Alface exige temperatura amena e umidade equilibrada, em contraste com a cada vez maior instabilidade climática. País produz 680 mil toneladas ao ano
Plantar alface ao ar livre no Brasil pode se tornar cada vez mais difícil nas próximas décadas. Até o final do século, quase todo o território brasileiro enfrentará alto risco climático para a produção da hortaliça mais consumida no país. Esse é o resultado de uma pesquisa divulgada pela Embrapa Hortaliças, que utilizou dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC).
Atualmente, o Brasil produz cerca de 680 mil toneladas de alface por ano, com São Paulo sendo o principal estado produtor, de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O valor da produção é estimado em R$ 1,2 bilhão.
As regiões Sudeste e Sul concentram cerca de 93% da produção comercial de alface no país, sendo essas áreas responsáveis por cerca de 60% da população, especialmente nas grandes cidades.
As regiões Nordeste, Centro-Oeste e Norte também apresentam produções significativas, variando entre 70 mil e 15 mil toneladas por ano, segundo o último Censo do IBGE.
O estudo da Embrapa considerou dois cenários climáticos: um otimista, com controle parcial das emissões de gases de efeito estufa, e outro pessimista, em que as emissões continuam a crescer até 2100.
Em ambos os cenários, o cultivo de alface, especialmente ao ar livre, está ameaçado. O verão, com temperaturas que podem ultrapassar os 40°C em grande parte do Brasil, será a estação mais crítica, pois a alface exige um clima ameno e uma umidade equilibrada para seu desenvolvimento.
“Compreender os impactos das mudanças climáticas sobre a produção de alface no Brasil é crucial para desenvolver estratégias de adaptação e evitar prejuízos”, afirma Carlos Eduardo Pacheco, pesquisador da Embrapa.
No cenário otimista, em que há controle parcial das emissões e aumento da temperatura global entre 2°C e 3°C até 2100, a pesquisa aponta que quase todas as regiões do Brasil apresentarão alto risco climático para o cultivo de alface durante o verão, com algumas pequenas áreas produtivas restantes.
Já no cenário pessimista, onde o território brasileiro enfrentará aumento contínuo das emissões de gases de efeito estufa, todo o país será afetado por risco climático muito alto para a produção da hortaliça, com a faixa litorânea apresentando risco alto.
“Esses mapas destacam a urgência de desenvolver sistemas produtivos adaptados ao clima, especialmente para hortaliças, que são mais sensíveis às condições climáticas do que grandes culturas como milho ou soja”, diz Pacheco.
Clima e alface
Uma das soluções propostas pela Embrapa é o desenvolvimento de cultivares de alface mais tolerantes ao calor, além da implementação de sistemas de produção sustentáveis.
Entre as alternativas estão o uso de sistemas regenerativos, como o plantio direto de hortaliças e o cultivo orgânico com compostagem, além do cultivo em ambientes controlados ou protegidos para minimizar os impactos de condições climáticas adversas.
Uma das cultivares mais promissoras é a BRS Mediterrânea, que tem se mostrado especialmente resistente ao calor.
A pesquisa da Embrapa também foca na identificação de cultivares com raízes mais vigorosas, o que pode melhorar o aproveitamento de água e nutrientes do solo, além de aumentar a resistência ao estresse hídrico.
A partir destes resultados, os planos da Embrapa são expandir o mapeamento para outras espécies de hortaliças, como tomate, batata e cenoura com o uso de inteligência artificial visando obter maior escala e agilidade no desenvolvimento dos estudos.
“É preciso olhar para esses mapas e seus dados como uma ferramenta estratégica para o delineamento de novas pesquisas em resposta à crise climática”, afirma o pesquisador em Mudanças Climáticas Globais da Embrapa.
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Por César H. S. Rezende
