Decisão que transferiu Bolsonaro para a Papudinha deixa claro que ex-presidente ficará em condições muito melhores que os demais 384.586 encarcerados no Brasil
O ministro Alexandre de Moraes não tem o mínimo receio de fazer o papel de malvado. É uma característica de quem passou pelo Ministério Público que ganha enorme evidência quando um ex-promotor vai parar no Supremo Tribunal Federal (STF) – foi assim com Joaquim Barbosa no Mensalão. E se há algo que fiscais da lei sabem lidar é com as expectativas dos acusados. Ao lado de delegados eles amarram delações, negociam, orientam a produção de provas. E são muito pacientes, pois a pressa é dos réus. Quando na condição de relator do processo do golpe, Moraes manteve o cacoete e uma certa malícia. O que lhe rendeu críticas justas por agir com dureza, por supostamente trabalhar próximo demais dos investigadores e ficar distante da imparcialidade, já que era um dos alvos da tentativa de golpe – assim como os demais membros da Alta Corte.
A decisão que assinou no fim da tarde desta quinta (15) transferindo Bolsonaro da cela da Carceragem da Superintendência da Polícia Federal para instalações no Complexo da Papuda, ambas em Brasília, apesar de representar um alívio, está repleta de argumentos que serão facilmente apresentados como privilégios perante o aliado que o ex-presidente apoiar nas eleições deste ano. O documento de 36 páginas elenca as condições da cela na PF e apresenta um quadro comparativo com as novas instalações no Núcleo de Custódia da Polícia Militar (NCPM), a Papudinha. A vida do ex-capitão ficará bem melhor. Mas os pedidos recorrentes de prisão domiciliar da defesa devem ser negados por mais algum tempo, em função do patético episódio do lacre da tornozeleira.
No texto da Execução Penal 169 do Distrito Federal, o Moraes deixa claro que Bolsonaro possui privilégios perante os demais 384.586 “custodiados” que cumprem pena privativa de liberdade em regime fechado no Brasil. Dentre eles estão os 131 presos definitivos pela Intentona dos 3 Poderes. Por sua condição de ex-presidente, “em que pese ter sido reconhecido pelo Supremo Tribunal Federal como líder da organização criminosa”, ele deverá ficar afastado dos presos comuns, em uma cela igual a ocupada por Anderson Torres, ex-ministro da Justiça. A Papudinha também abriga Silvinei Vasques, ex-superintendente da Polícia Rodoviária Federal (PRF).
Assim, está apresentado o argumento para a campanha colocando Bolsonaro como um privilegiado do poder, apesar dele se apresentar sempre como alguém contra o sistema e tudo isso que está aí. Só não ganhou o privilégio de uma smart TV, o que poderia lhe dar acesso às redes sociais. Algo proibido aos apartados temporariamente do convívio em sociedade.
Com ironia e sem, horas depois o ministro participou de um cerimônia com alunos da Faculdade de Direito da USP, em São Paulo, onde afirmou: “Acho que hoje já fiz o que tinha que fazer”.
