Boletim de MR sobre medicina, pesquisa, inovação, saúde mental, negócios e políticas públicas
Cães detectam Parkinson anos antes — com 98% de precisão
Um estudo das universidades de Bristol, de Manchester e do Medical Detection Dogs, do Reino Unido, mostrou que a doença de Parkinson (DP) têm um odor que pode ser detectado de forma confiável em amostras de pele farejadas por cães treinados para distinguir entre material coletado de pessoas com e sem a doença. Os resultados foram publicados em 15 de julho no The Journal of Parkinson’s Disease.
Nos testes duplo-cego, os animais alcançaram sensibilidade de até 80% e especificidade de até 98%, mesmo na presença de outras condições de saúde. As descobertas oferecem esperança para um método diagnóstico simples e não invasivo, utilizando biomarcadores que surgem muito antes dos sintomas tradicionais, permitindo um tratamento mais precoce e retardando a progressão da doença.
Os cães foram adestrados ao longo de várias semanas com mais de 200 amostras de odores de indivíduos que testaram positivo para DP e amostras de controle, em um sistema de suporte e recompensas por indicarem corretamente um caso positivo e por ignorarem corretamente uma amostra negativa.
Um teste diagnóstico definitivo para a Doença de Parkinson (DP) ainda não foi encontrado, então a identificação de possíveis biomarcadores pode ajudar pacientes e médicos, já que os sintomas podem começar até 20 anos antes de se tornarem visíveis e persistentes. Claire Guest, CEO e diretora científica da Medical Detection Dogs, afirmou: “Estamos extremamente orgulhosos de dizer que, mais uma vez, os cães podem detectar doenças com muita precisão.”
Nicola Rooney, professora associada da Escola Veterinária da Universidade de Bristol e autora principal, afirmou: “Os cães neste estudo demonstraram que existe uma assinatura olfativa distinta. Níveis de sensibilidade de 70% e 80% estão bem acima do acaso.”
Imunoterápico reduz recidiva do câncer de estômago de 41% para 33%

A adoção de imunoterapia nas fases iniciais do tratamento do do câncer gástrico foi o principal anúncio no encontro da Sociedade Americana de Oncologia Clínica (Asco). Um estudo demonstrou que o emprego do anticorpo monoclonal durvalumabe à quimioterapia melhorou os tratamentos em pacientes com adenocarcinoma gástrico e junção gastroesofágica (GEJ) localmente avançado.
Até recentemente, os tumores de estômago eram tratados exclusivamente com cirurgia e quimioterapia, com altas taxas de recorrência alarmantes. A pesquisa propõe integrar um imunoterápico à quimioterapia antes e depois da cirurgia. Com isso, taxa de recidiva de doença ou morte, 24 meses após a cirurgia, caiu de 41% para 33%, sem toxicidades significativas. Para a oncologista Yelena Janjigian, do Memorial Sloan Kettering, nos EUA, o durvalumabe não comprometeu a viabilidade cirúrgica nem aumentou substancialmente a toxicidade, provando ser seguro e eficaz. A abordagem estimula o sistema imunológico no momento em que o tumor é mais vulnerável — antes e após a cirurgia —, quando há menor carga tumoral e maior chance de resposta efetiva. O trabalho contou com a participação de brasileiros.
Como exames de corpo inteiro podem mudar a detecção de doenças

