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Arrancar Glauber da mesa da Câmara foi erro em dobro de Motta

André Vargas
10 de dezembro de 2025
Deputado que protestava contra processo de cassação recebeu tratamento bem mais agressivo que os amotinados de outubro. Ao torná-lo vítima, presidente da Casa demonstra perda de comando

Em um dos piores momentos institucionais da história da Câmara do Deputados no período democrático, a retirada forçada do deputado federal Glauber Braga (PSOL-RJ) da mesa da Câmara dos Deputados, no final da tarde desta terça-feira (9), foi um exemplo acabado da falta de diálogo e da adoção de critérios diferentes por parte do presidente da Casa, Hugo Motta (Republicanos-PB).

Arrancado à força por agentes da Polícia Legislativa Federal, Braga protestava após o anúncio de Motta, que pretendia levar ao plenário o pedido de cassação do deputado e a votação do projeto para reduzir as penas dos envolvidos na trama golpista. Sem relação diretja, também entraram na conta as cassações de Carla Zambelli (PL-SP) e Delegado Ramagem (PL-RJ), ambos condenados pelo Supremo Tribunal Federal (STF). Já Braga pode perder o mandato por ter agredido, com um chute, um militante do Movimento Brasil Livre (MBL), no ano passado, após uma discussão.

A confusão e agressividade indicam que Motta perdeu o controle dos ritos da Câmara, já que situação e oposição passaram a ignorá-lo, tumultuando as sessões. Com isso, perdem governo e oposição.

“Que me arranquem desta cadeira e me tirem do plenário”, disse Braga, que tentava se valer da mesma tática dos parlamentares do PL e do Novo, que no início de outubro pernoitaram nos plenários da Câmara e do Senado para manter a ocupação das mesas em protesto contra a decretação da prisão domiciliar do ex-presidente Jair Bolsonaro.

Eles pediam que fosse pautada a anistia geral e irrestrita aos condenados por tentativa de golpe de Estado no julgamento da trama golpista, assim como queiram o impeachment do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes.

Naquela ocasião, deputados impediram que Motta subisse ao plenário e houve troca de empurrões e demoradas discussões. Só que não houve retirada forçada de ninguém, apesar da demora, e nenhum dos envolvidos foi punido até agora. Desta vez, em menos de uma hora após o protesto,Glauber foi arrancado por agentes de segurança.

A partir daí, o que era ruim piorou pela truculência. O sinal da TV Câmara, que transmitia ao vivo a sessão em plenário, foi cortado por ordem de Motta. A Polícia Legislativa impediu o trabalho do imprensa, empurrando e ameaçando jornalistas. Imagens registradas por deputados mostram o momento em que Glauber Braga é retirado à força, sob protestos de parlamentares aliados.

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Braga foi encaminhado para o Salão Verde, fora do plenário Ulysses Guimarães, com as roupas rasgadas. Ele falou com a imprensa, ao lado de deputados governistas, onde fez duras críticas à ação.

“O senhor [Hugo Motta], que sempre quis demonstrar, como se fosse o ponto de equilíbrio, entre forças diferentes, isso é uma mentira. Porque com os golpistas que sequestraram a mesa, sobrou docilidade, agora com quem não entra no jogo deles, é porrada. Os caras ficaram 48 horas, eu fiquei algumas poucas horas, e já foi suficiente para este tipo de ação”, afirmou Glauber.

“O que está acontecendo agora é uma ofensiva golpista. A votação da minha cassação com uma inelegibilidade de oito anos não é um fato isolado. Nesse mesmo pacote, eles querem votar a anistia, que não é dosimetria, levando a possibilidade de que Jair Bolsonaro só tenha dois anos de pena. Combinado com isso, eles querem manter os direitos políticos de Eduardo Bolsonaro. Porque quando há o desligamento por faltas, a pessoa continua elegível”, criticou.

O parlamentar disse ainda que lutará até o fim.

“Amanhã [10] tem a votação, no plenário da Câmara, da cassação. Eles podem até cassar o mandato, mas eles têm que ter a certeza que, até o último minuto, eu vou estar lutando não é por mim, pelo mandato, não. Eu vou estar lutando para que eles não firam as liberdades democráticas em um pacote golpista, como eles estão tentando fazer. Hoje, fazem comigo, amanhã fazem com outra forças populares, democráticas, e isso não tem como aceitar”, completou.

Em nota pela rede social X, Motta afirmou que Glauber Braga desrespeitou a Câmara dos Deputados e o Poder Legislativo. “Inclusive de forma reincidente, pois já havia ocupado uma comissão em greve de fome por mais de uma semana.” 

“O agrupamento que se diz defensor da democracia, mas agride o funcionamento das instituições, vive da mesma lógica dos extremistas que tanto critica. O extremismo não tem lado porque, para o extremista, só existe um lado: o dele. Temos que proteger a democracia do grito, do gesto autoritário, da intimidação travestida de ato político. Extremismos testam a democracia todos os dias. E todos os dias a democracia precisa ser defendida”, afirmou Motta. 

Ele disse ainda que determinou a apuração de possíveis excessos em relação à cobertura da imprensa.

Em resumo, todos têm alguma razão nos argumentos, mas erraram feio nas ações. Motta por permitir o motim de outubro sem punir ninguém e agora ir contra um único colega, que nitidamente se valeu da mesma tática dos amotinados para se vitimizar caso recebesse tratamento diferente – o que ocorreu. Se Braga for punido, seus aliados poderão exigir o mesmo para os demais. Enquanto isso, a Câmara poderá se alvo de impasses e bloqueios cada vez mais frequentes. Só há um culpado: Hugo Motta.

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