Saída do governador do Paraná da disputa presidencial reorganiza os planos do PSD, fortalece Caiado, preserva Lula e Flávio Bolsonaro e reabre espaço para novas alianças na centro-direita
A decisão do governador do Paraná, Ratinho Junior (PSD), de abandonar a pré-candidatura ao Planalto e concluir seu mandato retira do tabuleiro um dos players do PSD com melhor desempenho nas pesquisas e força o partido a antecipar a definição de seu presidenciável. Segundo os levantamentos mais recentes, o paranaense aparecia com 7% das intenções de voto, à frente dos governadores Ronaldo Caiado e Eduardo Leite, mas ainda distante dos favoritos Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL-RJ).
Com a saída de cena de Ratinho, o PSD volta suas fichas para Caiado, hoje tratado como favorito interno, e mantém Leite como alternativa, em um movimento que busca preservar a relevância nacional da sigla sem romper com a agenda econômica liberal e o diálogo com o agronegócio. Dirigentes pressionaram pela antecipação do anúncio do candidato, e a cúpula comandada por Gilberto Kassab deve bater o martelo nos próximos dias para evitar o desgaste de um partido sem rosto na eleição presidencial.
No campo majoritário, a desistência tende a consolidar ainda mais a polarização com Lula, que lidera as pesquisas, e o senador Flávio Bolsonaro, herdeiro político do bolsonarismo e já em campanha aberta, reduzindo o espaço imediato para uma terceira via competitiva. Sem Ratinho, que buscava se apresentar como gestor de alto índice de aprovação e perfil moderado, o centro-direita perde um nome com recall regional forte e narrativa de eficiência administrativa.
A movimentação também tem impacto direto nas articulações da direita, sobretudo após o gesto de Flávio Bolsonaro de incentivar a filiação de Sergio Moro ao PL para disputar o governo do Paraná, num pacote que envolve alianças cruzadas em nível nacional e estadual. Ao se retirar da disputa presidencial e concentrar-se no fim de mandato, Ratinho Junior tende a liberar seu grupo político para composições locais com o bolsonarismo, fortalecendo palanques regionais sem, porém, assumir o risco de um confronto direto com Lula em âmbito nacional.
No interior do PSD, a leitura é de que a manutenção de Ratinho à frente do governo até dezembro preserva o capital político do partido no Paraná, estado em que ele foi reeleito com quase 70% dos votos válidos e ostenta índices de aprovação próximos de 85%. Esse ativo regional, combinado ao perfil pragmático de Kassab, alimenta a possibilidade de o PSD negociar apoio futuro no segundo turno, seja com o campo governista, seja com a oposição, a depender da configuração do pleito.
A saída de Ratinho também embola o jogo para 2026 no próprio Paraná, onde PSD, PL, MDB e União Brasil disputam espaço para lançar candidatos ao governo estadual sob a sombra de seu espólio político. Nomes como Alexandre Curi e Guto Silva são citados internamente pelo PSD, enquanto Rafael Greca migrou ao MDB para se colocar como pré-candidato e Sergio Moro é trabalhado pelo PL como aposta para liderar um palanque alinhado a Flávio Bolsonaro.
Do ponto de vista estratégico, ao anunciar que pretende voltar ao setor privado e comandar o Grupo Massa após o fim do mandato, Ratinho Junior sinaliza uma retirada calculada, mantendo-se como referência para futuros projetos eleitorais sem se desgastar em uma disputa nacional adversa. Ao mesmo tempo, sua permanência no governo até o fim reforça o discurso de compromisso com o ciclo de crescimento do Paraná, argumento que deverá ser explorado tanto por seus aliados locais quanto pelo PSD, ao buscar credenciais de boa gestão na campanha presidencial.
