Diagnóstico liberal sobre por que o brasileiro trabalha mais para comprar menos — e por que o Estado agravaria a crise que promete combater
Há pouquíssimas coisas sobre as quais os americanos concordam atualmente. Afinal, este é um país enorme, com centenas de milhões de pessoas em diferentes fases da vida, adeptas de muitas ideologias políticas, crenças religiosas e valores culturais distintos — todas disputando o controle temporário de um poderoso estado centralizado que permite ao grupo no poder impor seus valores e instituições preferidas ao restante da população. Não é exatamente um arranjo que incentive cooperação ou unidade.
Mas existe hoje um ponto de concordância entre quase todos esses grupos: o custo de vida nos Estados Unidos está saindo do controle.
Essa “crise do custo de vida alto”, como muitos a estão chamando, destruiu as chances de Joe Biden e, posteriormente, de Kamala Harris de permanecerem no poder em 2024, além de ajudar a levar Donald Trump de volta à Casa Branca. Mas, mais de um ano após o início do segundo mandato de Trump, o problema persiste. E, como sugerem os resultados das eleições locais realizadas no começo de novembro, a crise do custo de vida alto está rapidamente voltando a se tornar um problema político para o Partido Republicano.
Agora, ambos os partidos estão correndo para transformar o tema em prioridade política — os democratas para ampliar sua nova vantagem e os republicanos para reduzir os danos nas eleições de meio de mandato do próximo ano. O problema, é claro, é que, quando soluções específicas chegam a fazer parte da discussão, elas normalmente variam de totalmente inúteis até desastrosamente contraproducentes.
Isso não acontece porque as causas e as soluções para a crise do custo de vida alto sejam um grande mistério. A razão é que a atual classe política tem pouco a ganhar e muito a perder ao atacar as verdadeiras causas da crise. O arranjo atual está funcionando maravilhosamente bem para eles e para seus amigos ricos bem conectados.
Mas é importante que todos os demais — isto é, a grande maioria dos americanos que está sendo explorada pela classe política — entendam quais são as soluções reais, para que os políticos que afirmam querer resolver o problema possam ser julgados e pressionados de acordo. Então, vamos analisar algumas das principais políticas necessárias para causar um impacto significativo na crise do custo de vida.
Habitação
Como expliquei com mais detalhes neste artigo, o aumento explosivo dos preços das moradias neste país decorre de uma escassez artificial de habitação causada por barreiras governamentais à construção de novas moradias. Essas barreiras existem nos níveis federal, estadual e local. Elas incluem desde leis de zoneamento até regulamentações ambientais.
Juntas, essas restrições governamentais sobre a oferta impedem que as incorporadoras construam o número de moradias demandado pelas pessoas, o que torna o preço de todas as moradias artificialmente mais alto. Em nome de aliviar o sofrimento econômico causado por esses preços elevados, governos de todos os níveis implementaram programas destinados a ajudar as pessoas a pagar por moradia. No entanto, como as diversas políticas que provocam a escassez artificial de oferta continuam em vigor, esse aumento da demanda faz os preços subirem ainda mais, o que, por sua vez, torna mais pessoas dependentes do apoio governamental para conseguir arcar com moradia.
Trata-se de um ciclo de retroalimentação que acelera o aumento dos preços no mercado imobiliário. Isso nos levou à situação atual, em que os preços das moradias estão profundamente dissociados das realidades da oferta e da demanda, e um retorno a mercados imobiliários com preços razoáveis parece impossível.
Mas vale lembrar: o catalisador dessa espiral destrutiva da crise do custo de vida elevado são as restrições governamentais à construção de novas moradias. Essas restrições precisam ser eliminadas antes que possamos ver o fim desse caos.
A boa notícia é que eliminar essas restrições não exige novos impostos nem novos programas do governo. Autoridades governamentais não precisam coordenar a construção de novas casas; elas apenas precisam permitir que novas moradias sejam construídas.
