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O que o livro de Eduardo Cunha pode nos ensinar

Livros autobiográficos dificilmente revelam a realidade pura e simples. Os fatos descritos passam sempre por um filtro pessoal, que acaba distorcendo a narrativa. Ou isso ocorre por uma necessidade explícita de se vender uma determinada versão dos acontecimentos ou por truques pregados pela memória. Neste sentido, “Many Years From Now”, a biografia autorizada de Paul McCartney, resolve esse problema e lida com as distorções do biografado de forma magistral. O autor, Barry Miles, confronta todas as histórias contadas por Paul com a visão de outros personagens que as testemunharam. Muitas vezes, o resultado é surpreendente, pois o relato de terceiros é completamente diferente daquele contado pelo personagem principal da obra.

É sob essa ótica que precisamos analisar o livro “Tchau, Querida: O Diário do Impeachment”, do ex-deputado Eduardo Cunha. Presidente da Câmara na época em que Dilma Rousseff foi derrubada da presidência, Cunha tornou-se um observador privilegiado dos acontecimentos que mudaram o país em 2016. Mas, como o ex-deputado foi condenado a quinze anos por corrupção passiva, é sempre bom medir as palavras escritas com cuidado. Ou seja, o enredo mostrado nas páginas pode seguir um roteiro imaginado apenas para beneficiar o autor.

Ontem, a Folha de S. Paulo revelou alguns trechos da obra, que foram prontamente refutados por seus personagens de carne e osso, como o ex-ministro José Eduardo Cardozo, o ex-procurador geral da República Rodrigo Janot, a ex-presidente Dilma Rousseff e o deputado Aécio Neves. O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, também citado, preferiu não comentar as passagens nas quais é citado e mandou dizer que “não leu o livro e não vai ler”. “Bandido”, “notório mentiroso” e “fantasias que não merecem comentários” são algumas das reações sobre as passagens narradas do exemplar que será lançado oficialmente no sábado (17).

Apesar das eventuais distorções, o texto de Cunha – escrito em parceria com sua filha Danielle – mostra que a teimosia dos governantes, muitas vezes, pode ser a sua ruína.

O ex-deputado conta que, após assumir a presidência da Câmara, em março de 2015, teve uma conversa privada com Lula, que “lamentou a postura de Dilma” durante o processo que escolheu Cunha como comandante da casa parlamentar. Como se sabe, Dilma não se conformou com a derrota do Partido dos Trabalhadores naquela eleição e começou, a partir de então, uma troca de alfinetadas com Cunha.

Aqui está, no fundo, o início de todo o calvário da então presidente. Caso possuísse uma dose mínima de inteligência emocional para lidar com a derrota ou uma porção razoável de pragmatismo, teria lidado com Eduardo Cunha com alguma neutralidade, evitando o confronto direto. O estopim do processo, diz o autor, foi a abertura de inquérito, por parte de Janot, contra ele. Cunha afirma que o então chefe da PGR estava mancomunado com o ministro da Justiça, Cardozo, para fragilizá-lo.

Na época, Michel Temer ocupava a vice-presidência. E recebeu um telefonema de Cunha para avistar que estava “babando de ódio” e que iria partir para cima do governo. Mais adiante, os procuradores vazaram a informação de que tinham colhido um depoimento que incriminaria o presidente da Câmara. A partir daí, rompeu oficialmente com o governo e resolveu aceitar um dos pedidos de impeachment que estavam em sua gaveta. “Todo mundo ia atirar. E todo mundo iria morrer”, escreve ele. De fato, foi o que aconteceu. Cunha foi preso e Dilma apeada do poder.

Imaginemos por um instante o que aconteceria se Dilma tivesse sangue frio ao ser derrotada na corrida pela presidência da Câmara e resolvesse estabelecer uma aliança, mesmo a contragosto, com Eduardo Cunha. Se isso ocorresse, talvez o impeachment não tivesse ocorrido.

É bom lembrar, porém, que o Congresso foi movido também por duas forças ao apoiar o processo que barrou a então presidente. Uma delas foi o conjunto de vetos que Dilma fazia às negociações de cargos e verbas com os políticos da base aliada, desgastando a relação com o Parlamento e criando animosidades amargas, daquelas incuráveis. Além disso, como narra Cunha, Michel Temer percebeu a possibilidade de se mudar do Palácio do Jaburu para o da Alvorada e começou a se movimentar para se aboletar no novo endereço. Um acordo com Cunha, porém, tornaria esse processo mais moroso – especialmente se o Planalto adoçasse a boca do Centrão com os cargos pretendidos em 2015.

Quando Temer já estava no Palácio do Planalto, Rodrigo Janot teria proposto a Eduardo Cunha que ele gravasse o presidente sem o conhecimento do mandatário (exatamente como fez, depois, Joesley Batista a mando da PGR). A ideia seria, segundo o autor, incriminar o presidente “para que parassem com as acusações” contra ele.

Cunha, no entanto, descartou a proposta. “Tenho caráter e jamais me submeteria a isso”, diz. A frase de Cunha, convenhamos, confirma um dito popular famoso em todo o mundo: “Até o pior bandido tem o seu próprio código de ética”.

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