Gestora compensou a pegada de carbono de escritório e funcionários com créditos certificados, em um momento em que o mercado financeiro cobra mais transparência ambiental
A Rio Bravo Investimentos afirmou ter neutralizado, pelo segundo ano consecutivo, as emissões de carbono ligadas à sua operação corporativa. A iniciativa considera o inventário de emissões de funcionários e do escritório da gestora, com posterior compensação por meio da compra de créditos de carbono certificados internacionalmente.
A medida ocorre em um momento em que a agenda climática deixou de ser tratada apenas como vitrine institucional e passou a entrar na conta de risco, governança e competitividade das empresas. No setor financeiro, a cobrança por métricas, transparência e continuidade tem aumentado, especialmente entre gestoras que incorporam critérios ESG em produtos e decisões de investimento.
Segundo a Rio Bravo, a compensação referente às emissões de 2024 foi feita com créditos do Projeto BAESA, ligado à Usina Hidrelétrica Barra Grande, entre o Rio Grande do Sul e Santa Catarina. O projeto é registrado no padrão Verified Carbon Standard, da Verra, uma das certificadoras internacionais mais conhecidas do mercado de carbono.
A usina utiliza fonte renovável para geração de energia elétrica e, segundo a gestora, contribui para evitar cerca de 608 mil toneladas de CO₂ equivalente por ano ao substituir energia que poderia ser gerada por fontes fósseis. O projeto também prevê ações socioambientais, como reflorestamento, geração de empregos, capacitação de comunidades e incentivo ao desenvolvimento regional.
Para Evandro Buccini, sócio e diretor da Rio Bravo responsável por ESG, medir e compensar emissões é uma forma de transformar o discurso ambiental em prática corporativa. “Quando uma empresa mede suas emissões, entende seus impactos e busca compensá-los com critérios reconhecidos internacionalmente, ela passa a tratar sustentabilidade como responsabilidade prática”, afirma.
ESG como gestão de risco
A Rio Bravo tenta conectar a neutralização da operação própria a uma estratégia mais ampla de sustentabilidade. A gestora é signatária do Pacto Global da ONU, envia relatório anual à iniciativa e mantém um Comitê Institucional ASG para acompanhar temas ambientais, sociais e de governança.
No portfólio, a principal vitrine da casa nessa agenda é o RBIF11, fundo de infraestrutura com classificação IS da ANBIMA. Segundo a empresa, o fundo foi estruturado com a tese de que critérios ESG podem funcionar como mitigadores de risco em investimentos de longo prazo.
“Optamos por criar um FI-Infra ESG justamente porque enxergamos o ESG como um mitigador de risco de longo prazo”, diz Buccini. “Esses títulos de crédito privado têm como característica principal o prazo longo das operações. Então a preocupação é entender se a empresa vai chegar lá com capacidade para honrar esses pagamentos.”
A leitura dialoga com uma pressão crescente sobre o mercado financeiro: não basta mais declarar compromissos ambientais. Investidores, reguladores e empresas passaram a exigir evidências, metodologia e acompanhamento recorrente das práticas adotadas.
Mercado de carbono sob escrutínio
A neutralização de emissões por meio de créditos de carbono vem ganhando espaço entre companhias, mas também exige cuidado. O mercado tem sido questionado, globalmente, sobre a qualidade dos créditos, a adicionalidade dos projetos e a efetividade das reduções declaradas. Por isso, padrões de certificação e transparência sobre os projetos escolhidos se tornaram pontos centrais para evitar que a compensação vire apenas peça de comunicação.
No caso da Rio Bravo, a gestora afirma que a escolha por créditos certificados faz parte de uma tentativa de dar mais rigor ao processo. Ainda assim, como em outras iniciativas do tipo, a neutralização não elimina a necessidade de redução direta das emissões operacionais ao longo do tempo.
“O setor financeiro tem um papel importante porque influencia decisões de capital e padrões de governança. Ser carbono neutro na operação própria é um passo objetivo, mas também simbólico, porque mostra que a transição começa dentro de casa, com dados, inventário, compensação e acompanhamento”, afirma Buccini.
Com mais de R$ 12 bilhões em ativos sob gestão e cerca de 50 fundos de investimento, a Rio Bravo pretende manter a iniciativa em 2025, chegando ao terceiro ano seguido de neutralização. Para a gestora, a continuidade será um dos pontos de diferenciação em um mercado no qual compromissos ambientais começam a ser avaliados menos pelo anúncio e mais pela consistência.
