Boletim de MR sobre medicina, pesquisa, inovação, saúde mental, negócios e políticas públicas
Desconfie do seu smartwatch
Relógios inteligentes não conseguem medir níveis básicos de estresse. Os dispositivos eletrônicos podem indicar atenção, mas a pessoa pode estar apenas animada, dando gargalhadas. Em oposição, fadiga pode facilmente passar despercebida. Os resultados foram publicados no Journal of Psychopathology and Clinical Science.
O estudo revelou que nenhum dos participantes observou que os índices em seus relógios correspondiam às mudanças significativas surgidas com o estresse. Para 25% deles, seus smartwatches indicaram que estavam sob pressão ou exaustos, mesmo quando relatavam sentir o oposto.
Um dos autores do estudo, o psicólogo Eiko Fried, professor de psicologia clínica da Universidade de Leiden, na Holanda, disse ao The Guardian que a correlação entre o smartwatch e as pontuações relatadas pelos próprios usuários era “basicamente zero”. “Isso não é nenhuma surpresa para nós, visto que o relógio mede a frequência cardíaca, que não tem tanto a ver com a emoção que você está sentindo — algo que também aumenta em casos de excitação sexual ou experiências prazerosas.”
Fried observou que seu Garmin havia informado que estava sob estresse quando estava se exercitando na academia e enquanto conversava animadamente com um amigo que não via há tempos durante uma festa de casamento. “As descobertas levantam questões importantes sobre o que os dados vestíveis [aqueles coletados por dispositivos eletrônicos usados no corpo] podem ou não nos dizer sobre estados mentais”, disse. “Tenha cuidado e não se deixe levar pelo seu smartwatch – são dispositivos de consumo, não dispositivos médicos.”
O estudo monitorou estresse, fadiga e sono de 800 jovens adultos que usavam aparelhos Garmin vivosmart 4 durante três meses. Os pesquisadores pediram que os participantes relatassem quatro vezes ao dia como estavam se sentindo.
A pesquisa pretende alimentar um sistema de alerta precoce para depressão, no qual usuários de tecnologia vestível recebam dados que os ajudarão a receber tratamentos preventivos antes que um episódio comece.
10 sintomas que jamais devem ser ignorados
Um reportagem da revista Time com médicos de hospitais de emergência apresentou nesta semana uma lista dez sinais que não devem ser ignorados por profissionais de saúde. São eles:
- Confusão repentina ou mudança de comportamento
Em um minuto o seu parente ou amigo está bem e, a seguir, não consegue lembrar onde está ou quem você é. Outro pontos são palavras confusas ou esquecimentos triviais. Em vez de supor que a pessoa esteja cansada, é melhor procurar ajuda para ele. - Dor incomum no alto das costas
Preste sempre atenção, especialmente se surgirem repentinamente ou forem acompanhadas de outros sintomas, como náusea ou tontura. Quando ocorrer, o melhor é chamar a emergência, pois um ataque cardíaco pode estar em curso. Em alguns casos, as dores podem ocorrer no pescoço ou mandíbula, irradiando para os braços. Quem sofre de diabetes e hipertensão deve receber atenções redobradas. - Coceira intensa repentina e inexplicável
Uma crise repentina e generalizada de coceira pode ser o início de uma reação anafilática. Se os sintomas vierem acompanhados de náuseas, vômitos ou diarreia, pior ainda. O desconforto digestivo é um dos pilares da anafilaxia, reação grave e potencialmente fatal que ocorre rapidamente após a exposição a um alérgeno. É uma emergência que requer tratamento imediato com adrenalina e outras medidas de suporte. - Cor do vômito
A coloração pode dizer muito aos médicos do pronto-socorro. Quando há bile, geralmente esverdeada, pode ser uma obstrução intestinal perigosa. Se for marrom-escuro ou até preto, como borra de café, pode conter sangue parcialmente digerido. Se for vermelho, corra para o hospital, pois há hemorragia. - Sensação de desgraça
Um ataque de ansiedade extrema surgido do nada precisa ser levado a sério, ainda mais se vier acompanhado de dificuldade para respirar, taquicardia ou tontura. Pode ser uma reação do corpo a um ataque cardíaco, coágulo sanguíneo ou uma reação alérgica grave. - Desmaio repentino
