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Trump pode usar salvo-conduto para tirar Bolsonaro do Brasil

André Vargas
10 de julho de 2025
Com refúgio temporário em embaixada e asilo político, criminalista detalha cenário que permitiria a fuga do ex-presidente aos EUA, evitando uma condenação

A articulação política de Donald Trump e da estrema direita brasileira em favor do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) pode criar uma alternativa jurídica que deixaria o Brasil impossibilitado de impedir uma eventual fuga, diante de uma provável condenação pela trama da tentativa de golpe de estado. Segundo análise da advogada criminalista Jacqueline Valles, os Estados Unidos dispõem de instrumentos legais e diplomáticos que tornariam ineficazes parte das medidas cautelares impostas pela Justiça brasileira, como a retenção do passaporte de Bolsonaro e a proibição de deixar o país. Para tanto bastaria Bolsonaro e Trump desejarem.

A saída se daria pela expedição de um salvo-conduto após refúgio na embaixada americana em Brasília. Com o documento diplomático na mão, o brasileiro pegaria um avião de carreira para os EUA mesmo sem passaporte. Lá ele poderia se estabelecer de modo permanente mediante a aprovação de um pedido de asilo político. A solução pode não ser definitiva, já que a condição de asilado pode ser eventualmente cancelada. Todavia, o Brasil não teria como pedir sua extradição diante de uma condenação.

“Caso os EUA deem asilo político e Bolsonaro entre em território americano, o Brasil não poderá fazer nada porque, mesmo que peça a extradição, ela não será aceita”, explica. A criminalista fundamenta sua avaliação no princípio internacional de não-extradição por crimes políticos, que oferece proteção robusta a indivíduos que recebem asilo sob alegação de perseguição política no país de origem.

O momento capital e mais preocupante seria pouco antes do refúgio na embaixada americana, já que ele poderia estar sob monitoramento das autoridades. “Se Bolsonaro entrar lá, os EUA podem pedir um salvo-conduto para tirá-lo do Brasil, mesmo que legalmente ele esteja impedido de deixar o país e com o passaporte apreendido”, detalha. Este mecanismo diplomático se baseia na imunidade das embaixadas, consideradas extensão do território do país que representam, o que confere aos americanos prerrogativas especiais para proteger pessoas sob sua custódia diplomática.

O instituto do salvo-conduto, explicado pela advogada, representa um dos mecanismos mais poderosos à disposição dos Estados Unidos. Trata-se de uma garantia diplomática que permite a retirada segura de uma pessoa do território de outro país, mesmo quando há impedimentos legais locais. “É um instrumento reconhecido pelo direito internacional e que, uma vez concedido, cria obrigações diplomáticas para o país receptor”, esclarece Jacqueline.

Justificativas legais

Segundo a jurista, nesse cenário, o “Brasil enfrentaria um dilema entre respeitar as normas diplomáticas internacionais e fazer valer suas decisões judiciais internas”. Precedentes históricos demonstram que, em conflitos entre soberania judicial nacional e proteção diplomática internacional, frequentemente prevalecem os instrumentos diplomáticos, especialmente quando envolvem potências como os Estados Unidos.

Valles destaca ainda que as recentes declarações de Trump, caracterizando Bolsonaro como vítima de “caça às bruxas” e “perseguição política” seguem um padrão estratégico de construção de justificativas legais. “Essas declarações criam o substrato jurídico necessário para fundamentar um eventual pedido de asilo político”, explica. “No direito internacional, a caracterização de perseguição política é muitas vezes subjetiva e pode ser interpretada de forma ampla pelo país que concede proteção.”

Do ponto de vista técnico, a advogada identifica limitações significativas nos instrumentos disponíveis ao Brasil para prevenir ou reverter uma eventual proteção americana a Bolsonaro. “Uma vez que os EUA decidam proteger Bolsonaro por asilo político, o Brasil teria poucos recursos jurídicos eficazes”, adverte.

A especialista cita precedentes internacionais que ilustram a eficácia desses mecanismos. Casos como o de Julian Assange na embaixada do Equador, Evo Morales no México e Argentina, e outros líderes políticos que receberam proteção internacional demonstram como questões políticas internas podem gerar proteção efetiva em outros países.


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