Doze mulheres conquistaram cadeiras nas eleições de 2026, número recorde em um único pleito; bancada terá ao menos 17 senadoras e poderá chegar a 18, embora elas ainda representem pouco mais de um quinto da Casa
O Senado Federal levou 190 anos desde sua criação para instalar um banheiro feminino dentro do plenário. Foi apenas em 2016 que as senadoras deixaram de precisar recorrer ao chamado “cafezinho” para usar um toalete durante as sessões. Dez anos depois, a presença delas na Casa atingiu outro marco, desta vez bem mais simbólico: nunca tantas mulheres foram eleitas de uma só vez para ocupar as cadeiras do Senado.
Nas eleições de domingo (4), 12 mulheres conquistaram uma das 54 vagas em disputa, o equivalente a 22,2% das cadeiras renovadas. O número supera com folga o recorde anterior, registrado em 2002, quando oito mulheres foram eleitas. Em 2018, última eleição em que dois terços do Senado também estavam em jogo, foram sete.
A partir de fevereiro de 2027, ao menos 17 das 81 cadeiras deverão ser ocupadas por mulheres, a maior presença feminina da história da Casa. A Agência Senado trabalha ainda com a possibilidade de 18 senadoras em exercício, dependendo da permanência de suplentes. A diferença entre as duas contas está principalmente na situação de Jussara Lima (PSD-PI), suplente de Wellington Dias (PT-PI): ela permanece no Senado enquanto o titular estiver afastado para exercer função no Executivo.
Mesmo no cenário de 18 parlamentares, porém, elas ocupariam 22,2% do Senado, ainda longe dos 51,5% que as mulheres representam na população brasileira. O recorde, portanto, é histórico, mas está longe de significar paridade.
Um Senado mais feminino — mas nada uniforme
Se existe algo em comum entre as novas senadoras, é o fato de terem quebrado uma barreira numérica. Politicamente, a bancada que desembarca em Brasília está longe de formar um bloco homogêneo.
Segundo a classificação do GPS Ideológico da Folha de S.Paulo, sete das 12 eleitas estão em partidos associados à direita, quatro em legendas de esquerda ou centro-esquerda e uma, Teresa Surita, no MDB, classificado pelo levantamento como centro. O PL terá o maior grupo entre as recém-eleitas, com Michelle Bolsonaro, Bia Kicis e Carol de Toni. PT aparece com Marília Campos e Samanda de Lula.
O Distrito Federal concentra talvez a fotografia mais emblemática da nova composição. Michelle Bolsonaro e Bia Kicis foram eleitas simultaneamente e se juntarão a Damares Alves, escolhida em 2022. Pela primeira vez, uma unidade da Federação terá seus três assentos no Senado ocupados por mulheres. Também foi a primeira vez que um estado ou o DF elegeu duas senadoras num mesmo pleito.
Outro pedaço do mapa também mudou. Com a vitória de Rayssa Furlan, o Amapá elegeu sua primeira senadora. O Piauí passa a ser a única unidade da Federação que nunca escolheu diretamente uma mulher para o cargo — embora Jussara Lima atualmente exerça o mandato como suplente.
Quem são as mulheres do Senado de 2027
Entre estreantes nas urnas, ex-prefeitas, ex-ministras, deputadas e integrantes de famílias tradicionais da política, estes são os nomes que ajudam a formar a bancada feminina recorde:
- Mara Rocha (Republicanos-AC) – Jornalista e formada também em Educação Física, foi deputada federal pelo Acre entre 2019 e 2023 e disputou o governo estadual em 2022. Agora chega ao Senado.
- Marina JHC (PSDB-AL) – Advogada e administradora, foi primeira-dama de Maceió e disputou em 2026 sua primeira eleição. É casada com JHC, eleito governador de Alagoas.
- Rayssa Furlan (Podemos-AP) – Médica, já havia concorrido ao Senado em 2022. Foi primeira-dama de Macapá e ocupou cargo na administração municipal. Agora se torna a primeira mulher eleita senadora pelo Amapá.
- Luizianne Lins (Rede-CE) – Jornalista e doutora em Comunicação, tem uma das trajetórias políticas mais longas entre as eleitas. Já foi vereadora, deputada estadual, prefeita de Fortaleza e deputada federal. Em 2026, deixou o PT, partido ao qual esteve filiada durante décadas, e migrou para a Rede.
- Michelle Bolsonaro (PL-DF) – Ex-primeira-dama do Brasil e ex-presidente do PL Mulher, disputou em 2026 seu primeiro cargo eletivo e conquistou uma das duas vagas do Distrito Federal.
