Com projeção de fenômeno mais intenso da história, STF cobra ações urgentes contra incêndios e secas, enquanto o agronegócio entra em alerta máximo para o segundo semestre de 2026
O mundo está prestes a enfrentar um dos eventos climáticos mais desafiadores da história recente, e o Brasil já se mobiliza nos tribunais e nos campos para conter os danos. Centros globais de monitoramento meteorológico na Europa e nos Estados Unidos confirmaram a formação de um “Super El Niño” sobre o Oceano Pacífico. Com uma probabilidade superior a 80% de se consolidar neste segundo semestre de 2026, estendendo-se até o início de 2027, o fenômeno promete trazer secas severas e tempestades históricas.
Cientistas apontam que este evento pode ser o mais forte já registrado desde o início das medições, há 75 anos. A projeção é de que a temperatura da superfície do mar no Pacífico suba entre 2,5°C e 3°C — superando o recorde histórico do El Niño de 1982-83. Globalmente, a revista The Economist já alerta para o risco de crises humanitárias e quebras de safra severas, exacerbadas pelo aquecimento global e por tensões geopolíticas.
Alerta para o agro brasileiro
No Brasil, a preocupação é imediata. Órgãos como o INPE, INMET e o Cemaden alertam que a “teleconexão” — o mecanismo atmosférico que transporta os efeitos do aquecimento do Pacífico para o continente — trará impactos extremos e opostos para o país:
- Norte e Nordeste: Seca extrema e alto risco de incêndios florestais na Amazônia e no Pantanal.
- Região Sul: Volume excessivo de chuvas e inundações, ameaçando lavouras e reacendendo o alerta em áreas ainda vulneráveis, como o Rio Grande do Sul.
“Se um período de seca coincide com a época de plantio ou com uma fase delicada do cultivo, a safra é diretamente afetada. Da mesma forma, o excesso de chuva no Sul pode inundar lavouras e comprometer todo o planejamento”, explica Luis Marcelo Zeri, pesquisador do Cemaden.
STF entra em cena
Diante da gravidade dos relatórios científicos, a resposta institucional brasileira ganhou um tom inédito de urgência. O Supremo Tribunal Federal (STF) elevou o status do debate, transformando a mitigação climática em uma obrigação jurídica, e não mais um mero compromisso político.
Durante o seminário Justiça Climática, realizado em Brasília, o presidente do STF, ministro Edson Fachin, foi categórico ao afirmar que nenhum magistrado pode ser indiferente à emergência ambiental.
"O meio ambiente deixou de constituir apenas um desafio de política pública para se firmar como uma das questões centrais do constitucionalismo contemporâneo", afirmou Fachin.Para Fachin, a preservação da natureza é a engrenagem fundamental para garantir direitos básicos como vida, saúde, moradia e alimentação.
Cobrança prática
Essa postura do Judiciário não ficou apenas no discurso. O ministro Flávio Dino, no âmbito da ADPF 743, deu um prazo de 10 dias úteis para que o governo federal e os estados da Amazônia Legal e do Pantanal detalhem seus planos de contingência contra incêndios florestais associados ao El Niño. A Corte vem exigindo relatórios periódicos de governança climática, uso do Fundo Clima e proteção de terras indígenas.
O que fazer agora?
Enquanto o STF cobra o poder público nas capitais, especialistas alertam que os municípios precisam correr contra o relógio. As recomendações principais incluem:
- Monitoramento hídrico: Cidades que dependem de açudes devem racionar e planejar o consumo de água.
- Planos de contingência: Ativação imediata das Defesas Civis locais para combater focos de incêndio antes que saiam do controle.
- Adaptação no campo: Uso de sementes mais resistentes à seca e armazenamento prévio de ração para o gado.
O Super El Niño de 2026 testará os limites da infraestrutura e da produção brasileira, mas, pela primeira vez, as autoridades estão sendo lembradas de que negligenciar o clima agora configura um crime jurídico.
