Luce marca a entrada da fabricante italiana no segmento 100% elétrico, mas estreia divide investidores, fãs da marca e executivos do setor
A Ferrari apresentou oficialmente o Luce, primeiro carro totalmente elétrico de sua história. O modelo foi anunciado nesta terça-feira (26) e chega ao mercado por US$ 640 mil, equivalente a cerca de R$ 3,2 milhões na cotação atual. Na Itália, o preço inicial será de 550 mil euros, tornando o Luce o modelo mais caro da marca fora da categoria de supercarros.
O lançamento marca uma mudança estratégica para a fabricante italiana, que por anos concentrou sua eletrificação em modelos híbridos. A meta da Ferrari agora é que 20% de sua linha seja composta por veículos totalmente elétricos até 2030, metade da ambição inicial da companhia.
O Luce também rompe com outro padrão histórico da marca ao se tornar o primeiro veículo de cinco lugares produzido pela Ferrari. O projeto foi desenvolvido em parceria com a LoveFrom, agência fundada por Jony Ive, ex-chefe de design da Apple. Segundo Benedetto Vigna, CEO da Ferrari, o desenvolvimento do modelo levou cerca de cinco anos.

O carro tem um motor elétrico em cada roda e acelera de 0 a 96 km/h em aproximadamente 2,5 segundos. A Ferrari informou que todos os componentes foram produzidos internamente, estratégia que, segundo a empresa, deve facilitar a manutenção ao longo dos anos e ajudar na preservação do valor de revenda. Para compensar a ausência do ruído tradicional dos motores a combustão, os motores e componentes elétricos produzem um som inspirado em uma guitarra elétrica.
A recepção ao Luce foi dividida. Nas redes sociais, parte dos usuários criticou a proposta elétrica e a mudança estética da Ferrari, enquanto outros elogiaram o desenho futurista do modelo. A reação também chegou ao mercado financeiro: as ações da companhia fecharam em queda de 8,5% em Milão nesta terça-feira (26), em meio à avaliação dos investidores sobre os riscos da aposta no segmento elétrico de luxo.
O lançamento ocorre em um momento de revisão das estratégias de eletrificação entre fabricantes premium. Lamborghini, Porsche, Lotus, Aston Martin e Bentley ajustaram planos no segmento diante da demanda abaixo do esperado, especialmente na China, e da concorrência crescente de montadoras chinesas. A Lamborghini, por exemplo, cancelou o plano de lançar seu primeiro elétrico até 2030 e optou por priorizar um modelo híbrido plug-in.
A Ferrari, porém, tenta posicionar o Luce para um público diferente do fã tradicional da marca. Executivos indicaram que a companhia dará prioridade semelhante a clientes novos e antigos, uma mudança em relação à lógica histórica da fabricante. Analistas avaliam que o modelo pode mirar especialmente empreendedores de tecnologia e colecionadores interessados em uma Ferrari elétrica de produção limitada.
Ainda assim, o projeto abriu uma divisão dentro e fora da indústria. O ex-presidente da Ferrari Luca di Montezemolo criticou publicamente o lançamento. “Corremos o risco de destruir uma lenda, e lamento muito por isso”, disse. Ele afirmou ainda que o Luce seria “certamente um carro que pelo menos os chineses não copiariam” e completou: “Espero que pelo menos removam o cavalo rampante daquele carro.”
Vigna defendeu a aposta como parte da continuidade da inovação na marca e afirmou que a entrada no mercado de elétricos não deve comprometer a margem operacional de 30% da Ferrari, uma das mais altas do setor. “Investimos muito dinheiro nisso, mas também trabalhamos para tornar este carro lucrativo”, disse o CEO.
Flavio Manzoni, diretor de design da Ferrari, reconheceu que o lançamento tende a dividir opiniões. “Acho que é um conceito polarizador, mas acredito que, com o tempo, as pessoas vão entender melhor a proposta”, afirmou.
