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Novos áudios e mensagens vazadas mostram relação entre Nikolas Ferreira e Daniel Vorcaro

Da redação
3 de setembro de 2026
Deputado disse não se lembrar de contatos com o banqueiro, mas gravações mostram que parlamentar intermediou aproximação entre o dono do Master e um ex-assessor envolvido em negociação minerária

Áudios divulgados nesta quinta-feira (3) colocam em xeque a versão apresentada pelo deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) sobre sua relação com Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master. Em março deste ano, o parlamentar afirmou não se lembrar de ter mantido contato telefônico ou trocado mensagens com o banqueiro. As gravações agora reveladas mostram, porém, que Nikolas procurou Vorcaro para intermediar um negócio de interesse de seu advogado e ex-assessor.

As mensagens, publicadas pela jornalista Juliana Dal Piva, do ICL Notícias, foram enviadas entre 30 de março e 2 de abril de 2025. Nelas, Nikolas pede que Vorcaro receba Thiago Rodrigues de Faria, apresentado pelo deputado como uma pessoa de sua total confiança.

Segundo o parlamentar, Faria tentava avançar com um “ativo minerário” que já havia passado por uma avaliação técnica, mas ainda estava pendente dentro da empresa. Embora afirmasse não conhecer os detalhes da operação, Nikolas se ofereceu para fazer a ponte com Vorcaro.

O banqueiro respondeu inicialmente por meio de um áudio de visualização única. Na sequência, recebeu o contato do advogado e escreveu: “Estamos na guerra juntos”. No dia seguinte, Nikolas informou que Faria estaria em Brasília e disponível em qualquer horário. Vorcaro respondeu: “Deixa comigo”.

As conversas não esclarecem se o encontro ocorreu, se o pedido foi atendido ou qual providência era esperada do então dono do Master. Também não há, no conteúdo divulgado, prova de interferência em órgão público ou da prática de alguma ilegalidade.


Negócio poderia chegar a US$ 45 milhões

O pedido ganha relevância pelo histórico da negociação apresentada ao banqueiro. Segundo o ICL, o nome de Thiago Faria apareceu em documentos relacionados à Operação Rejeito, deflagrada pela Polícia Federal em setembro de 2025 para investigar um esquema de exploração ilegal de minério de ferro em Minas Gerais.

A empresa de advocacia de Faria havia firmado, em janeiro daquele ano, um contrato com a Gmais Ambiental, companhia ligada a investigados na operação. O objetivo seria atuar na negociação de uma lavra pertencente à Topázio Imperial, em Ouro Preto.

De acordo com trecho do inquérito reproduzido pela reportagem, o negócio era estimado entre US$ 30 milhões e US$ 45 milhões. Os parceiros envolvidos poderiam receber uma comissão equivalente a 20% do valor.

A Topázio Imperial detém direitos minerários sobre uma área onde fica a barragem Água Fria, apontada como uma das estruturas com maior risco de rompimento no país. Na época, a operação da área estava suspensa em decorrência de uma ação do Ministério Público Federal.

A investigação indicava que o grupo pretendia regularizar a situação da companhia para vender a lavra e retomar a exploração mineral. Faria não foi preso na Operação Rejeito e afirma nunca ter sido chamado pela Polícia Federal para prestar depoimento.

Versão anterior é questionada

A existência das mensagens contrasta com a resposta dada por Nikolas em março deste ano, quando seu número foi encontrado entre os contatos armazenados no celular de Vorcaro. Na ocasião, o deputado disse à Folha de S.Paulo que nunca havia se encontrado com o banqueiro e não se lembrava de ter falado com ele por telefone ou mensagem.

As gravações mostram não apenas uma conversa direta, mas uma tentativa de aproximação. No áudio, Nikolas chama o banqueiro de “Dani”, afirma que gostaria de ter maior proximidade com ele e encerra uma das mensagens com “um abraço, lindão”.

O deputado também aproveitou o contato para pedir desculpas por ter criticado publicamente um evento patrocinado pelo Banco Master em Londres, que reuniu integrantes de tribunais superiores.

Na mensagem privada, Nikolas afirmou que não sabia que o evento havia sido financiado pelo banco de Vorcaro e admitiu que, se soubesse, “obviamente não teria postado”. A declaração indica que o conhecimento sobre quem estava por trás do patrocínio poderia ter alterado sua manifestação pública.

O episódio se soma a outras revelações sobre a relação entre os dois. Durante a campanha presidencial de 2022, Nikolas utilizou por cerca de dez dias um avião ligado a Vorcaro para participar de agendas em apoio ao então presidente Jair Bolsonaro. O parlamentar sustenta que não sabia quem era o proprietário da aeronave.

Em mensagens divulgadas nesta quinta-feira, Vorcaro afirmou a um interlocutor ter bancado “todos os voos” do deputado. O Tribunal de Contas da União arquivou o caso por não identificar uso de recursos federais, mas encaminhou as informações à Justiça Eleitoral.

Advogado nega irregularidades

Procurado pelo ICL, Thiago Faria classificou os questionamentos como “nada a ver” e disse conhecer Vorcaro porque ambos são de Belo Horizonte. Segundo ele, o ativo minerário foi apresentado a diferentes possíveis interessados.

Faria afirmou ainda que trabalha no setor de mineração e negou qualquer envolvimento em irregularidades. Ele também disse que não encaminharia as perguntas a Nikolas porque o deputado está em campanha eleitoral.

Até a publicação das reportagens consultadas, Nikolas não havia apresentado uma resposta direta sobre os áudios nem explicado por que afirmou anteriormente não se lembrar das conversas com Vorcaro.

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