Ataques que chocaram o país resultaram em condenações inéditas, dividiram o Brasil sobre anistia e transformaram a data em marco permanente da memória democrática
Na tarde de 8 de janeiro de 2023 o Brasil assistiu à mais grave ofensiva contra as instituições desde a redemocratização. Uma semana após a posse do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, milhares de apoiadores do então ex-presidente Jair Bolsonaro romperam invadiram as sedes do Congresso Nacional, do Palácio do Planalto e do Supremo Tribunal Federal (STF). A ação tinha um objetivo claro: contestar pela força o resultado das eleições e, em sua esteira, estabelecer uma situação que interrompesse o funcionamento dos Poderes da República, criando uma intervenção militar que recolocaria o ex-presidente Jair Bolsonaro no poder, contrariando o resultado das eleições de 2022.
Três anos depois, o episódio segue produzindo efeitos políticos, judiciais e financeiros. O saldo já ultrapassa R$ 20 milhões em prejuízos aos cofres públicos, mais de 800 pessoas condenadas, centenas de processos ainda em tramitação e uma sociedade que permanece dividida sobre a possibilidade de anistia aos envolvidos e a legitimidade das condenações.
Um conflito que persiste

Neste 8 de janeiro de 2026, manifestações ocorrem em diversas capitais contra projetos de anistia que tramitam no Congresso. O principal embate gira em torno do PL da Dosimetria, que altera critérios de progressão de pena para crimes contra a democracia.
O governo sinaliza veto integral ao texto, em um gesto de forte simbolismo político. Do outro lado, setores da direita afirmam que as condenações representam perseguição e prometem novas mobilizações.
O STF, por sua vez, transformou a data em um marco permanente de memória institucional, com exposições, documentários e debates públicos. Para o presidente da Corte, Edson Fachin, o episódio não foi uma manifestação política, mas uma tentativa organizada de ruptura democrática.
Condenações

Em 2025, o STF entrou para a história ao condenar Jair Bolsonaro a 27 anos e 3 meses de prisão, apontado como líder da organização criminosa que articulou a tentativa de golpe. Foi a primeira vez que um ex-presidente brasileiro foi condenado por esse tipo de crime.
Desde 2023, o STF abriu 1.734 ações penais relacionadas aos atos. Até agora, 810 pessoas foram condenadas, 14 absolvidas, 564 firmaram acordos de não persecução penal e 346 processos seguem em andamento.
Os acordos renderam mais de R$ 3 milhões para ressarcimento dos danos. Ainda assim, a maior parte do prejuízo segue sendo cobrada judicialmente pela Advocacia-Geral da União (AGU), que busca responsabilizar tanto os executores quanto os financiadores dos atos.
Núcleos do golpe e militares
As investigações identificaram uma estrutura organizada, dividida em núcleos que iam da disseminação de desinformação sobre o sistema eleitoral ao incentivo à adesão de militares ao plano golpista. Entre os condenados estão ex-ministros, generais e ex-dirigentes de órgãos estratégicos do Estado. As penas mais severas recaíram sobre o núcleo considerado central na articulação da trama.
Um divisor de águas

Três anos depois, o 8 de Janeiro deixou de ser apenas um episódio criminal. Tornou-se um divisor de águas da democracia brasileira, um teste contínuo sobre a capacidade do país de punir, lembrar e impedir que a história se repita.
O custo da destruição

Levantamentos do STF, do Congresso e do Executivo indicam que os danos materiais causados pelos atos golpistas já superam R$ 20 milhões. O valor não é definitivo e pode crescer à medida que avaliações técnicas de bens históricos sejam concluídas.
No Supremo, considerado o principal alvo da violência, os prejuízos chegam a cerca de R$ 12 milhões. A destruição, o furto ou o dano irreversível de 951 itens representaram impacto direto de R$ 8,6 milhões. Entre os bens atingidos estão fotografias de Sebastião Salgado, avaliadas em R$ 784 mil, além de dez câmeras da TV Justiça, com custo de reposição estimado em R$ 2 milhões.
O plenário da Corte exigiu obras de reconstrução de aproximadamente R$ 3,4 milhões, incluindo a substituição de 850 metros quadrados de carpete tombado pelo Iphan, além de painéis, cadeiras e sistemas elétricos. Pelo menos 106 peças históricas do acervo foram consideradas irrecuperáveis. Parte dos vestígios foi mantida propositalmente como registro permanente da violência sofrida.
No Congresso Nacional, os prejuízos somados da Câmara dos Deputados e do Senado Federal alcançam cerca de R$ 4,9 milhões. Na Câmara, cerca de 400 computadores foram destruídos, com custo superior a R$ 2 milhões, além de duas viaturas da Polícia Legislativa. Obras de artistas como Athos Bulcão, Victor Brecheret e Sônia Ebling sofreram danos estruturais. Uma peça simbólica, a obra The Pearl, presente do governo do Catar, segue desaparecida.
No Senado, a restauração mais cara envolve a pintura histórica “Ato de Assinatura da Primeira Constituição”, do século 19, com custo estimado em R$ 800 mil. Também demandou reparos a tapeçaria de Burle Marx, danificada por rasgos e manchas, cujo restauro foi orçado em R$ 250 mil.
Já o Palácio do Planalto teve prejuízos estimados em R$ 4,3 milhões, concentrados principalmente no acervo cultural. O caso mais emblemático foi o relógio francês do século 18, trazido ao Brasil por dom João VI e arremessado ao chão durante a invasão. A peça, uma das duas únicas existentes no mundo, ainda não teve valor financeiro estimado devido à sua relevância histórica.
