Esquema com verbas no Congresso foi denunciado por parlamentares. Parte dos R$ 10 bilhões movimentados iriam para outros lugares. Ex-presidente da Casa não seria alvo, mas é certo que a funcionária não agiria sozinha
A Polícia Federal deflagrou nesta sexta-feira (12) a Operação Transparência para investigar possíveis irregularidades na destinação de emendas parlamentares – Orçamento Secreto ou Emendas de Relator -, recursos públicos de difícil rastreio e nenhuma transparência. A ofensiva, autorizada pelo ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), cumpre dois mandados de busca e apreensão em Brasília — um deles dentro da própria Câmara dos Deputados.
O principal alvo é Mariângela Fialek, conhecida como Tuca, advogada e ex-assessora do deputado Arthur Lira (PP-AL), presidente da Câmara até fevereiro de 2025. Apesar da ligação com o parlamentar, Lira não é investigado na operação – porém a PF considera virtualmente impossível alguém operar de tal maneira sem aval superior.
A participação de Tuca na organização e imposição do orçamento secreto foi relatada à PF por seis parlamentares da oposição e da base aliada: os deputados Glauber Braga (Psol-RJ), José Rocha (União-BA), Adriana Ventura (Novo-SP), Fernando Marangoni (União-SP), Dr. Francisco (PT-PI) e do senador Cleitinho (Republicanos-MG).
As declarações reforçam a suspeita de que havia “redirecionamento forçado” de recursos de emendas por Lira, sublinhou o ministro Flávio Dino. Eles disseram que Tuca encaminhava à comissões ofícios da Presidência da Câmara ordenando a liberação de emendas em especial para Alagoas, estado do parlamentar.
Ao autorizar as buscas, Dino justificou a medida “ante a concreta possibilidade de que a representada tenha adotado condutas voltadas a impedir a realização de backup de seus dados mais sensíveis em ambiente de nuvem, mantendo acervo em meios físicos (papéis, máquinas etc)”. O ministro frisou que os indícios apontam para “uma atuação contínua, sistemática e estruturada” na organização do orçamento secreto.
Servidora de carreira, Mariângela ocupa um cargo de natureza especial na liderança do PP, com salário bruto de R$ 23,7 mil. Policiais estiveram na casa dela e em salas usadas pela assessora dentro da Câmara. Um celular foi apreendido. Um dos locais vasculhados aparece nos registros oficiais, como sala da Presidência da Casa — espaço que, segundo servidores, ela passou a utilizar profissionalmente em 2022, já no auge da gestão Lira e da pressão por liberação de emendas.
A liderança do PP afirmou estar “averiguando o ocorrido” e promete se manifestar ainda hoje. A defesa de Mariângela não foi localizada.
Padaria
Em relatório parcial, a PF destacou como desde 2020 Tuca ocupou diversos cargos estratégicos em empresas públicas e no Legislativo, sempre por indicação de Lira, que a permitissem manipular o direcionamento de emendas.
Após encontrarem uma anotação à mão que coincide com o direcionamento de emendas, os investigadores destacaram “o incomum desapego à formalidade” na formulação do Orçamento da União. “Uma anotação à mão, realizada de maneira rudimentar, foi responsável pela realocação de recursos de um Município para outro. Lamentavelmente, não há como não comparar a maneira de controlar e organizar o orçamento secreto coordenado por Tuca a uma ‘conta de padaria’”, escreveram os investigadores.
Crimes investigados
A PF apura possíveis desvios na liberação de milhões de reais em emendas de comissão. Entre os crimes sob investigação estão:
- Peculato
- Falsidade ideológica
- Uso de documento falso
- Corrupção
A operadora
Funcionária comissionada da Câmara desde 2021, Mariângela Fialek consolidou-se como um dos nomes mais influentes nos bastidores do orçamento. É apontada como operadora-chave do orçamento secreto, mecanismo das emendas de relator que, no auge, movimentou bilhões em recursos distribuídos por parlamentares sem transparência.
Investigações jornalísticas mostram que Mariângela e outra assessora ligada ao presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), chegaram a centralizar a gestão de R$ 10 bilhões em emendas. Frequentada por deputados e assessores em busca da liberação de recursos, a sala de Tuca se tornou uma espécie de “balcão de emendas”, segundo relatos de servidores. Em períodos críticos, parlamentares formavam fila para consultá-la.
Além de sua atuação na Câmara, o currículo de Mariângela inclui passagens por conselhos fiscais de estatais como Caixa Econômica Federal, Companhia de Desenvolvimento dos Vales do São Francisco e do Parnaíba (Codevasf), Pré-Sal Petróleo S/A (PPSA) e Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), além de cargo no Ministério do Desenvolvimento Regional.
Desmonte
O caso reacende o debate sobre a falta de transparência e o poder de bastidores na gestão das emendas — um sistema que, mesmo após decisões do STF, segue no centro das disputas políticas em Brasília.
A Câmara ainda não se pronunciou oficialmente. A assessoria de Arthur Lira afirma que Mariângela não integra mais seu gabinete.
A investigação ocorre em meio ao esforço do Supremo para desmontar estruturas informais de distribuição de recursos públicos e reforça a pressão sobre o Congresso por um modelo mais transparente de alocação orçamentária.
(com agências)
