Parlamentares dos EUA dizem que medida busca interferir na Justiça brasileira em favor de Bolsonaro e alertam para risco de guerra comercial e aproximação do Brasil com a China
Onze senadores democratas dos Estados Unidos enviaram uma carta ao presidente Donald Trump, nesta quinta-feira (24), acusando o republicano de “claro abuso de poder” por ameaçar impor tarifas de 50% sobre todas as importações brasileiras a partir de agosto. Segundo os parlamentares, a medida visa pressionar o sistema judiciário brasileiro a suspender processos contra o ex-presidente Jair Bolsonaro.
No documento, os senadores afirmam que a retaliação comercial anunciada por Trump “não tem base em desequilíbrio comercial”, já que os EUA registraram um superávit de US$ 7,4 bilhões em bens com o Brasil em 2024, e criticam diretamente a tentativa do presidente de interferir em assuntos internos de uma nação soberana.
“Usar todo o peso da economia americana para interferir nesses processos em favor de um amigo é um grave abuso de poder”, afirma o texto, que também alerta para o risco de retaliação por parte do Brasil, aumento de custos para empresas e consumidores americanos e perda de influência dos EUA na América Latina.
Os senadores destacam ainda que o comércio bilateral entre os dois países sustenta cerca de 130 mil empregos nos EUA e movimenta mais de US$ 40 bilhões por ano. Eles afirmam que a medida pode aproximar o Brasil da China, que já realiza investimentos estratégicos no país, incluindo ferrovias e portos.
Entre os signatários da carta estão nomes influentes do Partido Democrata, como Tim Kaine, Jeanne Shaheen, Adam B. Schiff, Richard J. Durbin e Mark Warner. O grupo defende que Washington priorize o diálogo, promova relações econômicas previsíveis e respeite o Estado de Direito nos países parceiros.
A crise entre Brasil e EUA se intensificou após Trump publicar uma carta ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva em sua rede social, defendendo que Bolsonaro está sendo injustamente julgado. O republicano também acusou o Brasil de atacar “eleições livres” e de manter um “regime de censura”.
Na semana passada, o ex-presidente Jair Bolsonaro passou a usar tornozeleira eletrônica, por ordem do ministro Alexandre de Moraes, e está proibido de sair de casa à noite e nos fins de semana, além de não poder se comunicar com outros investigados, incluindo o deputado federal Eduardo Bolsonaro.
Leia a íntegra da carta abaixo:
“Prezado Presidente Trump,
Escrevemos para expressar sérias preocupações sobre o claro abuso de poder presente em sua recente ameaça de iniciar uma guerra comercial com o Brasil. Os Estados Unidos e o Brasil têm questões comerciais legítimas que devem ser discutidas e negociadas. No entanto, a ameaça de tarifas feita por sua administração claramente não se refere a isso. Tampouco se trata de um déficit comercial bilateral, já que os EUA tiveram um superávit de US$ 7,4 bilhões em bens com o Brasil em 2024 e não registram déficit comercial com o país desde 2007.
Na verdade — como o senhor afirma explicitamente em sua carta ao presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva — a ameaça de impor tarifas de 50% sobre todas as importações do Brasil e a ordem para que o Representante de Comércio dos EUA inicie uma investigação sob a Seção 301 da Lei de Comércio de 1974 têm como principal objetivo forçar o sistema judiciário independente do Brasil a interromper a acusação contra o ex-presidente brasileiro Jair Bolsonaro.
Interferir no sistema legal de uma nação soberana estabelece um precedente perigoso, provoca uma guerra comercial desnecessária e coloca cidadãos e empresas americanas em risco de retaliação. O Sr. Bolsonaro é um cidadão brasileiro sendo processado nos tribunais brasileiros por ações alegadamente cometidas sob jurisdição nacional. Ele é acusado de tentar minar os resultados de uma eleição democrática no Brasil e de planejar um golpe de Estado.
Usar todo o peso da economia americana para interferir nesses processos em favor de um amigo é um grave abuso de poder, enfraquece a influência dos EUA no Brasil e pode prejudicar nossos interesses mais amplos na região. O anúncio de sua administração em 18 de julho de 2025, de sanções de visto contra autoridades judiciais brasileiras envolvidas no caso do Sr. Bolsonaro, indica — mais uma vez — a disposição de sua administração em priorizar sua agenda pessoal em detrimento dos interesses do povo americano.
Suas ações aumentariam os custos para famílias e empresas americanas. Os americanos importam mais de US$ 40 bilhões por ano do Brasil, incluindo quase US$ 2 bilhões em café. O comércio entre EUA e Brasil sustenta cerca de 130 mil empregos nos Estados Unidos, que estão em risco diante da ameaça de tarifas elevadas. O Brasil também prometeu retaliar, e o senhor prometeu retaliar em resposta — o que significa que os exportadores americanos sofrerão e os impostos sobre importações para os americanos aumentarão além do nível de 50% que o senhor ameaçou.
Uma guerra comercial com o Brasil também aproximaria o país da República Popular da China (RPC) em um momento em que os EUA precisam combater agressivamente a influência chinesa na América Latina. Empresas estatais e ligadas ao Estado chinês estão investindo fortemente no Brasil, incluindo vários projetos portuários em andamento. Recentemente, o China State Railway Group assinou um Memorando de Entendimento para estudar um projeto ferroviário transcontinental.
Essas considerações não são exclusivas do Brasil. Em toda a América Latina, a RPC está trabalhando para ampliar sua influência por meio da Iniciativa do Cinturão e Rota. Estamos preocupados que suas ações para minar um sistema judicial independente apenas aumentem o ceticismo em relação à influência americana na região e deem mais credibilidade à agenda de autoridades e empresas estatais chinesas. A mesma tendência também está ocorrendo no Leste e Sudeste Asiático.
Os objetivos principais dos EUA na América Latina devem ser o fortalecimento de relações econômicas mutuamente benéficas, a promoção de eleições democráticas livres e justas e o combate à influência da RPC. Instamos o senhor a reconsiderar suas ações e a priorizar os interesses econômicos dos americanos, que desejam previsibilidade — não outra guerra comercial”.
Atenciosamente,
Tim Kaine, Senador dos Estados Unidos
Jeanne Shaheen, Senadora dos Estados Unidos
Adam B. Schiff, Senador dos Estados Unidos
Richard J. Durbin, Senador dos Estados Unidos
Peter Welch, Senador dos Estados Unidos
Kirsten Gillibrand, Senadora dos Estados Unidos
Mark R. Warner, Senador dos Estados Unidos
Catherine Cortez Masto, Senadora dos Estados Unidos
Michael F. Bennet, Senador dos Estados Unidos
Jacky Rosen, Senadora dos Estados Unidos
Raphael Warnock, Senador dos Estados Unidos