Energia
Energia é outra área em que simplesmente permitir que mais produção ocorra melhoraria significativamente o custo de vida, especialmente porque o custo da energia afeta praticamente todos os outros setores da economia.
No que diz respeito aos presidentes, Trump tem sido relativamente bom em remover barreiras à produção de energia. Mas, se os republicanos realmente quiserem causar um impacto duradouro na crise do custo de vida, deveriam aprovar uma legislação que impeça futuros presidentes de reverter facilmente qualquer progresso obtido durante este governo.
Educação
O preço da educação universitária é outro gasto significativo para muitos americanos que atingiu níveis absurdos nos últimos anos. E, de maneira semelhante ao que ocorreu com a habitação, este também é outro ciclo de retroalimentação causado por políticas governamentais.
Mais especificamente, quando se trata do ensino superior, o principal culpado são as garantias governamentais de empréstimos estudantis, que surgiram inicialmente no Higher Education Act [Lei do Ensino Superior, em tradução livre], de 1965, mas foram significativamente ampliadas pelo Student Loan Reform Act [Lei de Reforma dos Empréstimos Estudantis, em tradução livre], de 1993, e por determinadas cláusulas do Affordable Care Act [Lei de Cuidados de Saúde Acessíveis, em tradução livre], de 2010.
O governo usa seu poder para ajudar estudantes universitários a obter empréstimos, independentemente de sua capacidade de pagá-los. Levar jovens estudantes a um endividamento do qual muitos jamais conseguirão escapar já é ruim o suficiente, mas a expansão artificial dos empréstimos estudantis também desencadeia o ciclo de retroalimentação.
Mais empréstimos significam mais demanda por ensino superior, o que significa preços mais altos. Preços mais altos fazem com que a faculdade se torne menos acessível financeiramente do que antes. E, assim, mais estudantes passam a precisar de empréstimos, os quais o governo os ajuda a obter — o que significa mais demanda, preços mais altos, necessidade de ainda mais empréstimos, e assim por diante.
Esse padrão explica por que as mensalidades universitárias dispararam nos últimos anos e por que os americanos acumulam quase US$ 2 trilhões em dívidas estudantis.
Se políticos de qualquer um dos partidos realmente quisessem reduzir o preço do ensino superior para aliviar aquilo que se tornou um grande custo para muitas famílias americanas, eles precisariam reverter esse ciclo de retroalimentação. E isso começa com a etapa dolorosa, porém necessária, de eliminar os empréstimos garantidos pelo governo.
Muitos estudantes seriam imediatamente forçados a abandonar a faculdade ou reduzir seu nível de participação no ensino superior, e inúmeras instituições seriam obrigadas a fechar assim que seus subsídios governamentais indiretos acabassem. No entanto, à medida que a demanda artificial diminuísse, os preços cairiam, e o ensino superior voltaria a se tornar mais acessível financeiramente. A crise da dívida estudantil começaria a desaparecer, e um colapso futuro ainda mais doloroso de uma grande bolha universitária seria evitado.
Saúde
Outra grande fonte de sofrimento econômico para muitos americanos é o quão absurdamente caro o atendimento médico se tornou neste país. Esse problema possui diversas facetas espalhadas por vários setores, mas o padrão é o mesmo que vimos nos casos apresentados acima: políticas governamentais anteriores elevam os preços, o que depois é usado para justificar programas governamentais que aumentam a demanda e, consequentemente, elevam ainda mais os preços.
No caso do atendimento médico em si, essas políticas iniciais surgiram durante a Era Progressista do começo do século XX. Um grupo de interesse da área médica chamado American Medical Association [Associação Médica Americana ou AMA, na sigla em inglês], que defende uma abordagem específica de saúde focada em sintomas, ajudou a impor fortes restrições ao ensino formal e ao uso de abordagens médicas concorrentes. Essas restrições provocaram uma escassez artificial de profissionais da saúde, o que, por sua vez, aumentou o preço do atendimento médico.
