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Mais brasileiros de esquerda?

Pesquisa divulgada ontem pela Folha de S. Paulo diz que “49 % [dos brasileiros] se identificam com a esquerda”. Quando comparamos os dados computados em 2017, o número de brasileiros que se se dizem esquerdistas subiu de 41 % para o índice atual. Do outro lado do espectro ideológico, a direita caiu de 40 % para 34 %. O número de eleitores que se identificam com o Centro diminuiu dois pontos percentuais, de 19 % para 17 %.

A princípio, pode-se concluir que nos últimos anos aqueles que se identificavam como direitistas encolheu barbaramente. Mas, neste meio tempo, o Brasil elegeu Jair Bolsonaro, talvez o presidente que mais identificado com o espectro ideológico de direita (incluindo aí os generais que mandaram no país de 1964 a 1984). As redes sociais são tomadas por mensagens contra esquerda e há um cancelamento visível de pessoas que criticam personagens de direita na rede (o exemplo mais recente foi o da chef Paola Carosella).

Ou seja, a pesquisa mostra números irrefutáveis de crescimento da esquerda, mas percebe-se um aumento perceptível de militância direitista nas redes sociais (seriam todos robôs?).

Pode-se interpretar essa aparente contradição de duas maneiras.

A primeira é a de que o país pode estar seguindo o mesmo caminho trilhado pela Argentina, que escolheu um presidente alinhado com ideias de direita, Mauricio Macri, e depois colocou o peronista Alberto Fernández no poder, com Cristina Kirchner como vice. O que corrobora essa tese? A liderança nas pesquisas de Luiz Inácio Lula da Silva, que poderia derrotar Jair Bolsonaro em um primeiro turno, caso o pleito fosse hoje.

Por outro lado, muito coisa mudou na cabeça dos eleitores nestes últimos anos, de forma que os conceitos de esquerda, centro e direita podem estar defasados. Na própria pesquisa do Datafolha podemos enxergar alguns sinais de que isso pode estar ocorrendo.

Há, de fato, um flagrante crescimento de posições esquerdistas por parte dos brasileiros nesta pesquisa do Datafolha. Um exemplo disso é a resposta para a seguinte pergunta: “O governo tem o dever de ajudar grandes empresas nacionais que corram o risco de ir â falência?”. Cerca de 71 % responderam que sim (57 % em 2013) e 25 % acreditam que não (34 % deram essa mesma resposta em 2013). Além disso, 72 % acham que o governo deve puxar investimentos no país (67 % em 2013), contra 24 %, que enxergam essa tarefa como do setor privado.

Em compensação, há um crescimento significativo de posições que podem ser interpretadas como de direita. Um exemplo disso é o fato de que a maioria da população não quer depender do governo. Tomemos como exemplo a seguinte pergunta: “Quanto menos eu depender do governo, melhor estará a minha vida”. Cerca de 58 % concordam com essa afirmação (eram 47 % em 2013).

Outro exemplo é o índice de respostas para a seguinte pergunta: “O governo deve interferir na economia?”. Cerca de 50 % responderam que sim (58 % em 2013) e 44 % que não (31 % em 2013). Como se pode ver, há uma tendência de alta para quem defende menor intervenção estatal econômica, apesar de essa posição não ter ainda atingido a maioria formal.

Talvez precisemos, de agora em diante, utilizar outros estereótipos para entender melhor a divisão ideológica de nosso país. Percebe-se claramente o crescimento do pensamento conservador e de direita nas redes sociais. Mas, quando analisamos uma única questão da pesquisa, enxergamos a possibilidade de o brasileiro ser conservador de um lado e progressista de outro. Exemplo: quando se pergunta se a homossexualidade deve ser aceita, 79 % disseram que sim, contra 67 % em 2013. Na ponta contrária, estão 16 % (contra 25 % em 2016).

Interpretar os dados dessa pesquisa não é tarefa simples. Os resultados mostram que nós estamos no meio de uma profunda mudança cultural e de valores. Para onde isso tudo vai levar? Para um cenário socialista ou para um país economicamente liberal? Ainda é cedo para chegar a uma conclusão. Mas talvez não aconteça nem uma coisa nem outra. Há uma enorme probabilidade de o Brasil ficar refém de um pêndulo ideológico, movimentando-se através do centro – ora aliando-se com a esquerda e horas com a direita.

Em um país dividido como o nosso, essa seria uma fórmula de coibir excessos ideológicos dos extremos e ganharmos maior pacificação política e resultados econômicos pragmáticos. Mas, para isso, precisamos de partidos com propostas coerentes e candidatos idem. Infelizmente, ainda estamos bastante longe deste cenário. Quem sabe em 2026?

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