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Olavo de Carvalho: celebrado por quem releva seu lado ruim em nome de uma causa

Dias atrás, escrevi em um artigo que “a opinião política não define o todo de uma pessoa”. Agora, com a morte de Olavo de Carvalho, talvez seja a hora de falar sobre o outro lado dessa moeda – o hábito que muitos têm de relevar o lado ruim de alguém em nome de uma causa comum. Observei, ao longo do dia de ontem, uma verdadeira explosão de comentários nas redes sociais sobre Olavo, contra e a favor. Vários celebrando a sua morte (particularmente, não gosto do ato de festejar o passamento de qualquer pessoa) e uma quantidade bastante significativa lamentando o ocorrido.

Entre aqueles que lamentavam (ou que faziam uma homenagem discretíssima, quase que um registro) estavam algumas pessoas que respeito intelectualmente. Sempre considerei o autoproclamado filósofo uma figura folclórica, radical e que gostava de manipular sofismas para ganhar seguidores desavisados. Nos últimos anos, para piorar, o ex-astrólogo tinha enveredado pelo caminho da grosseria pura e simples, se manifestando em um palavreado vulgar e chulo contra seus adversários. Por isso, fiquei matutando: por que pessoas inteligentes pranteariam o desparecimento do ideólogo do bolsonarismo?

Uma pista está na defesa que Olavo de Carvalho fez do capitalismo desde que apareceu no cenário político, bem como suas críticas ao comunismo. Além disso, ele defendeu – com exageros que chegavam ao uso descarado de fake news – a causa conservadora. Fez isso em uma época na qual havia poucas vozes críticas aos governos tucanos e petistas. Por ter sido um dos pioneiros a adotar este discurso, através de livros e cursos online, foi reconhecido como um aliado por quem acredita no capitalismo e nos valores tradicionais (muitos deles, assim, resolveram ignorar o lado B do influenciador e louvá-lo em elogios post-mortem).

Olavo, porém, descambou para um discurso extremista e confuso, abraçando o negacionismo em relação à pandemia e chegando inclusive a insuflar o presidente Jair Bolsonaro a romper com a democracia, fazendo críticas pesadas aos militares que zelavam pela legalidade.

Um exemplo disso foi em junho de 2020. Em um de seus inúmeros vídeos ( https://www.youtube.com/watch?v=nXNholwo7go ), ele disse o seguinte: “Bolsonaro, o que ele fez para me defender? (Palavrão) nenhuma. Você não é meu amigo. Você simplesmente se aproveitou. Enfia a condecoração no (palavrão). Não quero mais saber. Você não está agindo contra os bandidos. Você presencia o crime em flagrante e não faz nada contra eles. Isso se chama prevaricação. Quer tomar um processo de prevaricação de minha parte? Se esse pessoal não consegue derrubar o seu governo, eu derrubo. Continue covarde e eu derrubo essa (palavrão) de governo aconselhado por generais covardes ou vendidos. Eu não sei se são covardes ou vendidos, eu não sei o que é pior”.

Claramente, Olavo se enxergava mais importante do que realmente era ao dizer que, sozinho, derrubaria um governo eleito pelo povo (pode-se concordar ou não com Bolsonaro, mas ele está no Planalto em função de quase 58 milhões de votos recebidos nas eleições de 2018).

Apesar das críticas ao Planalto, que se repetiram nos últimos meses, a Secretaria de Comunicação do governo publicou uma nota enaltecendo a figura do finado, compilando elogios de intelectuais que nos deixaram há muito tempo, como o economista Roberto Campos e o jornalista Paulo Francis. Campos, que se foi em 2001, e Francis, vítima de um infarto em 1997, não conheceram a pior face de Olavo e seguramente não compactuariam com seus exageros e delírios recentes.

Na nota oficial do governo, uma frase do escritor é destacada: “O amor não é um sentimento: é uma decisão, um ato de vontade e um comprometimento existencial profundo. Os sentimentos variam, mas o amor permanece. Quem não compreendeu isso não chegou nem perto da maturidade”. Não deixa de ser curioso. O autor dessas palavras destilava puro ódio contra os desafetos em vídeos no YouTube ou posts malcriados no Twitter – com palavras que exalavam grosseria e malevolência. E foi pintado pelo redator da Secretaria da Comunicação como um verdadeiro profeta da paz, do amor e da ternura.

Definitivamente, o papel aceita qualquer coisa.

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