Na mesma época, grupos de interesse do setor também conseguiram impor restrições governamentais semelhantes no mercado farmacêutico e usaram o governo para obter controle sobre os setores de processamento de alimentos e da agricultura.
É importante destacar que muitas dessas restrições sobre a oferta foram apresentadas como necessárias para manter os americanos seguros. Mas, ao mesmo tempo, o governo fez grandes esforços para proteger prestadores de serviços médicos e fabricantes de medicamentos das consequências legais de prejudicar seus clientes.
As restrições governamentais corruptas sobre a oferta de atendimento médico e medicamentos criaram um verdadeiro problema de elevados custos econômicos para muitos americanos. Mas isso realmente só se tornou uma crise na década de 1960, quando o Congresso aprovou o Medicare e o Medicaid.
Esses programas foram apresentados como formas de ajudar idosos e pessoas em situação de pobreza a conseguir pagar por cuidados médicos. Mas, assim como ocorreu com a habitação, o governo aumentou a demanda ao despejar dinheiro dos pagadores de impostos no setor da saúde enquanto continuava restringindo a oferta, o que levou a uma explosão facilmente previsível nos preços dos serviços médicos e dos medicamentos.
No setor agrícola, grupos ligados à agricultura e ao processamento de carne haviam conseguido pressionar pela criação daquilo que se tornaria as recorrentes farm bills aprovadas nos Estados Unidos de cinco em cinco anos. Essa legislação contém uma infinidade de subsídios e privilégios para gigantes do agronegócio, como restrições de oferta que elevam artificialmente os preços de determinados tipos de produtos agrícolas e subsídios que saturam excessivamente o mercado com outras culturas e produtos.
Além de dissociar a produção de alimentos das forças de mercado — algo que, por si só, já contribui para a crise do custo de vida alto —, a política agrícola corrupta do governo ajudou a impor uma dieta altamente rica em alimentos processados à população americana.
Grandes empresas do agronegócio inundam o mercado com culturas altamente subsidiadas que possuem usos alternativos, como xarope de milho e óleos vegetais, o que acaba expulsando opções mais saudáveis que os consumidores realmente preferem. As empresas alimentícias podem então usar esses ingredientes artificialmente baratos para produzir alimentos ultraprocessados altamente viciantes, que seus amigos no governo e em programas universitários de nutrição financiados pelo governo passam a apresentar como parte de uma dieta saudável.
Os americanos — ensinados desde cedo a confiar nas autoridades governamentais e em profissionais de saúde formados em universidades e licenciados pelo estado — tornam-se facilmente dependentes desses alimentos ultraprocessados altamente viciantes, o que talvez seja a principal razão da enorme epidemia de doenças crônicas nos Estados Unidos. Uma epidemia que gera ainda mais demanda, e, consequentemente, preços mais altos, por serviços médicos e medicamentos cuja oferta já é artificialmente restringida.
Acelerando esses ciclos destrutivos estão os departamentos governamentais corruptos de “saúde pública”, que distorcem ainda mais as políticas federais para beneficiar financeiramente grandes empresas farmacêuticas bem conectadas politicamente, além de décadas de políticas federais elaboradas para favorecer operadoras de planos de saúde, políticas essas que destruíram os mecanismos que fazem os seguros funcionarem em benefício dos consumidores e impulsionaram enormemente o ritmo de aumento dos preços no setor da saúde.
Juntos, todos esses programas governamentais foram acumulados e combinados para criar a completa monstruosidade fiscal que é o sistema de saúde americano. Para começar a reparar esse sistema disfuncional, as restrições e subsídios corruptos sobre a oferta de serviços médicos, medicamentos e alimentos precisam ser abolidos e substituídos por um verdadeiro mercado, respaldado por consequências legais para quem prejudicar consumidores.
