novos canais de distribuição, além de TotalPass, iFood Benefícios e Claro.
Rubio resume a lógica para atacar empresas maiores: “Cada conta com essas grandes empresas tem um ticket médio muito maior. Se o cliente assina comigo, ele fica no mínimo de 10 a 12 anos.”
Os próximos meses marcam a entrada mais intensa da empresa na camada tecnológica do cuidado. A Starbem já opera ferramentas próprias de IA — como sistemas de triagem emocional e cardápios nutricionais inteligentes — e quer acelerar o ritmo.
“A gente quer crescer desproporcionalmente nas vendas diretas B2B e criar novos produtos de IA. Não é para substituir o cuidado humano. É para liberar tempo, reduzir burnout e aumentar adesão”, afirma.
Por Karla Dunder