Desfalecer ou quase sem causa aparente pode ser um sinal de arritmia cardíaca, hemorragia interna, problemas neurológicos – assim como desidratação ou mudança na pressão arterial. De diagnóstico difícil, este tipo de sintoma costuma exigir baterias de exames. Jamais ignore. - Cocô branco
Que produz fezes esbranquiçadas pode estar com o trato biliar obstruído, o que significa que a bile não está chegando aos intestinos. O pior quadro é o câncer de pâncreas, que causa olhos amarelados e fezes brancas. - Retenção urinária
A constipação mais perigosa é quando alguém deixa de conseguir urinar. Pode ser o intestino cheio bloqueando a bexiga ou alguma infecção tratável. Porém, a falta de atendimento pode provocar insuficiência renal. - Falta de ar ao deitar
Passar por dispneia deitado ou descansando não é a mesma coisa que subir lances de escada. Falta de ar na horizontal pode ser sinal de insuficiência cardíaca, coágulo sanguíneo nos pulmões ou ataque cardíaco silencioso, por isso exige atendimento imediato. - Dor ou inchaço na perna
Quem apresentar sintoma em apenas uma das pernas, principalmente se a região também estiver avermelhada, quente ou dolorida, pode ser vítima de uma trombose venosa profunda, o que requer tratamento urgente. O coágulo pode se desprender e chegar aos pulmões, provocando uma embolia fatal. Pessoas com maior risco são as que fazem terapia hormonal, anticoncepcional hormonal, fumantes, viajantes que fizeram um voo longo, gestantes, pessoas com histórico de câncer e as que passaram por algum procedimento médico recentemente.
O que MR publicou
- Quiet cracking, a exclusão que afeta carreira e mente
- Lucro da Eli Lilly salta 91% no 2º tri
- Redeorto anuncia fusão com a Dentz
- Automação salva hospitais de perdas bilionárias
Os estragos causados pelos ultraprocessados
O novo boletim da American Heart Association analisa as evidências mais recentes sobre os alimentos ultraprocessados (AUPs) e seus impactos na saúde. À medida que o consumo aumenta são intensificados os problemas crônicos de saúde, especialmente entre os grupos de baixa renda. Assim, especialistas pedem diretrizes mais claras, pesquisas aprofundadas e mudanças sistêmicas para reduzir os impactos destes alimentos.
A maioria dos UPFs são ricos em gordura saturada, açúcares adicionados e sódio (sal), cuja combinação é frequentemente abreviada como HFSS (sigla para high in fat, sugar and salt). Estes incluem bebidas açucaradas, carnes ultraprocessadas, grãos refinados, doces e assados comerciais. Um número limitado de alimentos ultraprocessados, como certos grãos integrais comerciais, laticínios com baixo teor de gordura e açúcar e alguns itens de origem vegetal, têm valor nutricional positivo e, portanto, podem fazer parte de um padrão alimentar saudável em geral. Essa sobreposição é confusa para profissionais de saúde e público.
Por isso a associação lançou o aviso científico “Alimentos Ultraprocessados e Sua Associação com a Saúde Cardiometabólica: Evidências, Lacunas e Oportunidades”, que resume o conhecimento atual sobre os AUPs e aponta oportunidades para melhorar a saúde alimentar e geral. O manuscrito foi publicado em 8 de agosto no Circulation , o principal periódico da entidade.
A American Heart Association pede
- Redução da ingestão da maioria dos UPFs, especialmente os ricos em gordura saturada, açúcares adicionados e sódio, e aqueles que contribuem para o excesso de calorias;
- Substituição do consumo de UPFs por opções mais saudáveis, como vegetais, frutas, grãos integrais, feijões, nozes, sementes e proteínas magras;
- Que fabricantes e varejistas ajudem a mudar os padrões alimentares de UPFs por alimentos mais saudáveis;
- Que o público seja informado sobre alimentos classificados como HFSS;
- Financiamento de estudos que determinem até que ponto o ultraprocessamento torna um AUP prejudicial à saúde;
- Quais as consequências de longo prazo do consumo destes produtos.
Mortes por câncer colorretal devem crescer 36% até 2040

A mortalidade por câncer colorretal deve crescer 36,3% nos próximos 15 anos no Brasil. A projeção está no 9º volume do Boletim Info.oncollect, da Fundação do Câncer, divulgado nesta terça-feira (5), Dia Nacional da Saúde. 