O dinheiro em si
A última área que abordarei também é a mais importante. Qualquer pessoa que queira enfrentar a crise do custo de vida precisa concentrar atenção no sistema monetário.
O governo assumiu o controle da instituição dinheiro com a criação do Federal Reserve e, posteriormente, com a suspensão da ligação do dólar ao ouro. Essa politização do dinheiro ajudou a impulsionar enormemente todos os esquemas que descrevi acima, ao libertar o governo das restrições tradicionais que exigiam primeiro tributar ou tomar emprestado tudo aquilo que desejasse gastar.
Mas, além disso, especialmente nas últimas décadas, o governo adotou uma política monetária que busca produzir uma inflação de preços permanente — o oposto das condições deflacionárias nas quais toda economia em crescimento se encontrava ao longo de milhares de anos. O governo federal pretende reduzir o valor do dólar em dois por cento todos os anos, para sempre.
Por causa do efeito composto que uma redução anual de dois por cento produz ao longo do tempo, e porque o próprio dinheiro representa metade de toda transação realizada em qualquer parte da economia e 100 por cento de qualquer dinheiro poupado, é difícil exagerar o quão prejudicial essa política monetária inflacionista tem sido para uma população que já enfrenta dificuldades com o custo de vida.
E, além disso, nos últimos anos, o Fed vem reduzindo o valor do dólar em um ritmo ainda maior. É por isso que a crise do custo de vida alto se tornou o principal tema do momento.
Precisamos abandonar esse sistema e retornar àquilo que funcionou melhor para as pessoas comuns ao longo de milhares de anos — um dinheiro determinado pela oferta e demanda, e não pelos caprichos de autoridades governamentais.
Conclusão
Mais uma vez, a boa notícia é que as medidas necessárias para resolver a crise do custo de vida não exigem mais gastos governamentais. Tudo o que é necessário são cortes.
Governos de todos os níveis simplesmente precisam recuar e permitir que mais moradias sejam construídas, mais energia seja produzida e mais serviços de saúde sejam oferecidos. Em seguida, os programas governamentais corruptos e caros que garantem empréstimos estudantis, subsidiam grandes empresas do agronegócio e protegem as grandes empresas farmacêuticas precisam ser cortados.
E então, uma vez eliminadas as políticas que causaram os problemas de altos custos em primeiro lugar, todos os programas assistenciais criados posteriormente poderão ser abolidos ou, no mínimo, significativamente reduzidos. Com todos esses cortes, o governo poderia começar a reduzir de maneira significativa a dívida nacional e cortar impostos.
E, como os impostos representam a maior despesa individual da maioria das famílias, uma redução substancial de impostos iria ainda mais longe e tornaria a vida ainda mais acessível financeiramente para a maioria dos americanos. A crise do custo de vida se tornaria uma relíquia do passado.
A má notícia é que as políticas que causam e agravam a crise são extremamente lucrativas para o establishment político. Não se trata de erros de política pública que saíram do controle; são esquemas governamentais deliberados, concebidos para explorar toda a população a fim de enriquecer e fortalecer a classe política. E, por isso, aqueles que estão no poder lutaram e continuarão lutando com unhas e dentes para impedir que qualquer político ou movimento político enfrente de maneira significativa as verdadeiras causas dessa crise.
Resolver de fato a crise do custo de vida alto não será politicamente fácil. Mas é necessário. Qualquer pessoa ou movimento, dentro ou fora do governo, que esteja genuinamente interessado em buscar essas soluções precisa primeiro compreender o que realmente precisa acontecer. Em seguida, deve apoiar quaisquer mudanças de política pública que nos movam na direção correta em qualquer uma dessas frentes. E, por fim, talvez o mais importante, qualquer político que afirme querer enfrentar a crise do custo de vida alto, mas permaneça desinteressado, indisposto ou incapaz de identificar e combater suas verdadeiras causas, precisa ser tratado como alguém sem credibilidade e substituído.
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Por Connor O’Keeffe
Publicação original