- Bia Kicis (PL-DF) – Advogada e deputada federal desde 2019, já presidiu a Comissão de Constituição e Justiça da Câmara. Vai dividir a representação brasiliense com Michelle e Damares Alves.
- Gracinha Caiado (União-GO) – Advogada e produtora rural, ganhou projeção como primeira-dama de Goiás e à frente de iniciativas sociais do governo estadual. A corrida ao Senado foi sua primeira disputa por um cargo eletivo.
- Marília Campos (PT-MG) – Psicóloga, iniciou a atuação política nos movimentos estudantil e sindical e acumulou passagens pela Câmara Municipal, Assembleia Legislativa e Prefeitura de Contagem, que comandou por quatro mandatos.
- Marília Arraes (PDT-PE) – Advogada, foi vereadora do Recife e deputada federal, além de ter disputado a prefeitura da capital pernambucana e o governo estadual. É neta de Miguel Arraes e prima de Eduardo Campos.
- Samanda de Lula (PT-RN) – Engenheira da Computação, construiu carreira nos bastidores de governos e mandatos petistas antes de ser eleita vereadora de Natal em 2024. Dois anos depois, dá o salto para o Senado.
- Teresa Surita (MDB-RR) – Uma das mais experientes do grupo, comandou Boa Vista por cinco mandatos e passou duas vezes pela Câmara dos Deputados.
- Carol de Toni (PL-SC) – Advogada, professora e deputada federal desde 2019, presidiu a Comissão de Constituição e Justiça da Câmara em 2024 e agora passa à Casa vizinha.
- Damares Alves (Republicanos-DF) – Eleita em 2022, tem mandato até 2031. Antes do Senado, foi ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos no governo Jair Bolsonaro. Com Michelle e Bia Kicis, completa a inédita bancada feminina do DF.
- Teresa Leitão (PT-PE) – Professora e senadora desde 2023, passou duas décadas na Assembleia Legislativa de Pernambuco antes de chegar ao Congresso.
- Tereza Cristina (PP-MS) – Ex-ministra da Agricultura e ex-deputada federal, foi eleita senadora por Mato Grosso do Sul em 2022 e permanece na Casa até 2031.
- Professora Dorinha Seabra (União-TO) – Pedagoga e ex-deputada federal, está no meio do mandato iniciado em 2023 e disputa agora o segundo turno para o governo do Tocantins. Caso seja eleita governadora, quem assume a cadeira é sua primeira suplente, Professora Lu, o que mantém o assento ocupado por uma mulher.
- Ana Paula Lobato/Lourdinha Pereira (PSB-MA) – A cadeira do Maranhão também seguirá feminina. Ana Paula Lobato, enfermeira e ex-vice-prefeita de Pinheiro, tornou-se titular do mandato após a saída de Flávio Dino para o STF. Atualmente está licenciada, e a vaga é exercida pela segunda suplente Lourdinha Pereira, ex-vereadora de Coroatá.
Recorde nas urnas
A evolução fica ainda mais evidente quando se olha para a série histórica mostrada no levantamento do Senado. Em eleições de renovação de dois terços da Casa, foram oito mulheres eleitas em 2002, oito em 2010, sete em 2018 e 12 em 2026. Nos pleitos em que apenas um terço das vagas estava em disputa, foram quatro em 2006, cinco em 2014 e quatro em 2022.
Também aumentou a presença feminina na própria corrida eleitoral. Segundo o Senado, cerca de 70 mulheres concorreram ao cargo em 2026, correspondendo a aproximadamente 22% das candidaturas e ao maior volume absoluto das últimas três eleições.
Curiosamente, o recorde veio acompanhado de uma renovação quase completa dos nomes. Nenhuma das senadoras que tentou renovar o mandato conseguiu a reeleição. Saem nomes como Leila Barros, Zenaide Maia, Soraya Thronicke e Eliziane Gama, enquanto uma nova leva entra na Casa.
Ou seja: não é exatamente um Senado “delas” ainda. Com pouco mais de uma cadeira feminina a cada cinco, há bastante chão até uma composição próxima à realidade demográfica do país. Mas, numa instituição em que a primeira mulher só chegou em 1979 e em que o banheiro feminino do plenário é mais novo que muita conta no Instagram, 17 — ou talvez 18 — mulheres sentadas simultaneamente entre os 81 senadores já é uma fotografia inédita da política brasileira.
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