Segundo o estudo, o crescimento dos óbitos entre os homens será de 35% até 2040 e, entre as mulheres, de 37,63%. A Região Sudeste deverá ter um aumento de 34% nos mortes e também irá concentrar o maior número absoluto de vítimas fatais. De acordo com o coordenador da pesquisa, Alfredo Scaff, os dados mostram que a maioria dos diagnósticos acontece em fases muito avançadas da doença.
“Em nosso levantamento, 78% das pessoas que vieram a óbito foram diagnosticadas já nos estágios três ou quatro, o que reduz drasticamente as chances de cura’’, alerta. Segundo Scaff, muitas vezes a doença se desenvolve de forma lenta, a partir de pequenos pontos que ao longo de anos podem se transformar em câncer. Além de sangue nas fezes, os sinais de alerta incluem mudanças do hábito intestinal, como as fezes em fita ou diarreicas, dores abdominais persistentes e perda de peso sem causa aparente.
Os cânceres de cólon e reto, que atingem o intestino, são os terceiros mais frequentes do Brasil, com cerca de 45 mil novos registros por ano, de acordo com a estimativa do Instituto Nacional do Câncer para o triênio de 2023 a 2025.
Para Scaff, o alto índice de letalidade também demonstra a falta de uma política de detecção precoce do câncer colorretal. O diagnóstico da doença pode ser feito através do exame de sangue oculto nas fezes e da colonoscopia.
“Estudos internacionais mostram que em países com programas estruturados de rastreamento, a sobrevida em cinco anos pode ultrapassar 65%. Já no Brasil, os índices são inferiores: 48,3% para câncer de cólon e 42,4% para câncer de reto, revelando deficiências no acesso a diagnóstico precoce e tratamento oportuno”, diz o coordenador.
Entre as recomendações dos especialistas, além do rastreamento, é que homens e mulheres a partir dos 50 anos façam exame, como os testes de sangue oculto nas fezes e, se necessário, a colonoscopia. Pessoas com histórico familiar e outras condições de risco devem iniciar esse acompanhamento mais cedo, conforme a orientação médica.
Projeto quer tratar doença de Chagas perto da casa dos pacientes

Um novo protocolo para o controle da doença de Chagas está em testes em uma das regiões com a maior prevalência da enfermidade: o Sertão do Pajeú, em Pernambuco. A principal estratégia é a descentralização do tratamento, para que seja feito na cidade em que o paciente reside. Atualmente, é necessário deslocamento para unidades especializadas, como a Casa de Chagas, no Recife.

Quando a doença é descoberta cedo, o paciente pode ser tratado com medicamentos, evitando complicações. Porém, o grande desafio é o diagnóstico. A doença não causa sintomas específicos logo após a infecção e costuma se tornar crônico de forma silenciosa, desenvolvendo complicações, principalmente no coração. O resultado é a morte de cerca de 4,5 mil pessoas no Brasil por ano, segundo o Ministério da Saúde.
De acordo com a Organização Panamericana da Saúde (Opas), menos de 10% das pessoas com Chagas nas Américas são diagnosticadas, e menos de 1% das que têm a doença recebem tratamento antiparasitário. Como consequência, a maioria só descobre que tem a doença em estágios avançados. Por isso, o projeto em Pernambuco foi nomeado “Quem tem Chagas tem pressa”.
Cerca de 1 mil pessoas nos municípios de Triunfo e Serra Talhada foram submetidas a testes rápidos que comprovaram a seriedade do problema na região: 9% testaram positivo. De acordo com o médico da Casa de Chagas, Wilson Oliveira, responsável pelo projeto, a média de positividade no país varia de 2% a 5%.
A gerente de Vigilância das Arboviroses e Zoonoses da Secretaria de Saúde de Pernambuco, Ana Márcia Drechsler, diz que o teste rápido é um dos principais ativos do projeto, já que atualmente todos os casos suspeitos precisam fazer um exame de sorologia em algum centro de referência, onde demoram 45 dias para ficar pronto.
Em setembro começa a fase de tratamento. Médico responsável pelo projeto, Oliveira diz que é essencial que todos possam concluam o tratamento, feito com medicamentos que devem ser tomados por 60 dias.
Causada pelo protozoário Trypanosoma cruzi, a doença de Chagas é transmitida principalmente durante a picada pelo inseto barbeiro contaminado, mas também pode ser adquirida pela ingestão de alimentos infectados, por transmissão sanguínea ou de mãe para filho durante a gravidez e o parto.