Cientistas esperam obter descobertas sem precedentes sobre o envelhecimento humano e os primeiros sinais de doenças a partir de análises comparativas do escaneamento da cabeça aos pés de 100 mil pessoas. O projeto do Biobank, do Reino Unido, compartilhará 1 bilhão de imagens de órgãos, vasos sanguíneos e ossos para ajudar a entender o comportamento do corpo. As imagens são anônimas, mas vêm acompanhadas de históricos médicos e dados sobre composição genética e estilo de vida.
O UK Biobank acompanha a vida de meio milhão de pessoas no Reino Unido. O projeto capturou 12 mil imagens de cada voluntário, revelando o máximo das estruturas corporais. Paul Matthews, do Biobank e professor de neurociência no Imperial College de Londres, disse que os exames são tão detalhados que os cientistas conseguem identificar pessoas com maior risco de demência a partir de alterações antes invisíveis. O procedimento está sendo testado no Serviço Nacional de Saúde (NHS, na sigla em inglês).
O que MR publicou
ViiV licencia medicamento contra HIV em países de baixa renda
Com um acordo, a farmacêutica Viiv expandiu o licenciamento firmado há três anos com o Medicines Patent Pool, que conta com o apoio das Nações Unidas para a fabricação de genéricos em países pobres. O trato inicial incluía o cabotegravir, medicamento de ação prolongada para prevenção do HIV. Agora, os termos envolvem também o tratamento.
As empresas de genéricos poderão desenvolver, fabricar e fornecer versões do medicamento para uso em combinação com a rilpivirina de ação prolongada, medicamento para HIV fabricado pela Johnson & Johnson. A medida ocorre após a Organização Mundial da Saúde (OMS) emitir diretrizes atualizadas recomendando a combinação como opção de tratamento.
OMS recomenda lenacapavir
De ação prolongada, o antirretroviral lenacapavir agora é recomendado pela OMS como opção adicional à prevenção ao HIV – assim como o cabotegravir citado acima. A iniciativa faz parte de uma nova abordagem de prevenção combinada. O medicamento da Gilead Sciences é injetável e recomendado para profilaxia pré-exposição (PrEP), administrado duas vezes ao ano.
Em um momento em que cortes no financiamento podem levar a 6 milhões de novas infecções por HIV e 4 milhões de mortes relacionadas à aids até 2029, de acordo com a OMS, os injetáveis de ação prolongada são uma opção para o público mais exposto ao vírus – especialmente mulheres adolescentes e meninas, pessoas LGBTQI+, profissionais do sexo e usuários de drogas. Como a Gilead ainda não registrou o lenacapavir para aprovação regulatória em todos os países, muitas pessoas podem ter que esperar mais do que outras para ter acesso a essa ferramenta.
Após 20 anos Brasil retomará fabricação de insulina

O Ministério da Saúde recebeu, nesta sexta-feira (11), o primeiro lote de insulinas produzidas por meio do programa Parcerias para o Desenvolvimento Produtivo (PDP), que faz parte da Estratégia Nacional para o Desenvolvimento do Complexo Econômico-Industrial da Saúde. O Brasil voltará a fabricar totalmente o medicamento, por meio de transferência da tecnologia da farmacêutica indiana Wockhardt, com base em um acordo de R$ 142 milhões que incluiu o laboratório público Fundação Ezequiel Dias (Funed) e a brasileira Biomm.

O primeiro lote saído da fábrica da Biomm, em Nova Lima (MG), contou com 207.385 mil unidades do medicamento, sendo 67.317 frascos de insulina regular e 140.068 de insulina NPH. “Depois de mais de duas décadas sem produzir insulina humana, o Brasil retoma essa fabricação para ser entregue ao Sistema Único de Saúde [SUS] e contribuir com a saúde da população”, destacou o ministro da Saúde, Alexandre Padilha. Segundo a pasta, após a transferência total da tecnologia, o Brasil produzirá 50% da demanda relacionada às insulinas NPH e regular no SUS.
Cerca de 350 mil pessoas com diabetes serão beneficiadas. Os contratos preveem a entrega para a rede pública de 8,01 milhões de unidades de insulina, entre frascos e canetas, em 2025 e 2026.
Vacina contra zika testada em camundongos
A produção de uma vacina contra o vírus zika no Brasil avançou: pesquisadores do Instituto de Medicina Tropical (IMT), da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, concluíram testes em laboratório com camundongos. As respostas foram consideradas satisfatórias, com um imunizante seguro e eficiente.

Geneticamente modificadas para serem mais suscetíveis ao vírus, as cobaias mostraram que a vacina induziu à produção de anticorpos que neutralizaram o vírus. O imunizante também impediu que a infecção prosperasse. Os pesquisadores investigaram ainda os efeitos em diversos órgãos, como rins, fígado, ovários, cérebro e testículos – com sucesso principalmente nos dois últimos. O imunizante usa plataforma “partículas semelhantes ao vírus” (VLPs, da sigla em inglês de virus-like particles), também empregada contra hepatite B e HPV.
Gustavo Cabral de Miranda, médico que lidera o grupo, esteve em Oxford entre 2014 e 2017 e participou da plataforma de desenvolvimento do Instituto Jenner. Deste grupo saiu a base da tecnologia adaptada com a AstraZeneca, para um dos primeiros imunizantes utilizados contra o covid, a partir de 2020. “Lá estudamos o ChAdOx1 (um adenovírus de chimpanzés alterado) para aplicações em malária, zika e chikungunya. Isso gerou tanto conhecimento que, quando veio a pandemia, surgiu um financiamento muito grande e a tecnologia avançou rápido em direção às aplicações práticas”, contou à Agência Brasil.
